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Relato

Vida Real: história de amor fraterno

Seu Adão, um homem franzino, de pele morena, acaba de fazer as compras e está no caixa do mercadinho. “Não conheço ninguém com esse nome, moço”, diz ele, e sorve mais um gole de uma bebida de cor escura, mas com tanto gosto que estava na cara que seria sua preferida. “É refrigerante”, explica, depois de tirar o frasco da sacola e mostrar.

Seu Adão já estava ali, e dali não saiu até porque era o  único cliente naquela tarde quente de terça-feira. Tempo ele tinha de sobra. Contava causos para a senhora que o atendia. Sem esquecer, entre uma pausa e outra, de erguer o litrão, sorver mais um gole, no bico mesmo, sem cerimônias, e a conversa continuava.

Aquele senhor, definitivamente, escorado no balcão, sentia-se em casa. Falou da sua infância no lugar, das mudanças no bairro, dos vizinhos que não vê mais. “Agora tô morando lá em cima”, aponta o sujeito, como se fosse um lugar muito distante, mas a apenas algumas quadras de onde passara sua infância. “Mas quem seria esse Avelino que ‘tu’ procura?”, pergunta ele, várias vezes. E a dona do comércio, de forma paciente, procura ajudar. “Mas como é esse homem?”, indaga ela. Explica-se então: ele é negro, relativamente alto, teve problema com diabetes e parece que precisou amputar a perna, ou o pé, e é cuidado pela irmã.  “Ah, sim, agora eu sei”, alegra-se o cliente. “É o seu Ortunho, claro. Só pode ser ele. Mas a gente nem sabia que o nome dele é Avelino. Bom, ele mora aqui pertinho, sim.”

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Seu Adão, então, explica como se chegaria na casa do seu Avelino, ou Ortunho, como é conhecido. Muito solícito, ele vai até a porta do estabelecimento, ainda com o litrão na mão, toma mais um gole e  detalha. “Tá vendo essa ladeira, ali? Tu sobe, pega a primeira à direita, e aí tem uma casa, outra casa, é a quarta ou quinta casa,  entendeu?”

AJUDA

Avelino Moraes, de 68 anos, nunca existiu para a vizinhança do lugar. Sempre o chamam de titio, e especialmente de Ortunho. Morando em Santa Cruz do Sul desde os 20 anos, foi quando morava nos interiores do hoje município de Sinimbu que o apelidaram assim. O nome Ortunho é em referência a um jogador que fez história no Grêmio por volta de 1960. E o menino Avelino, também jogador nessas redondezas na época, passou a ser chamado pelo mesmo apelido do atleta. Embora também sonhasse fazer fama nos gramados, mudou-se para Santa Cruz e sempre trabalhou como peão.

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“Em toda minha vida, trabalhei pra dez patrão diferente”, diz ele. No último, recorda-se, permaneceu por quase duas décadas. Mas há seis anos, em razão de uma fratura na perna e por sofrer de diabetes, teve que amputar o pé direito e agora mora com a irmã, dona Maria, no Bairro Margarida. É ela quem faz as refeições, lava suas roupas, cuida da medicação. “Eu queria ir pro asilo, pra não dar trabalho pra ninguém. Mas meu sobrinho, o Beto, não quis que eu fosse pra lá”, conta ele, que não tem filhos e, depois do primeiro casamento, nunca mais quis se casar.

“Não quis outra mulher porque só dava problema. Me sinto melhor assim.” Com dificuldade para caminhar, o ideal seria a colocação de uma prótese. “Não sei muito bem o que é isso. Mas tu acha mesmo que ia resolver meu problema?” Para quem quiser colaborar com seu Avelino, ou Ortunho, o telefone de contato é o (51) 3719-3006.

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