Brincando de ser feliz

20/02/2018 10:19:21
Foto: Divulgação

Por Romar Rudolfo Beling (romarbeling@yahoo.com.br), jornalista, poeta e escritor 

Brincadeiras são parte essencial e vital da infância. Brincar é uma forma de se relacionar com o mundo, e consigo próprio, de encontrar prazer nas pequenas coisas, de abstrair, aprender e se conhecer. É assim com todos os seres, dos humanos aos demais animais. Cachorros, gatos, pássaros, terneiros, todos brincam, se divertem, se exercitam, expressam entusiasmo ou alegria. Quando reparamos em cães novos ou em gatos brincando, temos a intuição de que estão aprendendo a se relacionar, medir a capacidade de socialização, reagir conforme a necessidade e a treinar a intuição.

Lembro das inúmeras brincadeiras com que eu e os da minha geração, na infância, costumávamos nos ocupar, nos intervalos da escola e nos demais momentos do dia. Quantas delas acabaram se perdendo no tempo, e no entanto eram animadíssimas, requerendo estratégias, rapidez de raciocínio e de reflexão, parceria e traquejo. Jogos como “caçador” (ou “queimada”, que também chamavam de “jogo do mata”) envolviam grande número de amigos, e eram muito disputados. Do mesmo modo, o “pega-pega” (ou “pegador”) ocupava o grupo por horas a fio, até a maioria não aguentar mais e ficar estatelada pelo chão. Então era hora de providenciar água ou um lanche, pois a fome batia. Uma fatia de pão caseiro besuntado com melado e nata era a merenda preferencial.

Em diferentes etapas, também se acrescentavam os diversos jogos de bola, com destaque para o futebol, com goleiras feitas com estacas (ou chinelos servindo de marcação dos postes), da chamada meia-linha, em que apenas uma goleira era usada, sendo que um grupo defendia e o outro grupo atacava. Tudo era divertido. Qualquer coisa podia ser transformada em bola, e o mais provável é que jamais houvesse uma bola de verdade, nova ou mais cuidada. Não raro era uma bola furada, gasta, usada até o limite em que os gomos de couro ainda aguentassem alguns chutes.

Em outras ocasiões, um simples limão verde, deixado “curtir” de um dia para o outro para que se tornasse resistente e menos suscetível a explodir nos primeiros chutes, se transformava em bola, e lá ficava o grupo por horas disputando acirrada partida de futebol no pátio, espantando galinhas, atraindo algum cachorro igualmente animado a entrar na algazarra. Tudo cercado de grande alegria, tirando, claro, algum dedão esfolado, alguma unha trincada ou um joelho ralado, coisas normais, que nos fariam aprender, desde cedo, que a vida nem sempre segue com tudo no lugar.

À medida em que crescíamos, eu e meus amigos (e creio que com muitos dos leitores foi assim também), outros jogos, das atividades físicas aos de raciocínio e de memória, iam sendo incorporados. Os de tabuleiro, como xadrez, dama, gamão, trilha, resta um, entre outros, foram praticados. Quando as bicicletas começaram a se popularizar, foi a vez de fazer corrida de bicicleta, e depois a vez do basquete, do vôlei, do atletismo, dos saltos em distância e em altura. Assim fomos crescendo, ocupando o tempo, evoluindo, e assim cada um foi seguindo a sua própria vocação, uns se direcionando para a agricultura, para os cuidados com o campo, e outros para os estudos.

E HOJE? – Então me defronto com uma questão: onde, quando e de que brincam as crianças de hoje? Onde elas estão, se já não se as vê brincando? Dei-me conta disso porque, não importa que me encontre na cidade ou no interior, onde eu próprio cresci, não vejo mais crianças brincando, em nenhuma hora do dia. Obviamente que as crianças estão por lá. Sabemos que estão. Mas então, onde elas brincam? De que brincam? Quando brincam? Por que não se ouve mais a algazarra?

Definitivamente não me sinto autorizado, habilitado ou preparado para julgar se é bom ou se é ruim, mas o fato é que simplesmente não se vê mais crianças brincando. Não fora da creche ou de lugares associados a escolas. No meu tempo, claro que também se brincava em ambiente de escola. Mas brincávamos mais, muito mais, quando não estávamos na escola, e isso era o melhor de tudo. Por isso, a inquietação: onde brincam hoje as crianças quando estão livres, felizes, leves, soltas, sonhadoras, preparando-se para ser futuros adultos dispostos a seguir seus melhores e maiores sonhos? Organismos que cuidam dos direitos da criança e do adolescente certamente concordarão que se uma criança não brinca, não se diverte, vivências preciosas estão sendo perdidas.

Postado por MICHELLE TREICHEL- michelle@gazetadosul.com.br
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