Trajetória 13/09/2020 12h19 Atualizado às 01h57

Régis Höher: a história de um coração que pulsa pelo esporte

Aos 78 anos, um dos principais repórteres do rádio gaúcho curte a aposentadoria em Santa Cruz do Sul, sem abdicar da velha paixão

Enquanto as principais potências mundiais estavam envolvidas na Segunda Guerra, nascia Régis Höher, em 15 de fevereiro de 1942, no município de Santa Maria. Hoje com 78 anos, está aposentado dos microfones, mas o coração de repórter esportivo continua a pulsar forte.

No apartamento onde mora com a esposa Lúcia, no Centro de Santa Cruz do Sul, há um rádio em cada cômodo. O pacote da TV por assinatura inclui todos os canais de esportes. A voz potente segue a mesma de quando estava em ação nas três emissoras pelas quais passou: Imembuí, Gaúcha e Gazeta. Mesmo com 1,63 metro de altura, foi um gigante.

Régis é cria da Vila Belga. A família era de ferroviários e morava ao lado da estação, conhecida como Gare, depois transformada em espaço para eventos culturais ao ar livre. Com 2 anos, Régis perdeu a mãe. Dos dez irmãos, dois já faleceram.

Na infância e adolescência, ele chegou a jogar futebol e a ganhar medalhas nas categorias de base do Internacional de Santa Maria. Chegou aos aspirantes, mas não se profissionalizou. Com o 20 de Setembro, atuava no campo da Escola Profissional Ferroviária. “Naquele campinho éramos imbatíveis. A gente treinava na quarta-feira à tarde e jogava no domingo”, recorda.

Campeão juvenil pelo Inter-SM | Foto: Arquivo Pessoal

Ainda na infância, Régis brincava com os amigos da rua, imitando locutores famosos das rádios do Rio de Janeiro e São Paulo. “Nos domingos à tarde, eu não ia no cinema. No máximo, na matinê das 13 horas, onde a gente trocava gibi. Depois eu ficava ouvindo a Rádio Bandeirantes, que tinha uma extensa programação esportiva.”

No Colégio Santa Maria, ele narrava jogos entre as turmas. Antes de se tornar profissional do rádio, trabalhou na Caixa Econômica Federal durante 11 anos, em Porto Alegre. No período, transmitia boletins para a Imembuí. Quando se transferiu para Jaguari, participou de jornadas esportivas em uma rádio local, juntamente com um colega do banco.

Para entrar na Imembuí de forma definitiva, Régis passou por um teste. “Eu narrava muito jogo de botão na liga do bairro. Acabei sendo aprovado no teste e fiquei na rádio”, comenta. A primeira carteira assinada foi em 1975, quando o hobby se transformou em profissão. Para realizar o sonho de ser radialista, Régis começou como repórter.

Depois, chegou a ser chefe de reportagem e apresentador de programas, além de negociar cotas comerciais. Era setorista do Inter-SM e engordava um pouco mais o salário cobrindo as sessões da Câmara de Vereadores e as notícias da Prefeitura. “Eu não fazia somente uma coisa. Dava um acidente na esquina, eu ia como unidade móvel. No programa Controle Geral, às 7 horas, eu andava por tudo que era rua e beco. E a Corsan já era alvo naquele tempo”, brinca.

“Eu narrava muito jogo de botão na liga do bairro. Acabei sendo aprovado no teste e fiquei na rádio.”

Régis Höher – Radialista aposentado

Fim de carreira

Régis se aposentou em 1998, mas seguiu trabalhando na Rádio Gaúcha até 2003, quando acertou a saída com o diretor Armindo Antônio Ranzolin. O último ato foi uma entrevista com o técnico Valdir Espinosa, que acabara de retornar da Arábia Saudita após uma temporada no Al-Riyadh.

Na Rádio Gazeta foram quatro anos de atuação como comentarista, entre 2016 e 2019. A relação com Santa Cruz vem de longa data. “Fui amigo, por exemplo, do professor Ary Vidal. Acompanhei de pertinho todo o desempenho histórico do basquete local, com aquele time incrível da Pitt/Corinthians na década de 1990”, destaca.

LEIA MAIS: A Gazeta esteve lá: no título da Pitt/Corinthians, em 1994

Régis brinca que, como comentarista, resguardado na cabine do estádio, não há preocupação com chuva ou sol. “Mesmo assim, quem foi repórter nunca deixa de ser. A gente fica aguardando um manancial de informações e, pela experiência, já consegue ter uma ideia de por onde ir.”

Régis e Lúcia não tiveram filhos e estão juntos há 40 anos. Ele a chama carinhosamente de “Ana Nery”, por ele precisar tomar oito remédios diariamente e necessitar de cuidados mais intensos. Em Porto Alegre, o casal viveu sempre no Bairro Menino Deus. Em Santa Cruz, foram cinco mudanças até agora.

Eles sentem falta, principalmente, da convivência com os amigos e vizinhos, distantes após mais de três décadas. Os dois também ajudaram a criar os sobrinhos, para que as irmãs de Lúcia pudessem ter tempo para estudar. Para incrementar a renda, ela vendia congelados no bairro. Regularmente, faziam caminhadas no Cete, Marinha do Brasil e Parque Gigante.

Na Rádio Gazeta foram quatro anos de atuação como comentarista, entre 2016 e 2019 | Foto: Banco de Imagens

Muita história nos gramados e bastidores

Régis Höher estreou na Rádio Gaúcha em 8 de maio de 1982, na transmissão do empate por 1 a 1 entre Grêmio e Cruzeiro no Estádio Olímpico, pelo Torneio dos Campeões. Dois anos antes, ele havia sido sondado pelo diretor de Esportes, Ruy Carlos Ostermann. Mas Régis não aceitou o convite para sair da Imembuí.

“Eu hesitei e não fui. Estava bem na Imembuí, tinha um salário de repórter, mas tinha adendos com os contratos publicitários e conforme as coberturas que eu integrava. Tinha 20% de comissão de três empresas grandes, que eram revendedoras da Brahma, da Antarctica e ainda de uma rede de farmácias. Perderia parte da renda se eu saísse”, detalha. As conversas avançaram mais tarde, quando Régis acertou a ida para Porto Alegre, onde se destacaria como repórter esportivo.

No segundo mês na emissora, presenciou uma das derrotas mais doloridas da Seleção Brasileira na casa de Dona Azize, mãe de Paulo Roberto Falcão. Pela segunda fase da Copa do Mundo da Espanha, o Brasil foi eliminado pela Itália ao perder por 3 a 2 no Estádio Sarrià, em Barcelona. Paolo Rossi foi o carrasco ao marcar os três gols. Logo no início da trajetória pela Rádio Gaúcha, Régis acompanhou a campanha do Grêmio em 1983, quando conquistou a Copa Libertadores pela primeira vez. Para cobrir a rotina do Peñarol, ficou uma semana em Montevidéu. “Tinha que ir diariamente ao CT de Los Aromos, que era afastado. Um lugar muito bonito”, recorda.

Segundo Régis, a principal diferença entre as coberturas de antigamente e de hoje é a liberdade da reportagem. “Terminava o jogo e a gente estava desfilando pelo vestiário. Hoje não é possível.”

Quanto ao aparato tecnológico, o veterano repórter explica que na época havia uma preocupação muito grande com os cabos, o que já não acontece hoje. “Na Fonte Nova, em Salvador, eram 300 metros de cabo para ir da cabine ao vestiário. A diária era limitada. Às vezes, o próprio repórter era o operador. Aproveitava o dinheiro a mais para uma cervejinha, para jantar em melhor estilo.”

Em 1984, Régis acompanhou a seleção brasileira que estaria nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, durante um amistoso em Vitória. “Era o estádio de um clube amador. Não tinha estrutura nenhuma. A gente transmitiu o jogo sentado no chão. O cabo foi puxado de um telefone de dentro da sede e passava por cima de uma piscina.”

Apesar do início com o Grêmio, Höher passou a maior parte do tempo como setorista do Internacional. Afirma que procurava desempenhar um papel profissional, o mais isento possível. “Sempre tive trânsito livre nos dois estádios e nunca me vinculei a algum deles”, resume. Sobre desentendimentos com treinadores ou jogadores, diz que nunca aconteceu nada, nem mesmo com Emerson Leão, considerado um dos profissionais de convívio mais complicado.

“Um dia, fiquei no campo e ele estava na casamata. Só perguntei se ele tinha o time definido para domingo. Ele me pediu o bloco e a caneta para anotar a escalação com números. Entrei no ar e anunciei, pelas letras do Leão”, relembra. Em um Gre-Nal, Régis cravou o time ao narrador Ranzolin após ter acompanhado todos os treinos da semana.

“Estava no vestiário do Inter. Quando colaram a papeleta na sala de imprensa, eu disse que jogaria o meu time. Era o time que havia divulgado a semana toda. Porém, algumas vezes a gente se engana.” Gre-Nal, para Régis, é um campeonato. Mesmo quando um time está melhor, pode ser surpreendido.

Com Celso Roth, houve um pequeno deslize. “Ficou combinado que o treinador só daria entrevista na sala de imprensa. Mas teve um dia em que o Roth desapareceu. A assessoria informou que ele havia ido para a musculação. Quando ele apareceu, eu disse que não queria mais entrevista. Fiquei macho”, brinca. O que faltou no currículo foi a presença em uma Copa do Mundo.

“Naquela época, a equipe era limitada. As taxas cobradas eram muito caras. Cobertura no estádio acontecia só no jogo do Brasil. O resto era feito da central de imprensa.” Nas experiências de vida, Régis chegou a ser árbitro de futsal. Em 1975, esteve em uma partida com queda de neve, entre Juventude e Inter, em Caxias do Sul. Ainda pela Imembuí, foi contemplado com o prêmio Negrinho do Pastoreio em 1977/1978 por destaque como repórter.

Furo de reportagem e viagem para cobrir futsal na Rússia

Um furo de reportagem foi obtido em 1990, quando anunciou a saída do técnico Valdir Espinosa do Internacional. Régis voltou com a delegação na manhã de segunda-feira e ficou no Hotel Laje de Pedra, em Gramado, após uma partida contra o Caxias.

O meia Luís Carlos Martins confidenciou que o treinador estava se despedindo. Régis limpava os calçados sujos de barro do jogo de domingo, mas largou o que estava fazendo para entrar no ar com a entrevista de Espinosa. “Primeiro dei a manchete e depois daria os destaques. Enquanto isso, começou a chover gente de Porto Alegre”, comenta.

Em Bento Gonçalves, em outra ocasião, o Inter jogaria contra o Esportivo no Estádio da Montanha, num domingo. Durante a manhã, Régis ouviu um burburinho no saguão do hotel. Ele desconfiou que havia algo diferente. Após questionar diversas pessoas, o presidente Pedro Paulo Zachia lhe disse que a informação poderia ser divulgada somente às 14 horas.

“Eu disse que não. Se ele me contasse, o mundo inteiro ficaria sabendo. Eu não seria o cofre da informação”, conta. Régis decidiu descobrir por conta própria. “Eu sabia que tinha um ‘barriga fria’, que era da direção. Eu me dava bem com ele, me deu várias dicas. Chamei para um canto, e ele já sabia o que eu queria. Assim ele me disse que o Antônio Lopes estava se despedindo para treinar um time do Catar.”

Por essas e outras, Régis alerta para a percepção e o faro do jornalista. “Se tu és designado para estar na concentração do time, não pode ficar dormindo ou ir para a rua passear”, aponta. “Tem que ter cuidado. Recomendo aos jovens que fiquem atentos. Que descubram o que o clube tem a oferecer”, complementa.

Em 1997, quando estava em Foz do Iguaçu para uma cobertura de basquete, recebeu uma ligação de Pedro Ernesto Denardin, em uma segunda-feira. “Ele me perguntou onde estava o meu passaporte e se estava em dia, assim como a identidade. Disse que eu viajaria para a Rússia na quarta-feira. O Inter/Ulbra disputaria a Copa Intercontinental de Futsal”, relata.

O título acabou nas mãos do MFK Dina Moskva, após três jogos disputados entre as equipes, de 7 a 9 de outubro. A viagem foi a mais marcante da carreira de Régis, da qual guarda fotos dos pontos turísticos de Moscou.


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