contraponto 09/10/2018 22h41 Atualizado às 10h57

Faltou autocrítica

Então, quem está surpreso com os atuais resultados eleitorais, com o tsunami conservador que varreu políticos de todas as vertentes?

“Quando as águas da enchente cobrem a tudo e a todos, é porque de há muito começou a chover na serra. Nós é que não nos damos conta.” (Eraclio Zepeda (1937-2015), escritor e político mexicano).

A concomitância da grave crise social e econômica com o sucessivo desvendar dos casos de corrupção deixou a nação em estado de perplexidade e indignação. Logo, generalizou-se a descrença na política, no parlamento, no judiciário e no governo.

Então, quem está surpreso com os atuais resultados eleitorais, com o tsunami conservador que varreu políticos de todas as vertentes? Ora, surpresos estão os que não tiveram capacidade de realizar uma autocrítica acerca dos seus comportamentos, ações e omissões.

Os inconformados com o tsunami “Bolsonaro” não percebem – ou não querem – que ele é mera coincidência temporal, um catalisador de insatisfações de toda ordem e natureza. Poderia ter sido seu João ou dona Maria!

São insatisfações represadas que remontam a  muito antes dos recentes governos, mas ora acumuladas e agravadas, e que explodiram neste processo eleitoral. Não à toa, alcançando e retirando representação de figuras (pré)históricas da política nacional.

O escritor húngaro George Konrad (1933) definiu a antipolítica como “uma força moral da sociedade civil que articula a desconfiança e rejeição públicas do monopólio de poder da classe política dentro do Estado – um poder usado contra as populações. Essa força moral não pretende derrubar o poder político, mas opor-se à opressão que ele exerce sobre as populações.”

Historicamente (mesmo em outros países), partidos políticos – tanto as direções partidárias quanto os militantes mais ativos – têm restrições em realizar uma autocrítica. Temem municiar adversários.

Porém, ao relevar, omitir e desdenhar circunstâncias e fatos negativos de sua responsabilidade, resulta por se equipararem aos piores exemplos da degradante prática da velha política. O que sugere, demonstra e confirma que nada entenderam sobre as razões do presente fenômeno comportamental e eleitoral.

 E agora, face à desqualificada “renovação” no Congresso Nacional, com mais de 30 partidos representados e as discutíveis bancadas temáticas “da bala”, “do boi”, “da bíblia”, “dos parentes” e “da bola”, dias piores virão. Ruim para a democracia, pior para os brasileiros.

O conselheiro Acácio, na obra literária Primo Basílio, de Eça de Queiroz, teria dito que “as consequências vem sempre depois!”