Dia Internacional da Mulher: os desafios e as lutas

07/03/2019 17:48:23
Foto: Divulgação

Comemorado no dia 8 de março, o Dia Internacional da Mulher resgata os efeitos econômicos, políticos e sociais que foram alcançados pelas mulheres, principalmente nos últimos 50 anos. A data foi oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU) desde 8 de marco de 1975, em homenagem às mulheres que morreram carbonizadas, no interior de uma fábrica de tecidos de Nova York, depois de vários dias de manifestações por melhores salários e condições de trabalho.

Há quem veja no Dia Internacional da Mulher uma invencionice, moderna e artificial, um movimento feminista e fartamente explorado pelo comércio. Com base nas condições de hoje, não se identificaria tantas razões que justificassem essa data especial. Entretanto, sob o contexto histórico, da luta da mulher – e de homens que entenderam e abraçaram a causa – que precisou romper conceitos e preconceitos para chegar à realidade atual, a comemoração, que não pode ser considerada uma divisão ou agressão entre gêneros, é um reconhecimento, uma reafirmação das conquistas civilizatórias, em que todos somos beneficiários. Nos dias atuais, é impensável, por exemplo, que há pouco mais de cem anos, as mulheres não tinham direito ao voto, no Brasil; que lhes era restrito o acesso ao ensino superior; que inúmeras atividades profissionais vetavam expressamente sua participação.

O que ainda significa ser mulher

Hoje, o fato de ser mulher também pode significar salário menor, carreira limitada, impedimento em seleções ou promoções profissionais, além de outras restrições, algumas até inconfessáveis ou em ambientes que pregam a inclusão feminina, como, por exemplo, na política, sem falar nos assédios morais e sexuais. Além, é claro, de eventualmente conciliar maternidade com atividades profissionais. Mesmo com a recente experiência da primeira mulher como presidente do Brasil, partidos deixam de cumprir as cotas obrigatórias de participação feminina, alegando o desinteresse das mulheres, o que é um dos motivos para que câmaras de vereadores, assembleias legislativas e o Congresso Nacional estejam longe de ter suas cadeiras ocupadas por, pelo menos, 30% de mulheres, conforme recomenda a ONU. Casualmente, na divulgação de suspeitas de candidaturas “laranjas”, nas recentes eleições, todas eram de mulheres, usadas para a finalidade por dirigentes políticos inescrupulosos.

Salários e promoções profissionais

Com relação aos salários, no Brasil as mulheres ainda ganham menos que os homens, mesmo quando exercem cargos idênticos. Paradoxalmente, um estudo da  Fundação Getúlio Vargas (FGV) apurou que essa desvantagem é inversamente proporcional: quanto mais as mulheres estudam, menos ganham, comparadas aos colegas homens, com o mesmo nível escolar.

Segundo a última pesquisa do IBGE, as mulheres ocupam apenas 37% dos cargos de direção e gerência nas empresas. Embora o número reflita, ainda, uma triste realidade, mulheres que já estão exercendo funções de diretoras, superintendes ou presidentes de empresas, acreditam que seja simples questão de tempo para que haja um maior equilíbrio na distribuição dessas atividades, entre os gêneros.

Administradoras das finanças pessoais e familiares

Falando em dinheiro, não é verdade que as mulheres são “gastadeiras”, no sentido de consumistas por excelência, embora em alguns casos realmente o sejam. Uma consultoria americana observou o comportamento de consumidores em 27 países, inclusive no Brasil, constatando que as mulheres são mais racionais, preparadas e disciplinadas para comprar, limitando-se à “listinha” e disponibilidade financeira. Já os homens fazem compras por impulso, principalmente novidades tecnológicas; gastam mais em artigos fora da lista e são desorientados para encontrar o que precisam.

Nos orçamentos domésticos, também, o poder de controle está cada vez mais nas mãos de mulheres, mesmo quando não são elas as principais provedoras do lar. Aliás, é crescente o número de mulheres que sustentam seus lares. Quando uma mulher recebe educação financeira e toma as rédeas das finanças de uma casa, tende a geri-las de forma mais eficiente que o homem, evitando correr riscos e sendo mais propensa ao planejamento com base em metas financeiras. A prova disso é que, na DSOP Educação Financeira, por exemplo, as mulheres são maioria entre os participantes de cursos de educação financeira.

Investidoras

Na área de investimentos, ocupada, predominantemente, pelos homens, tem crescido a participação das mulheres. Não só na tradicional poupança, mas também em fundos de investimentos, ações e, mais recentemente, como investidoras ou empreendedoras em startups (início de novos negócios) e criptomoedas.

Empreendedoras

Empreender já é algo desafiador, ainda mais para as mulheres que podem enfrentar problemas maiores, como preconceitos no meio empresarial. Na avaliação de Luzia Costa, fundadora da Sóbrancelhas, as mulheres empreendedoras enfrentam quatro desafios principais:

  1. Julgamento desigual: os homens ainda são considerados mais competentes;
  2. Medo de fracassar: sustentado por críticas e dúvidas das capacidades delas; 
  3. Equilíbrio na vida profissional e familiar: peso na consciência de não estar tão presente na vida pessoal e dos filhos; 
  4. Falta de poio.

De acordo com a pesquisa Panorama Mulher, realizada pela empresa de recrutamento Talenses, apenas 18% das empresas brasileiras são de propriedade de mulheres. Mesmo com um percentual tão baixo, não são só pequenas lojas de roupas, cosméticos e perfumes, calçados, mas também, em grandes empresas, como a General Motors do Brasil, que é comandada por uma mulher.

Diversificando suas atividades, muitas mulheres estão adquirindo, cada vez mais, franquias, principalmente pelos mercados de beleza e moda, em que mais se identificam. Algumas até criaram sua própria franquia. A santa-cruzense Taíla Teloeken Finn, junto com o seu marido Paulo Finn, iniciaram a franquia D’Vino, com sede em Porto Alegre e que já tem unidades em várias cidades do Brasil.     

O ônus

A maior conquista de espaços na sociedade implicou também em maiores fontes de estresse pela sobrecarga de atribuições - jornadas duplas ou até triplas -, pela falta de dinheiro, pelo endividamento, entre outras. Ocorre ainda uma crescente assimilação de hábitos ou vícios – dependendo de pontos de vista -, considerados, há pouco tempo, de homem, como fumar e beber, e o envolvimento no crime, com drogas e mortes violentas. Além disso, um estudo americano revelou que mulheres que ganham mais podem colocar em risco casamentos estáveis. No Brasil, um estudo da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e SPC Brasil constatou que mais de um terço das empresárias brasileiras abririam mão do relacionamento caso o marido ou companheiro se tornasse uma barreira para seu sucesso profissional. Outras 40%, precisariam pensar a respeito.

Ainda há restrições

É fato que muitas mulheres ainda são, literalmente, subjugadas em suas relações afetivas e familiares – até assassinadas, quando resolvem por fim a relacionamentos doentios ou opressores, o que criou a figura jurídica do feminicídio, e desvalorizadas nos ambientes de trabalho, sociais e até religiosos. Há, também, intolerâncias por parte das próprias mulheres a qualquer outra que pense diferente ou que não faça da “questão de gênero”, por exemplo, uma bandeira.

De outra parte, é, no mínimo, questionável a homenagem que a Escola de Samba Mangueira, vencedora do Carnaval 2019 do Rio de Janeiro, prestou à vereadora Marielle Franco, assassinada supostamente por milícias. É que as milícias cariocas foram criadas para servir a bicheiros que, por sua vez, mantêm as escolas de samba. Como escreveu o jornalista e escritor Carlos Andreazza, “Mangueira é a escola onde havia passagem secreta para trânsito de traficantes. Seu presidente, deputado, está preso, agente no esquema que sequestrou o Rio. A Liesa – Liga de Escolas de Samba é dos bicheiros, que usam o escritório do crime, das milícias. Esse conjunto celebrou Marielle”. É muito estranho e anormal.

Nesta data especial, então, em que se fala tanto nas conquistas das mulheres, contribuiria muito se, antes ou junto às flores, houvesse cada vez mais oportunidades, em todos os espaços, para a expressão e prática das qualidades femininas – diálogo, flexibilidade, multitarefa, cooperação, sensibilidade, intuição, cuidado e outras -, gerando impactos positivos nas famílias, nas empresas e em todos os ambientes sociais. O 8 de março pode até ser marcado como um dia de luta feminina, mas onde homens e mulheres saem ganhando. A escritora Rosana Braga sintetiza isso, quando diz: “Não falo de uma conquista cujo adversário se chama homem! Não precisamos de adversários, mas de companheiros, aliados, protetores e amigos”.

Parabéns às mulheres!

Postado por Francisco Teloeken- francisco.roque@viavale.com.br
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