Opinião 24/10/2019 08h51 Atualizado às 15h05

Mauro Ulrich: a vida não é filme

Imagine, leitor, a mão de obra que deve ser para o diretor do filme traduzir, em imagens, os pensamentos de um seu personagem

Como não tem o caráter técnico, sisudo, de simplesmente informar, este texto que você está lendo agora bem que poderia servir de base para o roteiro de um filme. Deve ter um nome para isto. Começaria assim:

“Depois de um dia inteiro de trabalho, com uma jornada que iniciou às 8h17 segundo o papelote impresso do ponto digital, o jornalista Mauro ainda encontra ânimo e disposição para se deslocar da sede do jornal onde trabalha, no centro da cidade, até o local – a universidade, distante uns dez minutos dali, dependendo do trânsito – onde estão sendo exibidos os curtas-metragens do 2º Festival Santa Cruz de Cinema.

Ele pega a chave do carro, um Ônix adesivado com identificações do jornal, anota na planilha, e confere o horário da saída em seu relógio de pulso: 18h35. Desce as escadas apressado e no estacionamento, em pé, ao lado do veículo, seu pensamento trafega entre coisas úteis, práticas e essenciais do tipo ‘putz, não vai dar tempo de passar no súper, vou sentir frio (o jornalista esqueceu de pegar um casaquinho!), fome, e só vou poder secar o Grêmio lá pelo finalzinho do segundo tempo’.”

Ah, imagine, leitor, a mão de obra que deve ser para o diretor do filme traduzir, em imagens, os pensamentos de um seu personagem. Existem meios para isto, é claro, mas o cara tem que ser bem criativo para não cair no lugar-comum, daquela narração em off, e tal, ou então com o protagonista olhando para o alto, para as imagens reproduzidas em um infame balãozinho tipo história em quadrinhos, enfim.

Não é fácil fazer cinema. Sob vários aspectos, é bem complicado fazer cinema no Brasil – ou em qualquer canto do mundo. Exige muita técnica e conhecimento e uma certa grana, também.

Mas, sei lá, ontem acompanhando os filmes da segunda noite da Mostra Competitiva, observando o debate posterior, a fala tranquila e segura dos realizadores, me pareceu, de uma certa forma, que a coisa não é, também, tão complicada assim. Tenho testemunhado, ao longo desta semana, que além de um certo talento óbvio só é preciso ter muita força de vontade, paciência, criatividade, coragem, inteligência, sensibilidade, perspicácia, olho clínico, bons ouvidos, disposição, audácia, tolerância, bons amigos...

Viu, não é tão dificil assim, hehe! Mas, voltando a minha base para um roteiro... Ele terminaria mais ou menos assim:

“Sim, a temperatura baixou mais um pouco. E a fome apertou. Devido ao jogo do Grêmio, o jornalista Mauro percebe que o debate está mais ligeiro. Um dos diretores até sugere deixar para lá e irem direto para a Proeza, ver o jogo, tomar uns chopes. De brincadeira, é claro. Nem todos são gremistas no palco. Mauro pensa (olha o balãozinho aí, de novo!) naquele lanchinho que o jornal dá para o pessoal da noite. Sai do auditório com pressa, dá um abraço no ator Leandro Firmino e vai até o Ônix. Um bom carro da Chevrolet (corta para o merchandising e um drone filma o veículo deslizando pela Av. Independência!). Chega ao jornal, sobe as escadas de dois em dois degraus, senta para escrever isto aqui e ouve, lá pelas tantas, na TV, às suas costas, o narrador gritar emocionado: ‘Vai acabar... Acabou! Flamengo está na final da Libertadores da América’.”

E o que parece ser ficção é a mais pura realidade: cinco a zero! Para a metade do Rio Grande do Sul, melhor seria se a vida fosse um filme menos cruel.

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