Cinema 26/12/2017 07h37

O legado de Charlie Chaplin, 40 anos depois de sua morte

A obra de Chaplin atravessou as duas grandes guerras, e ele zombou dos ditadores

Foto: Divulgação

Charlie Chaplin
Charlie Chaplin

Completaram-se, nesse Natal, 40 anos da morte de Charles Chaplin, falecido em 25 de dezembro de 1977, aos 88 anos. Claro, ninguém escolhe o dia em que vai morrer, mas faz todo sentido que Chaplin, criador de um personagem imortal – Carlitos –, tenha se despedido justamente no dia em que a cristandade festeja o nascimento de Jesus Cristo. Jesus é amor, proclamam os cristãos. Seu nascimento é signo de esperança – o Messias que os judeus não reconhecem e ainda esperam.

Carlitos tinha/tem tudo a ver com esse espírito de humanidade e fraternidade. Vagabundo, sapatos rotos, chapéu e bengala, ele se equilibra sobre os próprios passos, sempre enfrentando o poder, em todas as suas formas. O policial, o capitalista são seus arqui-inimigos. Sem um níquel, Carlitos comeu os cadarços do seu sapato, como se fossem fios de espaguete, para matar a fome (Em Busca do Ouro), protegeu o menino órfão (O Garoto), devolveu a visão à garota cega (Luzes da Cidade) e enfrentou a automação (Tempos Modernos). Seu criador, Chaplin, foi um dos construtores da linguagem, fazendo avançar as técnicas de narração cinematográfica. A questão é: na lembrança desses 40 anos, qual é o legado de Chaplin?

Ingrid Guimarães, uma das atrizes mais conhecidas de cinema e TV do Brasil, tem o comediante em altíssima conta. “Chaplin é a minha maior referência de humor. Sou louca por ele. Tenho todos os seus filmes. Essa mistura poética entre humor e emoção é tudo o que almejo. Esse vagabundo desastrado, genial, atemporal. Meu favorito é O Garoto. Choro todas as vezes em que eles se reencontram.” Na contracorrente, Fábio Porchat, igualmente conhecido, emite uma opinião que pode ser polêmica. “O humor pode ser cruel, porque envelhece muito rápido, e o Chaplin envelheceu. Não creio que o jovem de hoje tenha o mesmo interesse por ele. É importante, a resistência dele em O Grande Ditador, mas é meio peça de museu. Representa outra época.”

E Renato Aragão, o Didi, a alma dos Trapalhões? “(Chaplin) É uma das minhas maiores referências, ao lado de Oscarito e Carmem Miranda. Com ele, passei a olhar a melhor maneira de se usar o corpo com graça, mas sem exagero. E poucos conseguem fazer chorar da mesma forma, com o mesmo gestual.” O ator Jarbas Homem de Mello, que estudou muito a obra e a vida de Chaplin, reflete: “Ele foi um gênio do seu tempo, porque encontrou sua arte num momento oportuno, quando o cinema estava se criando. A partir daí, Chaplin foi fundo ao colocar em seu personagem, Carlitos, todas as nuances do ser humano e deixando para os artistas que viriam depois um legado – saber como desvendar e colocar em sua interpretação o lado bom e o lado mau”.

Contra o autoritarismo

Charles Spencer Chaplin nasceu em Londres, em 16 de abril de 1889. Os pais eram artistas de music hall e se separaram quando ele tinha 3 anos. Alcoólatra, o pai morreu de cirrose quando Chaplin tinha 12 anos. Foi enterrado numa vala comum. A mãe era cantora, mas sofria de problemas mentais. Teve diversas internações. Numa delas, uma infecção de laringe impediu-a de cantar. Foi o fim. Face a tanta adversidade, o pequeno Chaplin foi guerreiro. Perseverou. De 1910 a 12, participou de uma primeira turnê pela América, integrando a trupe de Fred Karno. Regressou à Inglaterra e, de novo em 1912, voltou aos EUA.

Da trupe, participava um certo Arthur Stanley Jefferson, que mais tarde ficou famoso como Stan Laurel, formando dupla com Oliver Hardy – O Gordo e o Magro. Em 1913, Mack Sennett impressionou-se com o número de Chaplin e o contratou para sua companhia, a Keystone. Na Keystone, ele criou e aprimorou seu personagem de “vagabundo”. Charlot, na França, Carlitos no Brasil (e na Argentina), der Vagabunbd, na Alemanha. 

Chaplin percebeu que podia usar o movimento acelerado na imagem, quando o filme era projetado a 18 quadros por segundo, no período silencioso, para obter um efeito cômico. Tudo parecia correr na tela. Quando o cinema começou a falar, e os filmes passaram a ser projetados a 24 quadros por segundo, Chaplin resistiu quanto pôde. Em Tempos Modernos, ele incorpora o som, mas ainda é um diálogo absurdo, que não faz sentido (e vira, em si mesmo, um efeito cômico). Finalmente, em O Grande Ditador, ele incorpora a palavra, e o discurso final do barbeiro é uma síntese do credo humanista de Chaplin. A palavra contra o autoritarismo.

Pensar o cinema, e a sociedade. A obra de Chaplin atravessou as duas grandes guerras, e ele zombou dos ditadores. “Embora Luzes da Cidade seja meu preferido, creio que O Grande Ditador é outra obra-prima. Ali, no calor da hora, ele se permitiu ser duro, e crítico, com (Benito) Mussolini e (Adolf) Hitler. E o mais extraordinário é que aquele discurso final, escrito e filmado em 1940, há 77 anos, é uma peça da maior atualidade. Vale para hoje”, acredita o humorista e cronista brasileiro Gregório Duvivier. Nos 40 anos de sua morte, a obra de Charles Chaplin segue viva. E é necessária, nos tempos obscuros que vivemos.