Contra ponto 08/10/2019 23h12 Atualizado às 11h45

O medo manipulado

Desde sempre, estudos históricos e sociais têm ensinado acerca de consequências relacionadas ao sentimento do medo

Desde sempre, estudos históricos e sociais têm ensinado acerca de consequências relacionadas ao sentimento do medo. Tanto em ameaças físicas quanto psicológicas, a sensação de medo desperta alertas e reações surpreendentes.

Diante de um fato novo, estranho e desconhecido, fora da rotina, e face à incapacidade de dimensionar suas consequências imediatas e futuras, flui naturalmente o sentimento de ansiedade, estranhamento e medo.

Esse humano sentimento pode ser relacionado aos fatos sociais e políticos mais recentes no cenário nacional e internacional. Exemplos: as reações relativamente à onda migratória (da África e do Oriente Médio, especialmente) que atinge e envolve praticamente toda a Europa.

As reações face à eleição, ao governo e à retórica do republicano, conservador e empresário Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Aliás, candidato e favorito à reeleição.

Nesse sentido, no meio jornalístico, acadêmico e político-ideológico, em especial, predomina o entendimento de que essas reações populares e eleitorais caracterizariam o que se denomina em política, regra geral, como que de “comportamento e ação de direita”.

Discordo e observo. Mesmo países com histórica tradição de prática política não conservadora, com reiteradas eleições de governos liberais e de esquerda, surpreenderam com novas maiorias.

Novas maiorias agora nominadas de conservadoras e de direita. Por que a maioria do povo teria mudado de opção se havia uma habitual prática anterior?

Não por acaso, por cautela, com certeza, mesmo governos não conservadores também estabeleceram restrições aos prováveis migrantes.

Logo, entendo que não é ideológica (no sentido da tradicional divisão do espectro político) a reação popular e conservadora europeia e norte-americana, por exemplo.

É simplesmente o medo. Não bastasse o desemprego atual (fator principal de restrição migratória), ainda impera o temor da violência aleatória (diferenças e conflitos étnicos e religiosos).

Recentemente, mesmo os brasileiros, sempre elogiados pelo bem-receber, estranharam a onda migratória venezuelana. Recordem a reação do povo de Roraima.

Evidentemente que, do ponto de vista político-eleitoral, haverão de colher dividendos nas urnas aqueles que alertavam quanto às consequências para o meio e modo de vida local.

Ainda que agindo de modo preconceituoso e demagógico, às vezes. Afinal, a manipulação do medo (e da desestabilização social) se dá tanto à direita quanto à esquerda das opções político-ideológicas.

Concluindo. Se o motor da história em Karl Marx é a luta de classes, em Thomas Hobbes é o medo. Ou, então, em Erich Fromm é o medo à liberdade.

O medo faz com que dominemos e sejamos dominados. Pior, o mesmo medo que salva é o medo que pode matar!