O pior cego é sempre o que não lê
"Quando crianças, somos levados para a escola e lá nos ensinam a ler. Ensinam as letras, ensinam como juntá-las e formar palavras, mas geralmente não nos ensinam o mais importante: saber o que estamos lendo. Não nos ensinam a sentir a leitura, a viver o que o texto está nos oferecendo. É como aprender a andar de bicicleta. Armazenamos as instruções, mas o impulso é todo nosso."
O trecho acima foi extraído de um artigo assinado pela acadêmica Ísis Lopes de Almeida, do Curso de Letras da Unisc, veiculado na edição de segunda-feira, dia 21 de fevereiro, da Gazeta do Sul, na seção "Universo das Letras", sob o oportuno título "A leitura e seus devaneios." Não conheço a Ísis, mas não preciso de mais do que as considerações dela acima para saber que ela é dessas pessoas que captaram a essência do papel que livros, leitura, literatura cumprem em nossa vida. Convido os leitores do blog que se dirijam à edição online da Gazeta (www.gazetadosul.com.br, edições anteriores) e busquem esse texto, ou para os que tiverem a edição impressa à mão, que o leiam da mesma forma. Poderia aqui disponibilizar o link completo mas, por favor, nada de lei do menor esforço. Somos todos, digamos, letrados, leitores, e portanto capazes de irmos até lá por nossa própria conta, não é?
Esse texto da Ísis dá o que pensar, ou, como seria mais apropriado, sugere devaneios. Está certíssima, ela, ao comentar que na escola nos ensinam a juntar letras, a formar palavras, a formar sequências, de repente compor textos curtos, de repente ler textos. Mas entre ler textos e entre entender textos vai a mesma distância que há entre falar de amor ou se dizer apaixonado e entre amar de verdade. Uma coisa nunca é exatamente a outra.
É evidente que a grande maioria das pessoas, e até das que conhecemos e das com as quais convivemos (não adianta taparmos o sol com a peneira), são "alfabetizadas" pela metade. Escrever e ler são aptidões imprescindíveis, e não para alguns poucos. Uma pessoa que não sabe se expressar no papel, escrevendo corretamente e conseguindo transmitir com coerência o seu pensamento, é, reparem, uma pessoa que não conseguirá deixar a sua mensagem clara para os demais, para o mundo do futuro. Logo, é uma pessoa limitada, no tempo e no espaço; incompleta. E por vezes contra a sua próprria vontade, porque não lhe deram a chance. Por isso, costumo dizer que alguém que poderia ler e não lê está falhando consigo mesmo e com os outros.
Falar, fala-se para o agora, a conversa é sempre instantânea. Escrever, escreve-se para o futuro; a pessoa se diz, se estrutura, se molda, se constrói na escrita, e nem preciso mencionar o papel da escrita e da literatura como ferramenta para a psicanálise e para a psicologia, como tratamento eficaz e eficiente em muitas situações-limite. A literatura de testemunho é, quase toda ela, uma via para curar feridas, dores, angústias, perdas, preencher lacunas existenciais que nada mais ameniza. Nisso, a literatura está muito perto das artes plásticas, porque é com um olhar para dentro que o artista lida, é sempre um olhar para dentro que projeta para fora as cores e os contornos.
Ísis é muito feliz ao equiparar o ato de ler (e, por extensão, de escrever; ela própria escreve bem porque, está evidente, é uma grande leitora) ao exercício de andar de bicicleta. A escola, o mundo fora dos livros, nos ensina o que é uma bicicleta. Até nos mostra uma, dá suas especificações e faz publicidade de seus méritos, de quanto poderemos nos sentir livres, dinâmicos, antenados, atléticos, andando de bike. Mas não nos dá a bike. Ter a bike, andar de bike (pegar um livro e LER um livro, ESCREVER algo que preste) caberá a nós.
Na linha do que a Ísis sugere, costumo usar uma metáfora. Ler é saborear um prato substancioso e que nos alimentará, nos deixará mais fortes, que ajudará a blindar o nosso organismo e a prevenir uma série de adversidades às quais inevitavelmente seremos submetidos ao longo de nossa existência, e normalmente até muito cedo. Ler é saborear esse prato. Sabe o que a grande maioria faz? Pede que um outro vá ao melhor restaurante da cidade (a livraria, a biblioteca) e coma um bom prato por eles.
Tem gente que lê, e tem gente que não lê. A diferença entre os dois lados se manifestará rapidamente, sob as mais variadas formas. Não tem erro. Aliás, ninguém sequer precisa ser leitor nem inteligente para saber dessa verdade. O pior cego é sempre o que não lê.
Ísis, tu enxergas muito, e bem, e longe. Toca em frente.
Comentários postados:
(Jefferson Luiz Maleski)
Show de bola a tua frase, Jefferson!
Muito obrigado pela tua visita. É uma imensa alegria ter o teu olá por aqui.
Um grande abraço!
Roseane, olá. Por alguma razão, o teu texto veio incompleto para mim. Chegou no tamanho acima. Queres, quem sabe, me encaminhar ele novamente, quem sabe direto para o e-mail romar@anuarios.com.br? Se tiveres ele, claro. E agradeço muito pela tua participação. Um cordial abraço!
Que bom que você gostou do meu texto, fiquei muito feliz ao ler suas considerações e reflexões sobre o assunto, e concordo plenamente com você quando diz que é cego aquele que não lê.
Um abraço!!!
Obs: Já leu "As mãos de Eurídice, de Pedro Bloch?
Acompanhe minha crônica:
http://cronutopia.blogspot.com/2011/02/as-maos-de-euridice-de-pedro-bloch.html
Olá Dilso! Obrigado pela visita e pelo teu comentário.
Não conheço o "As mãos de Eurídice" e tratarei de conferi-lo.
Vou igualmente ao link conferir o teu texto.
Um grande abraço!



