ELENOR SCHNEIDER 29/06/2020 10h39

O maravilhoso universo das palavras

Se fôssemos às origens e exigíssemos a pureza de nascença, muitas palavras hoje seriam interditadas

Um dos estudos mais fascinantes de uma língua chama-se semântica, cujo objeto principal é assentar a origem das palavras e a peregrinação dos seus sentidos ao longo do tempo e do espaço. Francisco Silveira Bueno, extraordinário intelectual brasileiro, publicou o Tratado de Semântica Brasileira, obra que se percorre com prazer maior que muitos romances. Ali se lê que as palavras nascem continuamente, renovam o vocabulário, mudam de sentido e até desaparecem. E, antes de migrarem para a língua, existem na fala, reduto de seu nascimento. Há alguns anos, um ministro passou por ridículo ao utilizar o vocábulo “imexível”. Hoje, é palavra perfeitamente aceitável e desvestida de humor. Ninguém passa por ignorante usando, por exemplo, cláusula imexível.

O que acontece é que se aprende a palavra no seu sentido atual. Poucas pessoas se questionam sobre sua origem e a evolução do seu significado. Repasso o caso de formidável. Essa palavra vem do Latim formido, que significa medo, horror. O que resta desse original em jogo formidável, desempenho formidável, comida formidável?

Se fôssemos às origens e exigíssemos a pureza de nascença, muitas palavras hoje seriam interditadas. Silveira Bueno cita o caso de brasileiro. Degredados portugueses, foragidos, expulsos, vieram colher o pau-brasil. Esses cortadores recebiam, então, o nome de brasileiros (como existem os seringueiros, por exemplo). Quem se lembra, atualmente, de associar brasileiro a pau-brasil?

Há um tempo, em alguns segmentos, a palavra aluno foi abominada, quase banida do mundo. A alegação era que na origem teria o sentido de “sem luz”. Lumen, em Latim, significa luz. Acrescido o prefixo a (ausência de), daria sem luz, por extensão, ignorante, sabedor de coisa alguma. Então, na trilha do politicamente correto, convinha eliminar a palavra. (Cabe até perguntar se a pessoa já era “iluminada”, já sabia tudo, o que fazia na escola, na universidade?)

Em parte alguma encontrei essa explicação. Num dicionário de Latim, alumnus é traduzido como filho adotivo, educando, discípulo. Olha que extraordinário isso! Um bom professor, para ter êxito em seu ensinar, tem os alunos como verdadeiros filhos adotivos, acolhe-os em sua individualidade, compreende suas diferenças e necessidades particulares. E, se querem aprender, serão discípulos de seu mestre. 

Se seguíssemos à risca a interdição desse a-lumen, milhares de palavras deveriam ser banidas. Embarcar, por exemplo, vem de barca, donde em+barc+ar, entrar na barca. Como embarcar, então, no ônibus, no avião, no carro, e até mesmo numa fria? Inúmeras palavras, num processo de mobilidade constante, deixam na poeira do tempo sua certidão de nascimento.

Conforme os interesses, os desejos, as conveniências, a extensão de sentidos, as palavras e expressões vão se amoldando, inclusive sendo substituídas. Trombudo se tornou Vale do Sol; Corvo se tornou Colinas; vendedora passou a consultora; romeiro era o que ia a Roma, e hoje significa qualquer peregrino em busca de um espaço especial de oração. Se quero agredir, digo “mentiste”; se quero amenizar, digo “faltaste à verdade”. 

O mundo das palavras é tão maravilhoso que desejo ser aluno a vida inteira. Quando olhamos atentamente para elas, tudo que aprendemos tem mais sentido. E aprender só vale a pena se tiver sentido.

LEIA MAIS COLUNAS DE ELENOR SCHNEIDER