Opinião 25/10/2019 09h32

Confira a crítica dos filmes exibidos nessa quinta

Exibições aconteceram no Auditório Central da Unisc

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Ulisses da Motta
Crítico, Cineasta e Professor


Amor aos vinte anos (Toti Loureiro e Felipe Poroger)
Bastante acessível para o público, esse curta paulistano começa como uma divertida comédia e evolui naturalmente para um melodrama com roupagem moderna. No enredo, um jovem acaba se envolvendo nos preparativos da festa de boas-vindas à sua ex-namorada, que o abandonou ao viajar para o exterior. A fotografia em preto-e-branco e a trilha jazz classuda remetem às comédias antigas clássicas. O elenco é muito bom e o texto, afiado. 

Magalhães (Lucas Lazarini)
Um dos meus favoritos do festival. Dá vontade de escrever muito sobre esse documentário, mas tentarei ser sucinto. O realizador teve acesso às fitas da campanha de Magalhães Teixeira à prefeitura de Campinas, São Paulo, em 1992. O curta é montagem da mais pura. As imagens de arquivo não precisam de depoimentos ou locuções em off. A rudeza das brutas da propaganda eleitoral tem pérolas que parecem ter sido escritas por algum roteirista de esquetes cômicos, mas não: é a realidade manipulada (onde vemos a equipe de marketeiros tentando desesperadamente "dirigir" os cidadãos que participam das filmagens). O absurdo da campanha política transcende a equipe e outros políticos famosos que vão surgindo e chega ao próprio cidadão. A narrativa escala exponencialmente quando a campanha pega carona nas manifestações pelo impeachment de Fernando Collor. Brilhante.

Riscados da Memória (Alex Vidigal)
Curta do Distrito Federal estrelado pelo maravilhoso Antonio Pitanga. Um ator veterano em cena é sempre uma delícia de ver: sem falar uma palavra, ele compõe seu personagem no momento em que entra cena só pela forma que se movimenta. Pitanga interpreta um dono de loja de vinis antigos que recebe uma coleção de discos antigos. O roteiro tem uma virada excelente no meio da projeção, que sublinha o quanto que esta peça trata de afetos e memória. Há um certo excesso de exposição em algumas falas e a atriz Gabriella Lopes infelizmente não acompanha a linda atuação de Pitanga. Pecados mínimos e perdoados no maravilhoso desfecho, onde o protagonista põe na vitrola um disco quebrado. Assista se puder.

Vigia (João Victor Borges)
Belo romance contemporâneo vindo do Rio de Janeiro. Tem a estrutura do que eu chamo de "mini-longa", onde há profusão de cenas em diferentes cenários. O segurança de um grande supermercado vai se envolvendo em crescente tensão sensual com um operador de caixa. A homoafetividade, entretanto, não é discurso aqui, mas sim a angústia do trabalhador tratado de forma invisível pela população. Os dois atores estão excelentes e possuem química, o que é essencial para um romance funcionar.

Endotermia (Emiliano Cunha)
O cineasta gaúcho Emiliano Cunha é adepto do chamado "cinema de fluxo", onde as obras tentam se conectar com o público de forma sensorial, desprezado a narrativa como espinha dorsal do fazer cinematográfico. Não é o tipo de cinema que me toca; fico na impressão que os realizadores estão tentando me enrolar. Às vezes as obras dessa vertente não costumam achar muita guarida para além da intelectualidade das curadorias de festivais. Aqui, duas crianças esperam dentro de um apartamento. Pelo quê? As peças do quebra-cabeça espectador pode montar, caso tenha paciência. Para todos os fins, o acabamento sonoro e visual deste curta é irretocável.

Budapest_V4_Final2 (Gabriel Motta)
Se o caro leitor achou o título estranho: é uma piada de cineastas, reproduzindo a forma como se nomeiam arquivos de filmes durante o processo da montagem. É um experimento interessante, onde podemos dizer que a personagem principal é a câmera que um casal usa em sua viagem na Europa. Dialoga de maneira interessante com Lembra, curta exibido na noite anterior. Porém, há um verborragia excessiva do casal, que conversa fora de quadro enquanto aponta a câmera para prédios e ruas. Isso desliga o público antes de seu bom desfecho. 

De modo geral, a seleção desta segunda edição do Festival Santa Cruz de Cinema mostrou um grande ecletismo, apostando em diferentes manifestações cinematográficas. Tinha visões cinematográficas das mais acessíveis às mais herméticas. É um belo panorama dos curtas-metragens realizados em todo o país. O profissionalismo da organização é impecável e há grande preocupação de fazer com que os realizadores vindos de todo o Brasil curtam a cidade. É um evento que terá vida longa e cada vez mais relevância no universo de cinema do Estado e do país.

Meus agradecimentos ao Festival Santa Cruz de Cinema, ao SESC, à Unisc à Gazeta pelo espaço concedido a mim e a Júlia Manzano. 

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