Santa Cruz 14/06/2017 16h13 Atualizado às 16h56

Vida Real | Conheça Luciano, o leitor das ruas

Morador de Santa Cruz, 49 anos, criou o hábito de caminhar e ler ao ir para o trabalho

Foto: Lula Helfer

Na varanda, na sala, na cozinha, em todos os cômodos da casa havia livros espalhados. Os autores entravam sorrateiros na residência dos Ávila, na Zona Norte de Porto Alegre, no início dos anos 80. Em forma de presentes, nos aniversários e em festas natalinas, os livros apareciam sempre acompanhados por um chocolate, um brinquedo, um calçado. Eram sete irmãos e sete livros. Na casa dos Ávila, obras com histórias infantis e juvenis eram naturalmente devoradas. Desde pequeninos e desde sempre. 

O apetite por novas histórias do menino Luciano Correa Ávila era tanto que a cada biblioteca nova que surgia na Capital, os pais o levavam. Ainda muito jovem, começou a trabalhar na função de office boy em um empreendimento da família. Para conciliar os estudos, o trabalho e a paixão pela leitura, adotou um método um tanto inusitado: caminhar e ler. 
 
A cada atribuição que seu pai lhe passava, andava pelas ruas sempre com um livro aberto em mãos. Inicialmente, relembra ele, alguns tropeços e quedas ocorreram. “Cheguei a cair algumas vezes, mas, com o tempo, desenvolvi uma visão mais periférica”, diverte-se. 

Biblioteca pessoal

Hoje, aos 49 anos, e morando em Santa Cruz do Sul há um ano e meio, os vinte minutos de caminhada de casa até o trabalho são sempre bem aproveitados, como nos tempos de adolescente. Sai de manhã do Bairro Bonfim em direção ao Centro e, à noite, volta lendo também.  “Caminho onde tem luz pra poder ler”, conta. 

De tanto comprar livros, um cantinho do apartamento foi transformado em uma pequena biblioteca. Estão lá biografias de Kafka, Beethoven, Michael Jordan, e clássicos da literatura. E o mais sagrado de todos: A Ilha Perdida, de Maria José Dupré, a primeira publicação que ganhou de seu pai. Só neste ano, em quatro meses, foram nove livros lidos. 

Luciano, que também é maratonista e especialista em ciência da saúde e do esporte, com 501 corridas completadas em sua carreira, mudou-se para cá depois de conhecer uma santa-cruzense, também atleta, em uma rede social. “Noivamos em segredo no Lago Dourado e depois casamos”, conta. É nas redes sociais que também compartilha com amigos as obras que lê. “As pessoas que não leem, não têm ideia do quanto a leitura transforma a vida das pessoas. E a vida me deu dois presentes: meus pais me apresentaram os livros e o atletismo me deu a pessoa que amo e com  quem casei”, finaliza.