O Pêndulo do Relógio 27/09/2017 10h06

Primavera

A esperança é que nos lança adiante em tempos de dor, de guerra, de desgoverno nacional

Novamente entre nós. Muito mais vovó do que prima – sussurra o mano Pêndulo. Esbanja experiência e sabedoria. Sabe espalhar o perfume que revigora nossa gana ardida de tempo bom. Céu azul. Riachos mexericando. Sorvetes e cervejas com amigos. Tons de verde que rivalizam elegância. Armários e gavetas reformulados. O que é frio perde a vez para outras roupas... 

A primavera é prêmio para os sobreviventes; para os que têm fé e querem seguir amando. “Enquanto há vida, há esperança”: a virtude que nasceu na primavera. E virtude teologal, esta mocinha. Encaminhada pelos próprios dedos de nosso Criador e por Ele oferecida a todos os rebentos. Mana da fé e da caridade. Parente da Empatia e da Compaixão. 

A esperança é a porta-estandarte e sentido de existir das outras duas virtudes. Charles Peguy chega a afirmar que sem ela, a mais jovem, as outras duas irmãs – a fé e a caridade – não passariam de velhas senhoras trôpegas. “Desenxabidas e sem charme seriam”, cochicha o Pêndulo... Concordo e acho lindo – emocionante, mesmo, a reflexão do magnífico poeta e pensador francês.  

A esperança é que nos lança adiante – com delicadeza ou eloquência – em tempos de dor, de guerra, de desgoverno nacional que vivemos no Brasil; a doença que bate na porta; ao cairmos de queixo duro quando nos puxam o tapete... Ou alguém que proclama que o “rei está nu” e todos veem e não têm nada com isso até a hora que alguém diz... 

Ah, a esperança... Forte arma contra o demônio Desespero preocupado em lançar as criaturas no abismo... O suicídio do sonho – próprio ou alheio – é o passaporte. “Esperando, esperei no Senhor... E Ele ouviu meu clamor.” (sl 39/40)... 

Primavera é tempo de espera do Infinito. O frio inverno – terror de velhinhos, pobres e desvalidos – principalmente do outro lado do mapa-múndi onde tudo cobre com gelo e desolação – é ensaio severo para os dias e noites perfumados; em que os seres se acasalam e preparam a eternidade da vida. Que é bela, minha gente. Mesmo nos aspectos feios...

Nada como o amor primaveril. Na Europa, por exemplo. Deita-se no vazio do inverno e se acorda com o cântico de pássaros renascidos pela esperança... flores desabrochando... animais hibernados que deixam as tocas... Ah, a primavera... Seleciona artistas para a poesia e oferece, a quem quer ouvir, o próprio som da música...

A primavera é tempo de ação de graças e contemplação da beleza que reflete o Criador. O amor que tem por todas as suas criaturas. São dele e isso é mistério. Para as quais dedica sempre uma palavra de Vida.

Hoje  é 27 de setembro. Dia em que os umbandistas celebram Cosme e Damião... Recordo-me das recentes destruições de templos por revólveres apontados para corações humildes, no Rio de Janeiro. Fecho os olhos; imagino, com fé, esperança – e desejo de amar o outro – uma grande mesa onde existam incontáveis lugares. E diferentes criaturas degustando as iguarias de que mais gostem, e dou graças à Infinita Surpresa pela primavera.