Ciclo encerrado 13/03/2019 08h32 Atualizado às 08h46

Afinal, o que houve com o Avenida?

Time viveu um momento histórico no campeonato nacional, mas não deu conta em nível estadual

Depois da desclassificação na Copa do Brasil, o Avenida desceu ladeira abaixo. O time conseguiu viver um momento histórico para Santa Cruz em um campeonato nacional, mas não deu conta do recado em nível estadual. Na noite de segunda-feira, foi goleado pelo Novo Hamburgo fora de casa, perdendo por 4 a 1.  O resultado deixou o Periquito mais próximo do rebaixamento para a Série A2 em 2020 e, nessa terça-feira, o técnico Fabiano Daitx foi demitido da equipe. Mas o que levou o time santa-cruzense a essa situação?

O presidente do clube, Jair Eich, destacou o bom desempenho nos dois últimos anos, mas assumiu que a “inocência” pode ter atrapalhado o decorrer do caminho. “Não soubemos avaliar o que isso representaria. Ficamos pensando só em participar dessas competições e a gente sofreu um desgaste físico, especialmente dos nossos atletas. Hoje (segunda) chegamos a uma partida extremante importante, até pela dificuldade na colocação da tabela, e tivemos que trocar três jogadores do grupo.”

Com ainda dois jogos pela frente para o fim da primeira fase do Gauchão, Eich comentou sobre a expectativa por um bom resultado na partida contra o São José, marcada para as 16 horas de domingo, no Estádio dos Eucaliptos.  O presidente disse que, apesar do placar de segunda-feira, os jogadores não aceitaram a derrota de forma tranquila. “Diante da situação em que o Avenida se encontra e com o placar adverso, lógico que a organização acaba sendo prejudicada. Talvez os gols adversários surgiram por ansiedade nossa de querer definir a partida no começo.”

Apesar do momento ruim, clube deve disputar a Série D
Mesmo se o rebaixamento no Gauchão for confirmado, o presidente garantiu que o clube deve continuar trabalhando. Entretanto, Jair Eich comentou que a falta de recursos financeiros poderá ser um empecilho para a participação na Série D do Brasileirão, que se inicia em maio. Afirmou que, devido a uma decisão judicial, cogita não seguir na disputa. “Para continuar na competição, a gente precisa da receita que a Copa do Brasil poderia nos dar, se ela for repassada. Vamos tentar de todas as formas.”

O regulamento da competição estabelece que o Avenida deve enviar um ofício à Federação Gaúcha de Futebol pedindo a desistência com, no mínimo, 50 dias de antecedência. O prazo terminaria no próximo sábado, mas, conforme o presidente da Federação, Francisco Novelletto, o documento poderia ser entregue até segunda-feira. “Para mim, o Avenida vai jogar. Duvido que fique de fora. Mas se desistir, em último caso, colocaremos outro time gaúcho na competição.”

Jair explicou que parte do dinheiro da Copa do Brasil estaria penhorado pela Justiça, o que dificultaria a participação no Brasileirão. No entanto, ele não quis dar detalhes sobre o processo, nem revelou o valor que estaria em jogo. “Temos uma semana para tentar reverter. Estamos estudando a melhor forma de fazer isso. Até quarta-feira (hoje) devemos ter tomado a providência.” Apenas por se classificar para a Copa do Brasil, o Avenida deve receber cerca de R$ 1,1 milhão, conforme informado pela direção do clube na época.

O processo
A Gazeta do Sul apurou que há uma decisão judicial de 2002 contra o Avenida, cuja sentença é de uma dívida de cerca de R$ 470,5 mil. De acordo com o advogado Eduardo Fischer, que representa o autor da ação, o processo cível é referente a um crédito que o cliente tinha junto ao clube. O valor original seria significativamente inferior ao que está sendo cobrado agora pela Justiça.

Por causa da sentença, segundo Fischer, o Avenida já teve um imóvel leiloado e o valor foi repassado ao autor da ação. Porém, a dívida não foi totalmente paga. O advogado explicou que, atualmente, o clube tem mais um imóvel penhorado devido ao processo judicial e a Justiça determinou que 20% do montante a ser recebido pelo Avenida, relacionado à cessão do direito de transmissão dos jogos pela Copa do Brasil de 2019, seja depositado em juízo. O valor equivalente aos 20% não foi informado. Conforme consultado no processo, a Justiça determinou, em fevereiro, que a Confederação Brasileira de Futebol e a Federação Gaúcha de Futebol façam o depósito relativo à segunda fase da Copa do Brasil.


Cinco pontos que deram errado para o Periquito
Adriano Júnior
adriano@gazetaam.com.br

  1. Um dos pontos que prejudicaram o Avenida foi o plantel inferior ao do ano passado. Jogadores que saíram, como Itaqui, Toto e Fidélis, fizeram falta e não foram substituídos à altura. Mesmo sendo campeão invicto da Copa Wianey Carlet, no segundo semestre de 2018, o futebol apresentado não convenceu totalmente o torcedor, que esperava mais em termos de futebol e contratações, como de bons laterais.
  2. Os melhores jogaram pouco, como Alexandre e Marcos Paraná. O primeiro foi o melhor atleta do Avenida em 2018 e o segundo, a principal contratação para 2019.
  3. Outra decisão equivocada foi deixar o melhor goleiro no banco. Fabiano Heves só voltou na Copa do Brasil, talvez, como um prêmio por ter sido titular da equipe que garantiu presença no certame nacional.
  4. Divergências de campo. Enquanto o técnico defendia um futebol defensivo e compacto, que deu certo no ano passado, é preciso reconhecer, os jogadores queriam atacar mais. Fabiano Daitx não acertou a mão, não conseguiu encontrar o time ideal e equilibrado. O Avenida possui a pior defesa e o pior ataque.
  5. A Copa do Brasil, a grande conquista do Avenida, atrapalhou, pesou fisicamente. Lesões ajudaram a deixar o time na zona do rebaixamento, sem falar no extracampo. A permanência de Fabiano Daitx, bancada pelo presidente, desagradou a dirigentes.


O que pensam
Regis Höher, comentarista da Gazeta AM
“Primeiro detalhe, o Avenida, enquanto estava na etapa em que poderia ser um time defensivo e não precisava ter tantas ambições ofensivas, conseguiu se manter. Quando mudaram o padrão de jogo e a qualidade dos adversários, teve de reagir, mas estava sem força e capacidade para essa reação porque precisava ser um time mais ousado, precisava ter ambição ofensiva e isso o Avenida nunca teve, principalmente, porque não é da característica do seu até então treinador, que acabou saindo agora. Essa saída é uma consequência do que acontece no futebol brasileiro. O treinador de futebol que perde duas, três e não consegue atingir a sua meta é a figura que vai sair. Para não demitir 12, 15 ou 20 jogadores, demite um, que é o treinador. Mas faltou mais qualidade e ambição ao time do Avenida.”

Leandro Siqueira, narrador da Gazeta AM
“As entrelinhas das últimas entrevistas de jogadores, técnico e diretoria revelam que o Avenida perdeu o senso de equipe neste ano. A meu ver, só a força de atração da Copa do Brasil e os dois jogos inéditos conseguiram resgatar o antigo ambiente de concentração, foco e entrega. O simples Gauchão não foi suficiente para acalmar o barulho, tumultuador de ambientes. A crise ganhou corpo entre os conflituosos conceitos de ‘futebol bonito’ e ‘futebol de resultados’. É notório que o torcedor, o boleiro, a crônica e até alguns dirigentes estão mais para a arte – o jogo com posse de bola. Sendo assim, as convicções não convencionais do Fabiano Daitx só se sustentavam com bons resultados. Muita gente ‘engoliu’ a proposta do técnico nas campanhas vitoriosas até agora, mas o barulho aumentou a ponto de ruir o modelo. O técnico já não tinha mais diálogo com importantes aliados de antes e sua mensagem perdeu força, dentro e fora de campo. A direção sabia e demorou a agir. Pesou a gratidão pelos três anos de bons serviços. Parece tarde para plantar um novo discurso capaz de resgatar o senso de unidade, tão necessário para ressaltar a qualidade e buscar vitórias. Ainda dá! E tem uma inédita Série D pela frente, para sustentar a trajetória de crescimento como clube. Avante!”

Marcos Rivelino, comentarista da Gazeta AM
“Na verdade, sem diminuir os méritos dos excelentes resultados alcançados pelo Avenida, que alcançou notoriedade nacional, dentro de campo era visível que a proposta defensiva jogando por uma bola tem prazo de validade. Vieram jogadores de bom nível técnico, mas que não se adaptaram ao estilo de jogo proposto por Fabiano Daitx, que errou na teimosia e desconsideração de planos alternativos.  A direção também tem sua responsabilidade ao respaldar, em demasia, o comando técnico da equipe.”