O pêndulo do relógio 12/04/2017 11h21

Quaresmeiras ao vento

Processos ilegais às quintas-feiras, na calada da noite, continuarão a existir

Sem essa, hoje, do que ocorre no País. Reformas, greves e quejandos. O silêncio das quaresmeiras merece particular destaque em corações sedentos de Infinito.
  
Nada mais sublime – diz o mano Pêndulo, ao lado de nosso cão pastor “Igor” – do que o olhar que pousa em quaresmeiras florescidas na Semana Santa. Passaportes para o que não tem fim. Inelutável e imaturo não pensar que somos passageiros neste corpo que um dia retornará ao pó: ao húmus – o que nos faz pensar na palavra humildade. Que nada tem a ver com pequenez, mas apequenamento: cujo sentido evangélico é cada vez mais relegado ao desuso por muitos que cantam e recitam de cor a Escritura: coisa triste, minha gente. 

Flagreios – ao Igor e ao Pêndulo – contemplando além do que se percebe. Olhos fascinados pela beleza. Em sagrado silêncio. Respeito pela Semana Santa, em pleno curso: tempo de orações reflexivas sobre o que é vida ou morte. 

Hoje é quarta-feira. Amanhã será o dia da celebração de um grande presente que o Senhor conferiu à humanidade: a Eucaristia. Apesar da maldade, pusilanimidade e injustiça que levou ao Calvário. Mas – principalmente – experiência da Misericórdia que se sente no coração e pela boca.

Hoje, 12 de abril, é aniversário de minha perpétua mãe espiritual. Oitenta e sete primaveras marcam a existência boa e original de nossa Madre Paula Ramos, a Monja Abadessa Emérita fundadora e cumeeira do Mosteiro da Santíssima Trindade. Mineira que sabe, melhor do que ninguém, perceber a inefável sutileza do Altíssimo. Livre e libertadora. Contempladora de quaresmeiras. Sem medo de ser feliz e de fazer felicidade. Que morou na favela Saramandaia, em Salvador. Sabedoria que separa o joio do trigo e sabe agregar.

Depois de amanhã é Sexta da Paixão. O pêndulo do relógio e D. História, na cadeira de balanços, como sempre, vão se reunir na contemplação de uma obra de arte. De Bernini, talvez de Michelangelo... Quiçá de Aleijadinho, conterrâneo de Ir. Andrea do Mosteiro.

Obra que dá uma ideia esmaecida, para nós viventes, sobre a Paixão de Cristo. Do sangue derramado. Da dor. Da humilhação. 

O que mudou, no duro, dois mil anos após o processo ilegal que condenou, nas trevas da noite, o judeu de pouco mais de 30 anos à morte, e morte hedionda de cruz?

Outro feriadaço dos bons. Há quem tenha preparado as malas com antecedência. Aeroportos e estradas do universo vão transbordar movimento e expectativa. Os trabalhadores nas áreas da saúde, segurança, turismo, gastronomia e transportes em geral sabem que, chova ou faça sol, estarão em seus devidos postos. E a vida continua chovendo bênçãos e espantos sobre cabeças justas e miseráveis.   

Processos ilegais às quintas- feiras, na calada da noite, apenas reunido o pequeno sinédrio, continuarão a existir. Sei disso. Assim como as paixões pelo poder. Que conduzem à morte e aos pecados capitais. Dona História responde que o pior é a vaidade. E a gente contempla as quaresmeiras ao sabor do vento e recita o miserere e pede conversão.