Cineclube 08/07/2019 22h11 Atualizado às 09h11

Amigos do Cinema exibe Guerra Fria nesta terça-feira

Talvez seja arriscado dar a um filme o título de um período histórico

Talvez seja arriscado dar a um filme o título de um período histórico. É o que faz Pawel Pawlikowski com seu Guerra Fria, que será exibido nesta terça-feira, a partir das 20 horas, na sessão da Amigos do Cinema, sugerindo que vai abordar esse período extenso, de 1945 a 1991, quando o mundo esteve à mercê das batalhas estratégicas entre Estados Unidos e União Soviética.

O longa será exibido no Sindibancários (Sete de Setembro, 489), com entrada franca. Mais que filme político, deve ser visto como uma história de amor difícil, prejudicada pelas circunstâncias históricas. Uma espécie de Doutor Jivago, ambientado não nas estepes da Revolução Russa, mas no Leste Europeu cortado da Europa ocidental pelos acordos que puseram fim à Segunda Guerra Mundial.

Zona de influência da então União Soviética, a Polônia tornou-se stalinista, ou seja, sujeita a um regime político que deixava pouco espaço às liberdades individuais. Nesse ambiente minado, movem-se, encontram-se e desencontram-se Zula (Joanna Kulig) e Wiktor (Tomasz Kot). Ele, um professor de música; ela, uma promissora cantora vinda do interior e cuja voz singular e beleza estonteante colocam-na em destaque entre as outras concorrentes a uma vaga na escola de música.

Eles se conhecem em Varsóvia, depois perambulam por Paris, pela antiga Iugoslávia e Berlim. Nesse mundo em transe do pós-guerra, mantêm um romance igualmente tumultuado, cheio de encontros e separações, como se simbolizassem, como indivíduos, o balé desencontrado das potências militares em litígio.

Conta o diretor que fez o filme em homenagem ao pai e à mãe, cujos nomes são os mesmos dos protagonistas, Zula e Wiktor. Talvez essa referência doméstica transmita calor extra à história, mas não beneficia tanto a perspectiva histórica, que parece um tanto turva. Não que Pawlikowski não cuide desse aspecto. Apenas a costura entre o âmbito pessoal e o painel histórico resulta às vezes mal-acabada. Não falta também certo ar melodramático, que dá ao filme uma atmosfera meio retrô. Isso não é defeito em si, mas prejudica a intensidade da obra.

Por outro lado, Pawlikowski usa uma série de expedientes de direção que tentam colocar o filme num escaninho à parte. A começar pela “janela” de exibição, em formato quadrado e não panorâmico, como seria o usual. Depois, pela fotografia em preto e branco, a sugerir um tempo antigo no qual aquele tipo de coisa vista na tela acontecia pelo mundo. Quer dizer, num mundo anterior a 1989, queda do Muro de Berlim, e 1991, dissolução da União Soviética.