O pêndulo do relógio 07/12/2016 12h15

Dezembro na terra do Salvador

Impossível compreender fora da fé, da esperança e do amor a morte de tanta gente jovem. Algo quase sobrenatural

O Pêndulo e eu estamos, juntinhos, contemplando a paisagem da velha Bahia de todos os Santos. Pela janela do velho apartamento do Barbalho que testemunhou meus anseios e preces por tanto tempo...

Como se vivêssemos um sonho...  Dona História ri-se com meu espanto. Divertida, com as certezas humanas tão falhazinhas.... Estabilidade pra sempre é eterna em nossos corações... 

Hoje é um grande dia para a Igreja. Vésperas solenes da Festa da Imaculada Conceição: um dos dogmas de Maria, a Mãe de Deus. Aquela concebida sem pecado. Nossa Senhora é a advogada de fragilidades e incertezas de seus filhos e filhas, que muitas vezes mergulham em vales de lágrimas. E sempre contam com sua presença maternal no vale das sombras. 

A recente tragédia de Chapecó é um exemplo disso. Impossível compreender fora da fé, da esperança e do amor a morte de tanta gente jovem. Algo quase sobrenatural. O falecimento de pessoas idosas merece uma festa. Gente que deu frutos, deixou memórias, amou na vida, comeu, bebeu, chorou, ganhou e perdeu.... Festejou e participou de funerais. Mas que teve tempo para adquirir cabelos brancos; dias e noites que podem desembocar em sabedoria.  Na África ocidental, entre os iorubás, o falecimento de um ancião é celebrado com música, comes e bebes. Assunto para reflexão; em especial no tempo do Advento. De espera amorosa por Aquele que é Sabedoria e jamais decepciona.

No dia 17, entraremos na Semana Santa de Natal. Canta-se a antífona “Ó Sabedoria”. Um dos epítetos do Esperado. Por coincidência, nosso papa veio ao mundo em um 17 de dezembro. Completa 80 anos. E vem demonstrando ao universo cristão e não cristão que é sedento por este dom – a sabedoria – que, por sinal, esbanja. Francisco escancara os portões da Igreja para o diálogo entre os diferentes, mas não desiguais, como gosto de dizer em meus textos.
 
Falando nisso, os lançamentos nacionais de A Cruz, a espada e o agogô “bombaram”. O da Bahia conseguiu fazer-me afônica por três dias. Tamanha a emoção. Na Igreja do Rosário dos Homens Pretos, de tanto combate pela vida. O Coral do Mosteiro de São Bento – sob a regência do Maestro Dilton Cesar – foi presença marcante na bela igreja construída com o suor de homens e mulheres que conheceram nas peles negras o que é ser escravo. 
 
Dia 4, de manhã, dia de Santa Bárbara – a mártir – houve missa campal com muitíssima gente devota vestida de vermelho; a presença do clero baiano e pessoas amantes da vida, na qual o sagrado pega os outros pelas mãos e também se diverte. Muito cheiro de dendê e de acarajés fritando.

Senti saudades de minha madre Paula, com quem vivi uma inesquecível viagem a Salvador, em 2013. Ao me recordar, os lábios entoam a canção de Gonzaguinha: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz.... Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...”