bola parada 21/03/2020 12h05 Atualizado às 12h50

Presidente da FGF fala à Gazeta sobre futuro dos clubes gaúchos

Luciano Hocsman encara a difícil missão de tocar os trabalhos em meio à pandemia do novo coronavírus

Até o ano passado, Luciano Hocsman era o vice-presidente da Federação Gaúcha de Futebol (FGF). Desde o início desta temporada, passou a comandar a entidade no lugar de Francisco Novelletto. Em pouco menos de três meses no cargo, ele enfrenta o desafio de encontrar alternativas junto aos clubes filiados e ao Sindicato dos Atletas Profissionais do Estado para dar continuidade às competições, dentre elas o Gauchão e a Série A2, ambas suspensas temporariamente por 15 dias em razão da pandemia da Covid-19.

Em entrevista exclusiva à Gazeta do Sul na tarde dessa sexta-feira, o mandatário comentou sobre a paralisação dos torneios. Das questões abordadas, disse que aguarda uma posição da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para definir o futuro, especialmente do Campeonato Gaúcho, que pode ser cancelado em razão da falta de datas. Afirmou ainda que a Divisão de Acesso pode ser retomada, mas sem estipular um prazo por conta do avanço do contágio da doença. Hocsman confirmou ainda que a Série B, certame que o Santa Cruz disputaria a partir do dia 5 de abril, será adiada.

Gazeta do Sul – Que medidas estão sendo tomadas pela federação quanto à suspensão do Gauchão e da Divisão de Acesso?

Luciano Hocsman – Desde a semana passada, quando se iniciou todo esse processo da pandemia chegando ao Rio Grande do Sul, nós, com muita cautela e senso de responsabilidade, viemos adotando uma série de medidas, ainda que temporárias, para que a gente possa enfrentar esse momento da melhor maneira possível. Suspendemos o Gauchão e a Divisão de Acesso. Estamos em constantes conversas com entidades de classe, especialmente com o Sindicato dos Atletas, para tentar, em conjunto, formatar algo que dê segurança aos atletas e aos clubes filiados à federação, diminuindo os seus custos. Estamos em contato com os presidentes (das equipes) da Divisão de Acesso para buscar a sua adesão e a sua concordância com alguns termos. Vamos ver como as coisas se encaminham e o que podemos definir para os próximos meses.

Quando deve haver uma definição sobre o futuro desses campeonatos?

Isso é muito difícil de a gente prever. Eu acredito que a questão envolvendo especialmente a Divisão de Acesso, nesse momento, talvez seja a que nos dê uma possibilidade maior de uma definição futura, com relação ao quadro de achatamento da curva de contaminação do coronavírus. Isso nos dá alguns indicativos, da possibilidade de uma retomada dessa competição. Mas é muito prematuro e não seria nem correto de minha parte qualquer tipo de especulação com relação a isso, porque geraria falsas expectativas ou até mesmo um alarde muito grande e, posteriormente, uma cobrança sobre todo mundo, que não tem como ser feita.
Nosso diretor médico (Ivan Pacheco) tem se municiado muito junto a um profissional de infectologia, que trabalha nos órgãos de saúde, para termos o máximo de informações precisas e adotar as medidas que nos deem segurança para firmar acordo coletivo ou fazer ajustes. O Campeonato Gaúcho, nós temos uma certa dificuldade de datas, mas muita mais do que isso, são decisões que vão precisar obrigatoriamente de orientação ou definição da CBF. Estamos em compasso de espera. Temos mais uma semana, dentro daquele prazo inicial de 15 dias (de suspensão dos torneios), mas não quer dizer que não seja prorrogado.

Você se reúne na próxima terça-feira com representantes dos clubes da Divisão de Acesso?

A ideia é que tenhamos uma reunião por videoconferência. Essa solicitação de agenda se deu antes de um encaminhamento que nós tivemos junto com o Sindicato dos Atletas na tarde de ontem (quinta-feira), cujas definições nós repassamos aos presidentes, que já estão alinhados com muitas daquelas decisões que tivemos naquele momento. Nossa expectativa é de ouvir a todos, ainda que de uma forma virtual e todos ao mesmo tempo. Faltam alguns detalhes para que tenhamos um pouco mais de segurança com relação ao desdobramento dessa suspensão (do torneio).

Uma das possíveis definições seria o adiamento da Divisão de Acesso para o segundo semestre e a suspensão dos contratos dos atletas para que possam ser reativados depois, como sugere o diretor executivo do Avenida, Guilherme Eich?

O que a federação pode eventualmente garantir ou trabalhar junto aos clubes e a CBF é a questão de suspensão do contrato de trabalho ou da prorrogação. Trabalhamos também com a possibilidade de validação deles posteriormente no sistema de registro da CBF, que é interligado com o da Federação Gaúcha, para fins de condição de jogo. A questão judicial no que se refere à legalidade, o nosso diretor jurídico está analisando toda essa situação. Temos prestado também assessoria aos departamentos jurídicos dos clubes. Estamos em conversas com o Sindicato dos Atletas, que representa a categoria, para firmar um termo de compromisso ou um acordo coletivo. Precisamos saber que, neste momento, mais do que nunca, todo mundo tem que ceder um pouquinho, porque o ganho não é de todos e a perda não é de todos. Que no futuro consigamos resguardar e restabelecer a ordem natural das coisas.

O Futebol Clube Santa Cruz estava prestes a estrear na Série B (antiga Terceirona) no dia 5 de abril. Existe a possibilidade de adiamento ou de cancelamento?

Com relação às competições que ainda não tiveram início, elas estão suspensas por prazo indeterminado. Com certeza, ao menos que o quadro mude, poderemos ter o início no dia 5 de abril. Do contrário, vamos verificar um pouco mais adiante como vamos trabalhar a situação dessa e das demais competições, por exemplo de base, do futebol feminino, tem várias frentes para trabalharmos. Nós temos a Copinha no segundo semestre, que envolve todas as divisões do futebol gaúcho. São várias situações que temos que pensar e reorganizar.

O senhor assumiu o cargo no início deste ano e já encara um desafio e tanto…

Jamais esperávamos passar por uma situação como essa, de uma calamidade pública tão grande. No primeiro Gauchão da história, em 1918, houve a famosa gripe espanhola, que fez com que a competição não terminasse. O desafio que nós tínhamos sempre foi grande, independentemente dessa questão de saúde da nossa sociedade. Estamos contando com toda a compreensão dos presidentes dos clubes, todos tiveram um momento de angústia, como nós da federação. É importante que se diga que a federação também tem o seu planejamento financeiro, o seu orçamento e, com essa parada, está sendo impactado. Isso impacta, inclusive, em alguns repasses que tínhamos planejado de auxílio aos clubes da primeira divisão, do Acesso, da segunda (Série B). Mas, em conjunto, vamos conseguir superar esse momento difícil e torcer para que uma situação como essa jamais aconteça novamente.