Vida Real 01/02/2018 16h40 Atualizado às 19h44

As guerreiras de Taquarizinho

Irmãs saíram do interior, conquistaram a simpatia de clientes e já somam mais de três décadas de trabalho no mesmo estabelecimento comercial

Foto: Lula Helfer

A forte tempestade que devastou a plantação em uma noite de segunda-feira, fez as irmãs Beatriz e Gorete, então adolescentes, decidirem recomeçar suas vidas em outro lugar. Beatriz, um pouco mais jovem, já sonhava com outro ofício que não fosse encerrar o dia com as mãos sempre sujas de terra. Já Gorete pensava nos irmãos menores que ficariam para trás no momento em que decidisse sair de casa. 

O pai, seu João Helmuth Mosmann, faleceu muito jovem. Dona Herlena, hoje com 91 anos, foi quem criou os 13 filhos sozinha. A família Mosmann, com uma grande propriedade em Taquarizinho, interior de Rio Pardo, sobrevivia muito bem com o que tinha. Eram cerca de 80 mil pés de fumo ao ano. Na vasta extensão de terra que as meninas mal sabiam mensurar, cultivavam também feijão, milho,  pipoca, amendoim. Tinham vacas de leite, porcos, ovelhas, galinhas. E produziam mel. 

Embora em sua maioria crianças, havia pouco tempo para brincadeiras. Entre as poucas lembranças de Beatriz e Gorete são as bonecas feitas de espiga de milho. Dona Herlena, que amanhecia e anoitecia na lavoura, deixava as crianças de colo em um balaio para poder liderar os filhos maiores no trabalho. Ao final do dia, faziam fila para o banho em um chuveiro de latão. 

Realização de um sonho

A primeira aquisição da família foi uma charrete, que servia para levar todo mundo para o trabalho e para os passeios. Mais tarde, Antônio, o mais velho, apareceu em casa com uma Kombi azul e branca para que os irmãos pudessem fazer compras em Santa Cruz do Sul. Gorete e Beatriz, que além de auxiliar na plantação, cozinhavam e lavavam as roupas de todos, vinham  para a cidade uma vez ao ano, geralmente às vésperas do Natal. Presentes nunca estavam na lista. Roupas e alimentos eram prioridade. 

O primeiro agrado que as irmãs receberam foi um sapato vermelho e um vestido rosa com babados, por ocasião do casamento de Bernardete, a irmã mais velha. Mas foi em março de 1985 que a trajetória da família tomou outro rumo. Após um temporal que eliminou praticamente toda a lavoura, os dias seguintes foram de tristeza e lamento na casa dos Mosmann. Foi então que Beatriz, a mais sonhadora, pegou Gorete pelo braço e disse: “Mana, aqui não dá mais. Vamos procurar emprego na cidade”.  As duas acordaram cedo, e, após uma hora de caminhada, pegaram o ônibus e chegaram em Santa Cruz do Sul em busca de oportunidades. 

Ao se depararem com uma grande vitrine com dezenas de calçados expostos, Beatriz disse para a irmã que era ali que queria trabalhar. “Bea, mas essa loja é muito chique. Como vamos conseguir emprego numa loja dessas?”, questionou Gorete. Beatriz, mais corajosa, não se deixou intimidar com o comentário. Falou com a gerente, de nome Margarida, e dois dias depois veio a resposta de que poderiam trabalhar na loja que sonhavam: a Marlene Calçados. 

“Tudo o que aprendemos devemos à dona Marlene”, diz, Gorete, emocionada com as lembranças. Com o primeiro salário, em vez de roupas ou calçados, foi todo gasto com dentista. “Naquela época a gente saía do interior e ia pro dentista e logo arrancavam, em vez de arrumar. Por isso resolvemos gastar, colocar dentes de porcelana e ficar com um sorriso bonito”, diverte-se Gorete.   De lá para cá são 33 anos de trabalho como funcionárias da mesma loja. “Com a mesma vontade que a gente trabalhava em casa, aqui também a gente sempre se dedicou como se fosse a nossa casa”, finaliza Gorete.