Skate 02/02/2020 19h54 Atualizado às 21h05

Yndi Asp pode ser uma das representantes do País na Olimpíada do Japão

Essa projeção, só foi possível porque ela teve a oportunidade de praticar e treinar na pista de Santa Cruz do Sul

Se alguém, em algum momento, viesse a buscar justificativa para a decisão de construir pistas de skate em Santa Cruz do Sul, a resposta seria: Yndi Asp. Aos 22 anos, nascida em Florianópolis (SC), mas filha da santa-cruzense Betânia Losekann Barros e do também gaúcho Francisco Asp, de Guaíba, ela hoje é a terceira no ranking feminino brasileiro na categoria Park, e com tal índice se credencia a ser uma das representantes do País na Olimpíada do Japão, em julho e agosto, justamente na estreia oficial do esporte nos jogos. Essa projeção, de certa forma vertiginosa, uma vez que ocorreu em cerca de sete anos, só foi possível porque ela teve a oportunidade de praticar e treinar em pista de Santa Cruz. Quando se deu conta de que era sua vocação, voou muito alto.

E se a Olimpíada está nítida no horizonte de Yndi, ela já traz na bagagem, de um 2019 excepcional em sua carreira, a condição de ter sido a primeira brasileira a vencer, em junho, etapa do Women’s Pro Tour, no Vans Park Series, em São Paulo. É nada menos do que a maior competição mundial da categoria. Em julho repetiu o feito, vencendo a etapa de Montreal, no Canadá. Assim se impôs em definitivo na cena, e inspira outros atletas que possuem ligação com Santa Cruz, caso do também catarinense Vinicius Kothe, o Vini Kothe, 15 anos, que, embora igualmente nascido em Florianópolis, tem familiares em Santa Cruz.

No caso de Yndi, foram as pistas de Santa Cruz que a inspiraram. Com os pais, acostumou-se a vir à cidade natal da mãe para visitar o avô Cezar Renato de Barros, o Cezinha, cabeleireiro. E foi numa festa de final de ano na casa do vô Cezinha que recebeu de presente do pai o seu primeiro skate. “Meu pai foi comprar um presente para o meu irmão, Yuri, hoje com 17 anos, e decidiu também comprar algo para mim. Escolheu um skate”, relembra Yndiara, seu nome de batismo.

De volta à rotina em Florianópolis, onde a família está radicada, naquele momento acabou por esquecer do skate. Mas sua atenção voltaria a ele. Quando já estava com cerca de 14 anos, foi em visita a Santa Cruz que Cezinha a convidou a seguirem até a Praça Siegfried Heuser, junto ao Centro de Cultura Jornalista Francisco José Frantz. Na pista de skate local, que Yndi elogia pela qualidade, e apoiada no braço do avô, começou a dar as primeiras voltas. Até já não querer mais sair mais de lá. “Ela passava as férias na cidade treinando direto lá”, frisa Cezinha.

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Torcida
Era a descoberta de uma vocação ou de um talento inato. Esse esporte a levaria, em sete anos, para o alto do ranking. Hoje integrada à equipe da seleção brasileira de skate, tem o apoio e o custeio oficial de despesas, e conta ainda com patrocínio de marca top, a Red Bull, o que a torna estrela de expressão global e atração por onde passa, em capitais e cidades turísticas dos cinco continentes.

Se 2019 foi uma espécie de ano mágico em sua carreira, firmando-a no elenco de seleção, ao lado de nomes como Isadora Pacheco, 14, sua conterrânea de Florianópolis, bicampeã brasileira na modalidade Park; ou de Pedro Barros, 24, outro conterrâneo de Floripa, tetracampeão mundial na categoria Park, 2020 tem tudo para ser o ano do grande salto de Yndi. Basta que nas classificatórias para o mundial consiga se manter entre as três atletas brasileiras de sua categoria mais bem classificadas no ranking, e o passaporte para o Japão estará assegurado.

No final de 2019 ela esteve em Santa Cruz para visitar os familiares. E aproveitou, claro, para rever a pista da Praça Siegfried Heuser, onde essa história teve seu despertar. Na ocasião, posou para as lentes do fotógrafo Bruno Pedry, da Gazeta do Sul, e nesta semana, por telefone, a partir de Florianópolis, relembrou sua trajetória. Focada em se garantir na Olimpíada, e dedicando-se de forma integral ao esporte, mira o futuro. E sabe que tem a torcida dos santa-cruzenses. Dentre eles, mais do que todos, do vô Cezinha.

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O orgulho do avô Cezinha
Em Santa Cruz do Sul, o avô Cezar Renato de Barros acompanha cada passo, cada viagem, cada voo de Yndi nas pistas, e o faz com evidente orgulho. Afinal, foi ele quem estendeu o braço e deu apoio para as primeiras voltinhas de skate da neta. Nem Cezinha nem Yndi certamente poderiam imaginar, na época, há cerca de sete anos, até onde aquele esporte a levaria.

Aos 62 anos, o santa-cruzense Cezinha, que durante 14 anos foi diagramador e arte-finalista na Gazeta do Sul, avalia essa trajetória como uma história de enorme superação familiar. Cezinha é o filho do meio de cinco irmãos, do casal João Fortunato de Barros Filho, falecido, do qual herdou a vocação de cabeleireiro, e Edy Rodrigues de Barros, hoje com 84 anos. Suas irmãs Edilamar de Barros Bender e Zoé residem também em Santa Cruz, enquanto a mana Edileta Severo mora em Vinhedos (SP). O irmão Alaor faleceu no mesmo acidente que vitimou seu pai, há 48 anos – Cezinha estava com 14 na época.

Quando tinha 20 anos, conheceu Ana Lúcia Losekann, então com 18. Do namoro nasceu sua única filha, Betânia, em Santa Cruz, e que posteriormente morou com a mãe em Santa Maria, Cassino e, por fim, Florianópolis, onde se radicou. Lá, do relacionamento de Betânia, então com 20 anos, com Francisco Asp, nasceu Yndiara Asp, no dia 19 de outubro de 1997. Cezinha lembra que, com Yndi em vias de completar seus 15 anos, perguntou a ela qual presente gostaria de ganhar. Ela escolheu viajar para alguma cidade mundo afora, na qual pudesse praticar skate, aprender mais sobre o esporte. Cezinha a levou, ao lado de Betânia, para a Espanha. “Em uma praça de Madri, ficamos nada menos do que dez horas direto praticando. Ela abriu mão de almoço e janta, até escurecer. Não queria mais parar, ninguém a tirava de lá”, lembra, sorrindo.

O avô não economiza palavras de admiração pelo empenho e personalidade da neta. “Vejo essa ascensão dela com o maior orgulho do mundo. Ela é minha estrela. Está sempre brilhando. E é uma pessoa simplesmente fantástica, além do inegável talento”, enfatiza. “Mas vejo com orgulho e, ao mesmo tempo, confesso, com apreensão. Fico sempre muito nervoso quando ela compete. Afinal de contas, é um esporte radical, perigoso.”

E menciona a capacidade criativa, a forma diferenciada de Yndi se expressar. “Ela é minha princesa, mas é um leão em pessoa quando sobe num skate. Confio plenamente nela, porque é arrojada e muito certa, correta, uma cabeça incrível. A Yndi voa, tem um diferencial, e foi o Pedro Barros, multicampeão, quem disse isso: a Yndi está sempre buscando um movimento diferente. Ela alia talento, persistência e criatividade.”

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Entrevista

Magazine – Como avalias o início de ano e as perspectivas para 2020?
Bateu a consciência de que é um ano olímpico. Tipo: caraca!, em dois meses começa a preparação para ir. Agora ela já tá logo ali. Dentro de seis meses começa. O ano iniciou com a etapa aqui de Florianópolis, que não é classificatória para a Olimpíada; primeira vez que aconteceu aqui esse evento brasileiro e, como foi aqui, na minha cidade, participei. Mas não era o foco do momento. Até não consegui andar como queria, não consegui entrar direito no campeonato. Mas tudo bem também. É uma caminhada que estou fazendo. Meu foco é mais lá na frente; é cheio de altos e baixos mesmo. E se agora não foi tão bem, vou estar andando melhor lá na frente.

Vens de um excelente desempenho ao longo de 2019…
Foi um dos melhores anos da minha vida. Participei de muitos campeonatos, e consegui fazer o que queria em vários. No final do ano, acabei me lesionando no quadril e tive de tirar umas feriazinhas do skate e de eventos. E agora estou numa fase melhor do que nunca.

Estás muito determinada quanto à classificação para a Olimpíada?
Estou em 13o no ranking mundial, e sou a terceira brasileira na classificação. Vão três para os jogos olímpicos, e nesse momento eu seria uma delas. É a primeira vez que o esporte estará na Olimpíada e posso ser uma das primeiras participantes.

Como foi conquistar uma etapa do mundial?
2019 foi um dos anos que mais viajei e competi, evoluindo em cada campeonato. Comecei o ano e no primeiro evento já fiquei em terceiro; no seguinte fiquei em primeiro, depois ganhei mais uma etapa do mundial. E teve também um campeonato qualificatório para a Olimpíada em que fiquei na quarta colocação. Estava me divertindo, e via minhas amigas brasileiras em outras colocações boas. Cada evento é sempre um desafio, andar o seu melhor, fazer uma linha boa, usar bem a pista.

E gostas de vir a Santa Cruz? Tens muito contato com teus familiares?
Adoro minha família de Santa Cruz, e sempre que sobra um tempinho vou dar um oi pra galera. Sei que torcem muito por mim, acompanham e assistem. O vô sempre me apoiou, desde o início, e já me deu a mão aí na pista da Praça Siegfried Heuser. Me levou até para Barcelona para andar de skate. E me apoia muito para eu seguir meu sonho, vê que estou me dedicando. Acho que fica bem orgulhoso.

Em tuas viagens, de que lugar ou cidade mais gostaste até agora?
Na verdade, gosto um pouquinho de cada um. Mas um dos últimos, em que mais me diverti, foi Paris. Gostei bastante. Fiquei uma semana, como normalmente ficamos nas etapas. Por ser turística, já tinha visto, claro, muita coisa sobre ela, imagens. Mas daí conhecer pessoalmente, ver de perto, foi bem especial.

Contas com suporte total para as competições?
Como faço parte da seleção brasileira de skate, a gente conta com apoio do governo e da federação brasileira de skate, eu e mais quatro atletas na minha categoria. Temos suporte de equipe médica, nutricionista, psicólogo, terapeutas, praticamente suporte de atleta olímpico.

E como avalias o teu jeito de praticar o skate? O que te define?
Criatividade. Tenho muita liberdade para encontrar minha própria personalidade, minha forma de me expressar. O skate é meu modo de expressão. Cada um acha suas manobras, do jeito que vai mandar para expressar a sua personalidade ali.

O skate hoje determina a tua rotina?
Há pelo menos uns seis, sete anos, é minha rotina. Fiz dois anos de faculdade, em 2016 e 2017, de Educação Física, na UFSC. Mas chegou um momento em que não estava mais sendo possível conciliar, e tranquei a faculdade. Não tinha mais como levar as duas coisas juntas. Agora é o momento do skate, mesmo.