Entrevista 18/07/2019 23h14 Atualizado às 12h48

“Não existe milagre”, diz secretário estadual de Educação

Titular de uma das pastas mais delicadas do governo estadual não esconde que a educação gaúcha enfrenta uma crise

Anunciado ainda em dezembro pelo então governador eleito Eduardo Leite, como parte do primeiro escalão do secretariado estadual, Faisal Karam recebeu a missão de comandar uma das pastas mais delicadas do governo gaúcho: a Educação. Com o discurso de racionalizar os custos, Karam chegou ao governo depois de ter vivido por oito anos a experiência de administrar, entre os anos de 2009 e 2016, a cidade de Campo Bom.

Como prefeito, conduziu uma gestão marcada por resultados expressivos na melhoria da infraestrutura das escolas do município com pouco mais de 60 mil habitantes. No governo do Estado, no entanto, o desafio proposto é muito mais complexo: gerir 2,4 mil escolas, cerca de 900 mil alunos e 60 mil professores que, cansados dos salários baixos, atrasados e parcelados, pedem providências urgentes dentro da área.

Cumprindo agenda na região, Faisal Karam recebeu a Gazeta do Sul na Escola Ernesto Alves, onde participou, na noite dessa quarta-feira, 17, da abertura dos jogos de integração do educandário. O secretário reconheceu o trabalho desenvolvido na Ernesto, o qual considerou “uma referência na região”. Na conversa, mostrou-se ciente das dificuldades à frente da Secretaria Estadual de Educação (Seduc) e disse que “não existe milagre” a ser feito. Para ele, só “um somatório de esforços” pode ajudar a mudar o cenário negativo da área.

Entrevista
Faisal Karam/ Secretário estadual de Educação

Gazeta – Qual a prioridade do governo estadual hoje na área da Educação e qual o panorama financeiro existente para investimentos?
Karam – A grande prioridade é a reorganização da Educação no Estado. Viemos num processo de mais de 30 anos de desorganização total no sentido de traçar projetos prioritários. Acho que chegamos ao fundo do poço, não somente na Educação, mas na questão de Estado. O agravamento das contas do governo estadual inviabiliza qualquer poder de investimento. A Seduc possui um orçamento em 2019 na ordem de R$ 9,1 bilhões. Nas despesas, somente em quadro de servidores, o custo representa R$ 8,1 bilhões. Teoricamente sobraria R$ 1 bilhão para investir, mas temos que considerar que a folha de pagamento do 13o salário do ano passado não foi paga, e quem está pagando é o atual gestor. Diante desse cenário, do R$ 1 bilhão, a realidade nos mostra que sobra pouco mais de R$ 300 milhões para investir em 2.466 escolas. Sabemos que o salário do educador, infelizmente, é muito ruim, além de estar atrasado e parcelado, entre outras, e que é um processo de recuperação que terá de ser feito ao longo dos anos, pois não existe milagre. Enquanto há cerca de 60 mil professores, entre contratados e concursados, possuímos um quadro de 106 mil inativos. Nunca se deu a devida prioridade para a Educação e hoje se paga um preço alto por isso. Só que antes não era sentido tanto em virtude dos empréstimos realizados, que endividavam o Estado cada vez mais, em um limite que agora nos deixa sem ter o que fazer, a não ser otimizar e racionalizar custos.
Gazeta – A 6a Coordenadoria Regional de Educação (CRE) segue sob o mesmo comando do governo anterior. Existem planos de nomear novos coordenadores ou os atuais vão permanecer? O número de coordenadorias regionais pode diminuir?
Karam – O processo do Qualifica RS está na fase final. Acreditamos que no início de agosto, até o dia 10, devemos ter o nome dos 30 novos coordenadores. Atualmente a banca está ouvindo os candidatos selecionados. Depois esses nomes passarão por uma análise final do próprio governador do Estado. Sobre as coordenadorias, inicialmente se mantém a mesma quantidade. Ficaria muito na contramão fazer uma seleção de quais manter, em virtude de todo o movimento de mudar, extinguir ou fundir, que não é tão simples, pois tem toda uma parte operacional envolvida. Era a ideia do governo centralizar alguns serviços em determinadas regiões. Isso envolveria a Emater, Saúde, Agricultura, Infraestrutura, e não há prédios gigantescos que comportem isso. E tem mais o custo de aluguel, logística, fiação, eletricidade. Acho que o momento não é para isso. Mas reitero que essa é minha opinião, não do governador. Não chegamos a falar sobre isso.
Gazeta – O que as diretorias podem fazer para amenizar problemas estruturais nas escolas?
Karam – Estamos hoje com 337 obras em andamento, algumas herdadas da gestão passada e outras que foram licitadas no início deste ano. Temos uma média de três a quatro obras iniciadas por semana, com os recursos que o Estado possui. Não dá para ficar sonhando que o Estado vai resolver o problema estrutural de 2.466 escolas. Um exemplo que trago é a própria Ernesto Alves, onde tu chegas e te encantas com a estrutura. Isso depende muito da gestão, de quem fez no passado e faz hoje. Se tu tens na mesma cidade distorções tão grandes de qualidade de ensino, depende muito de quem comanda a escola e do envolvimento dos professores para fazer uma escola melhor. Não estou criticando aquelas que não fazem, apenas valorizando as que fazem.
Gazeta – O que os estudantes podem esperar em termos de melhora do ensino e aprendizagem em sala de aula?
Faisal – O governo vai lançar um projeto que é o RS Conectado no Futuro, onde vai se priorizar aquele aluno criativo, inovador e empreendedor. Esse vai ser o foco do governo. Apostar naquelas escolas que já são excelência, como a própria Ernesto Alves, identificando se é inovadora, criativa e empreendedora. Outro ponto importante é trabalhar com a tecnologia. Para o aluno, muitas vezes a rede social é mais atraente que o professor, e hoje os tempos são outros. Nós devemos nos adequar a essa nova realidade. Se a gente não fizer isso, não teremos uma educação melhor.
Gazeta – Como garantir professores motivados diante do parcelamento de salários?
Karam – Ninguém opta por uma carreira sem gostar dela. O professor, quando escolhe esse trabalho, não o faz por uma questão salarial, senão ele morre de fome. Perdoe dizer isso, mas temos que ser claros. Ele optou porque ele gosta, mas também tem de ser reconhecido. Os professores estão motivados e um exemplo é aqui na Ernesto. Se eles não derem uma resposta, fazendo com que a motivação seja algo para transformar o que enfrentamos no Estado, só vai piorar o quadro. As pessoas não são insensíveis à realidade que o Estado vive. Elas estão reconhecendo que o Estado passa por um momento de dificuldade muito grande, como o próprio País, e se elas não fizerem a diferença nesse processo de transformação, não será o político que vai fazer. É a sociedade que precisa mudar o quadro que estamos vivendo, e os professores, apesar de todas as dificuldades com salário ruim, parcelamento e atrasos, na grande maioria, pelo menos, estão muito motivados. Se eles não fizerem essa mudança, não vai ser o político que vai fazer.