Santa Cruz 21/07/2017 13h38 Atualizado às 15h45

Vida real: seu Sebastião diz ter 117 anos

Santa-cruzense, morador do Bairro Bom Jesus, Sebastião da Silva esbanja saúde e motivação para viver ainda mais

Foto: Lula Helfer

Morador do Bairro Bom Jesus diz ter 117 anos
Morador do Bairro Bom Jesus diz ter 117 anos

Mesmo acomodado em sua cadeira de praia em frente à casa azul, o homem com mais de um século de vida não hesita: ao perceber que alguém se aproxima, ergue-se sozinho do assento e estende a mão para um demorado cumprimento amoroso. É de manhã. E tomar sol no horário das 11 é um de seus passatempos favoritos. Calado, Sebastião Miguel da Silva observa dois meninos que brincam no escadão que dá acesso a vários moradores da Travessa Amazonas, do Bairro Bom Jesus, em Santa Cruz, onde mora. “Pode perguntar o que quiser que este vôzinho entende de tudo. Ele é rei do inteligente”, diz um dos garotos.
 
Desde que saiu de Banhado Grande, interior do hoje município de Gramado Xavier, não há quem já não tenha recebido um conselho do velhinho ao ter com ele um tantinho de prosa: “Ele diz que todo mundo tem que trabalhar, e trabalhar direito”, acrescenta o garoto. Trabalhar, para Tião, como é conhecido, é tão ou mais importante que ir à escola. Ele mesmo nunca frequentou uma sala de aula. É analfabeto e mal sabe escrever seu nome. Mas diz a filha, Arnolda, que cuida do pai há alguns anos, que o pai sempre recomendava aos filhos quando pequenos: “Crianças, pra ganhar o pão de cada dia, só trabalhando”, relembra ela. 


Tião mora com a filha Arnolda
Foto: Lula Helfer

Já é quase meio-dia e Tião decide ir para a sombra, debaixo de um limoeiro. O fruto é sagrado para ele. Todos os dias, após o banho, ele suplica para que dona Arnolda prepare seu aperitivo: um trago de cachaça misturado com o suco do limão. Outro de seus hábitos é o de ter no bolso meia dúzia de guloseimas. Balas e rapaduras, quando faltam, Arnolda sai em disparada até o mercadinho para atender o pedido do pai. Outra de sua preferência é um prato de galinhada, sempre acompanhado por uma taça de vinho. “Ele sabe  que tem um limite. Com um copo de vinho tinto ele já fica satisfeito”, conta a filha. Polenta com molho de frango e pão com banha e açúcar também são seus pratos prediletos. Música também é com Tião. O filho, Sérgio, quando o visita, traz consigo um violão  para que o pai toque e cante alguns versinhos. “A cachaça é uma moça branca, mas é muito traiçoeira. O rico fica pobre e o pobre sem dinheiro”, canta Tião, com uma bela gargalhada na sequência. 

Energias positivas

Seu Sebastião ficou velhinho e um tanto teimoso. Mas não se sente inválido. Ao contrário. Um de seus costumes dos tempos de roça é preparar lenha para o fogão. E muitas vezes insiste para que a filha disponibilize alguns troncos de árvores para fazer gravetos. “Tenho que esconder o facão e o machado senão ele quer trabalhar e não entende que pode se machucar”, relata ela. 


Documento aponta que Sebastião nasceu em 1914
Foto: Reprodução

 

Sebastião casou-se com Sebastiana e com ela teve seis filhos. Ficou viúvo aos 95 anos. Os documentos comprovam que teria nascido em 14 de abril de 1914. Tem, portanto, 103 anos. Mas, a família e o próprio Tião acreditam que ele deve ter 117 anos, pois o registro de nascimento teria sido feito quando Sebastião era adolescente. Quando perguntado sobre com que idade se sente, ele só sorri. Quem responde é dona Arnolda. “Ele ri por qualquer coisa. Acho que é isso que mantém ele sempre com uma boa energia e com saúde de sobra", diverte-se a filha.