A sabedoria da Toscana
Em algum momento no passado aqui do blog, mencionei o meu fascínio absoluto por um livro chamado Um vinhedo na Toscana, do escritor húngaro Ferenc Máté (foto abaixo), disponível no Brasil pela Pensamento, do grupo Cultrix. A literatura, bem o sabe o leitor atento e perscrutante, eventualmente brinda nossa persistência, em meio a clássicos dos quais temos amplas referências, com ilustres obras desconhecidas, de autores desconhecidos, que talvez nem nos chamariam a atenção ao longo de anos, da vida toda.

Com Um vinhedo na Toscana, além do fato de o título, rementendo a essa fascinante e inquietante região italiana, ser um convite irrecusável a espichar o olho, fui, num primeiro momento, capturado pela capa, bonita, suntuosa, reproduzindo, claro, uma paisagem panorâmica da Toscana. Poucas regiões do mundo são, à primeira vista, tão prontamente identificáveis como a da Toscana, com seus escandalosamente esbeltos ciprestes-vela. Não há como confundir essa paisagem ondulante, de colinas e vales (do estilo da foto abaixo), com suas alamedas e seus maciços de ciprestes, com qualquer outra área agrícola ou rural. É Toscana e pronto.

Pois em Um vinhedo na Toscana, o Máté narra a sua determinação em se instalar, com a família, nessa região da Itália, o que, a certa altura, envolve a paixão por uma propriedade local. E implica na restauração de uma casa em ruínas, até o ponto de torná-la habitável, enquanto no entorno vai se delineando um incrível vinhedo, por teimosia e determinação dele, veja só um escritor querendo se meter a fazer vinho. As descrições pitorescas das obras de restauração e da implantação gradativa do parreiral, com castas mais adaptadas e, na verdade, admitidas na Toscana, e o posterior início de elaboração das primeiras safras de vinhos, são antológicas, emocionantes, inesquecíveis, arrancando da gente gargalhada e mais gargalhada.
Bem, esse era e é o único livro do Máté disponível no Brasil, o que até agora não consigo compreender. Como pode um sucesso absoluto de venda e de recepção crítica não ter motivado a editora, por exemplo, a dar continuidade à tradução e à publicação da obra desse autor? Seu clássico internacional nem é esse Um vinhedo na Toscana, e sim The hills of Tuscany, por aqui ainda indisponível. E mais, recentemente, em viagem a Santiago do Chile, para minha surpresa e alegria identifiquei, em plena Feira Internacional do Livro de Santiago, no estante da Seix Barral, uma exemplar pra lá de convidativo de La sabiduría de la Toscana (capa abaixo), sob o subtítulo Los sueños pueden hacerse realidad. Do Ferenc Máté. Estava lá, em letra garrafal.

Não deu outra: passei a mão num exemplar para mim, que é facilmente apreciável em espanhol. Quem dera que já tivéssemos esse saboroso e instrutivo texto disponível em português. E só posso, desde já, ficar na torcida para que não demore a ser lançado, visto que nos priva de reflexões especialíssimas, só obra de um grande escritor, não apenas sobre a Toscana ou a relação dos toscanos com seu universo local e regional, sua organização social e seus princípios para a vida. São reflexões que denunciam e apontam, salutarmente, para os graves desvios de prioridades em nosso dia a dia: achamos que caminhamos a passos largos para uma vida melhor; e na verdade corremos sem freio e sem volante para a infelicidade e para a insatisfação crescentes. Pobres de nós.
Abaixo, tomo a liberdade de traduzir, por conta e risco, do espanhol para o português, uma das passagens desse belo volume, de suas 285 páginas. Em lugar de norte-americanos, como aparece no texto original de Máté, com o asterisco quero fazer crer que poderia estar “valores ocidentais”. Creio que servirá para alguma reflexão. Ele tem ou não tem razão? Claro que tem. Toda!
BUSCAR A VIDA
Com nossos valores norte-americanos *, poderia incomodar-nos até certo ponto a união das famílias e inclusive das comunidades toscanas. Isso porque estamos acostumados a uma sociedade fragmentada que não só separa os ricos dos pobres, senão que nos isola ainda mais em reduzidos segmentos por idade. A segmentação, do mesmo modo que a urbanização, existe para fortalecer o comércio. Experts em marketing se deram conta de que, quanto mais solitários e mais isolados nos façam sentir, mais consumiremos para ocultar ou para esquecer nossa solidão. Assim, fomos divididos em segmentos “comerciais” que se puderam vender: ginásios para crianças, telefones para adolescentes e complexos residenciais para os adultos. A cultura consumista alcançou seu momento máximo quando todos nós acreditamos que as posses podiam assegurar uma apaixonada vida humana; a felicidade, a satisfação pessoal, o amor e a alegria ficaram submergidos enquanto nos inundaram os bens materiais. Mal podíamos saber que nos equivocávamos.
E agora preparamos nossos filhos para a vida consumista desde que nascem. Os brindamos com todo tipo de comodidades, porém os privamos de nosso carinho e de nossa dedicação. Assim que, em vez de ensiná-los, não através de leituras mas sim mediante o exemplo, a valorizar as pessoas, a apreciar a companhia humana e a amizade acima de tudo, sem querer lhes ensinamos a valorizar o que possuem. Em lugar de ensiná-los a compartilhar, algo que os toscanos aprendem mediante a interdependência desde que vêm ao mundo, os ensinamos a trapacear. E todos os seus tesouros lhes deixam pouco espaço para deixar voar a imaginação, sem apenas desejos de fantasiar e nenhuma necessidade de inventar. Em geral, isso nos faz lidar com uma legião de jovens que, privados de afeto e companhia humana diversa, são terrivelmente homogêneos em sua falta de sonhos e perspectiva.
Quando inundamos a nossos filhos de posses (joguinhos, televisão e mil distrações mais), enterramos um dos grandes tesouros da vida: o mistério. E quando, com nossa melhor intenção, os cercamos de maravilhas eletrônicas (o palpável, o sensacional), os insensibilizamos diante das sutilezas, não só de seus semelhantes senão também do mundo natural que os rodeia. O comportamento humano, assim como os milagres da natureza cambiante (montanhas, bosques, arroios, prados e brejos) despertam neles muito pouca curiosidade, ou nenhuma. Por que iriam prestar atenção a isso? O que os fascina são os aparelhos novos e aqueles equipamentos de última geração. E como cada aparelho e cada equipamento é idêntico em todas as partes, acabamos com um continente de clones do qual já não resta qualquer sinal de individualidade.
Enquanto esta vida de joystick e de comunicação à distância desperta em nossos filhos certa sensação de poder sobre seu mundo mecânico, não se verão estimulados nem dispostos a refletir ou intuir. Mais que ajuda-los a serem receptivos ou criativos ou inclusive extravagantes na vida real, isso os ensina a seguir passo a passo as instruções, a coordenar perfeitamente olhos e mãos, a ser pasto para a cadeia de montagem da vida.



