buscar neste Blog         buscar no Gaz

Cidadão do mundo

21/02/2011 20:27:10  |  1089 Visualizações

A minha amigaça Ana Maria Frantz partilhou comigo, dia desses, registros fotográficos de um passeio que ela, santa-cruzense radicada em Londres há bons oito anos, fez por Paris ali pelo final de 2010, ao lado da mana Ana Carolina. A Ana "Magia", com quem tive a honra e a alegria de trabalhar por algum tempo, é, ela própria, uma cidadã do mundo, e transita por cidades, países e ambientes como se estivesse em casa em todos eles, coisa que só alguns seres especiais conseguem protagonizar. É ainda exímia fotógrafa, dessas raras para as quais, tenho a impressão, o mundo sempre conjura a favor. Na mais simples e mais óbvia das paisagens, algo ou alguém se manifesta para que as lentes das máquinas fotográficas da Ana o capturem. E até mesmo quando a própria máquina decide tomar um banhozinho de mar, como soube que ocorreu por um desses dias, nem isso tira dela aquele sorriso maroto de satisfação que só os grandes fotógrafos teimam em ter.
Em meio ao álbum digitalizado que a Ana me encaminhou, ela me pediu que atentasse em uma foto em especial, por mais que todas as outras, uma por uma, fossem nada menos que exuberantes. Era um flagrante captado na estação de Saint-Michel, como se pode reparar na imagem. No meio da balbúrdia de um agitado dia na capital francesa, com milhares de pessoas chegando para pegar o metrô e outras milhares saltando na plataforma para ganhar seus destinos cidade adentro, um senhor, absorto, alheio a toda a confusão, fazia o quê? Lia.



A cena, que para nós, brasileiros, pode parecer desconexa, disparatada, até que é extremamente familiar e natural para um indivíduo de país, digamos, mais instruído. Conta-se nos dedos de uma das mãos, aposto, o número de pessoas que já tenham viajado para Alemanha, Inglaterra, Itália, França ou qualquer outro país europeu, do lado de cá e até do lado de lá do Danúbio, e que não tenham visto, nas situações mais inesperadas, gente das mais diversas idades lendo, ao ar livre, em pé, sentadas, caminhando, tomando sorvete, deixando o cachorro brincar no parque. Um cidadão que sabe que o sucesso de sua vida será inevitavelmente medido pelo que sabe e pelo que leu (e não importa que more em Pomeranos, na Conchinchina, em Assu ou em Itapecerica da Serra) jamais perderá um minuto de tempo vago sem que decida aprender, tendo lido um parágrafo a mais que seja. Há quem diga (e as fontes são ainda e sempre confiáveis) que na entrada do Paraíso (e do Paraíso como ele é concebido, cheio de energia e vitalidade) a pergunta que se deve responder não é: "Quantas baladas frequentou?", mas sim, "Quantos livros leu na vida?" Se baixar de 5 mil, o destino mais óbvio, se o meliante ainda conseguir ingressar no Paraíso, é adubar macieiras. Com um leve detalhe: sendo o adubo.

Pois, em se tratando do moço aí da foto assinada por Ana Frantz, ele é tudo menos um Zé Ninguém. A própria Ana me advertiu para a circunstância, que justamente chamou a sua atenção. Apesar de ele claramente dar pinta de ser um morador de rua, alguém "dito" à margem da sociedade, evidencia estar em paz, absolutamente em paz (coisa raríssima nos ricos dias que correm). Suas posses são mínimas. No entanto, é de se reparar na serenidade de seu olhar de leitor: o óculos, o jeito de quem recebeu bons-modos, faz pensar que possa, talvez, já ter sido um professor, um funcionário público, alguém com graduação, alguém com uma história de vida de tirar o fôlego, e as suposições não se encerrariam rapidamente. O que estará lendo? Por onde andará seu imaginário? Apesar de destituído da tanta comodidade ou benesse que integra a lista de expectativas ou de aspirações de um cidadão convencional desse nosso mundinho ganancioso e ambicioso (ao menos no que diz respeito a posses, porque em termos de sentimento, de paixão, de felicidade, toda ganância e toda ambição levam a... NADA!), esse ilustre desconhecido, fica evidente, é um cara feliz.


É um cidadão do mundo, muito pouco preocupado em tomar posse de um pedaço de qualquer coisa, bem mais ocupado em desfrutar do todo. Porque tem um livro. Quem tem um livro, tem tudo. Quem tem um livro, tem boa parcela de si mesmo. Pode não se ter por inteiro, porque isso é para muito poucos nesse planetinha rapinado (é bem provável que nunca um ser humano tenha chegado a ter a si mesmo por inteiro). Mas ele tem o que a grande maioria busca: um tempo para si mesmo.

A propósito: tens um tempo para ti mesmo? Repetindo a ênfase: para ti mesmo? De verdade? Continuarias sustentando a afirmação mesmo frente a frente com o detector de mentiras? Pois bem...

Obrigado, Ana, por ter me permitido viajar por essa imagem. Uma foto assim só pode ser feita por uma pessoa que já tomou posse de parcela muito generosa de seu próprio mundo interior. Uma cena assim está mais nos olhos de quem a vê do que na realidade em si, visto que milhares de pessoas devem ter passado pelo mesmo lugar e não viram o que viste. E esses, repara, são os que se chamam de... normais. Que estarrecedor que é esse chamado “mundo normal”.

Em tempo:
Saint-Michel (que conhecemos como São Miguel, o arcanjo) é ninguém menos que o comandante de campo do Exército de Deus. O protetor por excelência...

Postado por Romar Rudolfo Beling - romarbeling@yahoo.com.br

Comentários postados:

Ana Frantz
22/02/2011 05:31:55
Querido Romar!
Que linda surpresa nesta manha tao simples de terca-feira. Cheguei ate a ficar assustada quando comecei a ler este post chamado Cidadao do Mundo, com uma foto que reconheci minha logo na sequencia. Que honra! Me sinto imensamente lisonjeada em merecer tamanho espaco em teu blog, Leituras de Mundo, em tua admiração pelo meu trabalho, e mais ainda por esta amizade que nos segue ano após ano.
Ana, tuas fotos, tuas ponderações, e tu mesma, serão sempre, mas sempre, bem-vindos por aqui. Um grande abraço!
Gazeta Grupo de Comunicações
Rua Ramiro Barcelos, 1206 | Santa Cruz do Sul - RS
(51) 3715-7800 | portal@gaz.com.br
Desenvolvido e Mantido por
Equipe de TI Gazeta Grupo de Comunicações