Gente daqui 05/08/2019 22h47 Atualizado às 18h59

Pelo mundo: um médico santa-cruzense sem fronteiras

Na Nigéria, Alexandre Bublitz, 32 anos, atende crianças com desnutrição severa por meio de organização humanitária

O menino que cresceu jogando taco e andando de bicicleta pelas ruas de Santa Cruz do Sul na década de 1990 hoje atende crianças que não têm as mesmas oportunidades para aproveitar a infância. Mais de 8,3 mil quilômetros separam a terra natal de Alexandre Bublitz, 32 anos, no Vale do Rio Pardo, de Maiduguri, cidade em que reside, na Nigéria. A trajetória do santa-cruzense até o continente africano passa pelo Colégio Mauá, pelo cursinho pré-vestibular em Porto Alegre e a formação em Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 2013.

No currículo, enquanto médico, um ano foi dedicado ao serviço militar em Bagé. Após esse período, foram três anos cursando a residência em pediatria no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Os atendimentos no SUS sempre integraram a rotina do jovem. Quando formou-se como pediatra, atuou na periferia da capital gaúcha. “Na Vila Cruzeiro, na Vila Bom Jesus, na Vila Lomba do Pinheiro, sempre trabalhando com SUS e com quem tem mais necessidades. Pude aprender muito e criar uma sensação de empatia com as pessoas”, recorda Alexandre.

Com dedicação extrema ao público com menos recursos e acesso às condições básicas de saúde, a decisão de pleitear uma vaga na organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) foi, praticamente, natural. Bublitz já conhecia a instituição e decidiu somar os desejos de ajudar pessoas, ter uma experiência fora do Brasil e conhecer realidades diferentes. O processo para integrar o time de profissionais, no entanto, não foi tão simples. Foram necessários seis meses para avançar nas diferentes etapas da seleção: envio de currículo, confecção de carta de intenção, entrevista por telefone, prova, teste de línguas e uma série de entrevistas presenciais, no Rio de Janeiro. Dessa forma, o passaporte para ser um profissional do MSF foi carimbado e Alexandre pôde realizar o sonho de fazer o bem pelas crianças africanas.

Foto: Arquivo PessoalAlexandre com a pequena Hauwa, que foi salva após quadro de desnutrição severa
Alexandre com a pequena Hauwa, que foi salva após quadro de desnutrição severa

 

A rotina em Maiduguri

Em maio deste ano, Bublitz aterrissou no nordeste da Nigéria, em Maiduguri, capital do estado de Borno. Ao contrário do sul do país, verde e perto do mar, Maiduguri é marcada por clima seco e tons amarelados. Próximo ao Deserto do Saara, a temperatura pode superar os 40 graus. Lagartos percorrendo as ruas e pássaros exóticos aos olhos do brasileiro também têm chamado atenção no novo ambiente.

Mais do que o clima, a população nigeriana é alvo de observação diária do santa-cruzense. “São pessoas felizes, de sorriso fácil, mas que já sofreram bastante”, define. Os conflitos entre o Estado e grupos armados impulsionam a crise nacional. O estado de Borno, conforme a ONU, é o mais afetado. Em busca de locais mais seguros, muitas pessoas têm se movimentado pelo país e o número de habitantes praticamente dobrou em Maiduguri, passando de 1,5 milhão para quase 3 milhões de moradores nos últimos anos. Conforme Bublitz, com o aumento populacional, os recursos ficam mais escassos. “Todo esse grande número de pessoas, sem grande quantidade de saneamento básico, sem um sistema de saúde pública como o SUS, sem acesso a água potável e sem escolas para todo mundo. Basicamente, esses são meus pacientes.”

A rotina do pediatra se inicia cedo e durante a manhã ele se desloca do alojamento onde ficam os expatriados da ONG até o hospital. O seu ofício é atender, principalmente, casos de desnutrição infantil severa. Com os médicos nigerianos, também avalia e trata os pacientes da UTI pediátrica e lidera uma equipe de profissionais. São pouco mais de 200 trabalhadores na instituição, sendo 15 estrangeiros – vindos de países como França, África do Sul e Dinamarca.

A sua comunicação com as crianças e seus responsáveis, muitas vezes, exige a ajuda dos colegas nigerianos. Apesar de o idioma oficial do país ser o inglês – a Nigéria foi colônia da Inglaterra até 1960 –, parte da população que não tem acesso à escola fala outras línguas: ao longo do território nacional, são mais de 300 idiomas. Na convivência com os pequenos diariamente, Bublitz já aprendeu que uma característica não muda, independentemente do lugar: a honestidade. “As crianças não escondem o que estão sentindo. Boa parte tem medo ao me ver. Para muitas, é a primeira vez que veem uma pessoa branca”, comenta.

Os recrutados
Todos os profissionais que integram a organização MSF passam por um processo de seleção para uma posição remunerada e assinam um contrato de trabalho. Além do salário mensal, recebem uma ajuda de custo diária para gastos pessoais e alimentação. Também têm direito a férias proporcionais ao número de dias no projeto. Há oportunidades para médicos, enfermeiros, farmacêuticos, psicólogos, administradores, especialistas em água e saneamento, dentre outros.

“Somos todos humanos. Por que não ajudar pessoas de fora?”

Desde o início da missão, o caso que mais marcou Alexandre Bublitz até agora foi o de uma menina de apenas dois anos. Hauwa chegou ao hospital com quadro de desnutrição severa, inconsciente, quase sem músculos, com os olhos fundos e a pele seca. Durante o tratamento com uso de antibióticos e de dieta, foram dois dias, pelo menos, em que a criança esteve desacordada. Quando recuperou a consciência, ela ainda precisava de mais força. “Conseguiu comer pela boca, sentar na cama, mas, como estava muito fraca, quando ficou sentada, o pescoço dela não conseguia sustentar o peso da própria cabeça”.

A melhora foi gradativa e, quando teve alta médica, já estava com o rostinho mais bochechudo e com um belo sorriso. A mãe de Hauwa também está nas lembranças do médico. Uma mulher solteira que cuida sozinha de seis crianças, sendo que três são filhos da irmã dela, que morreu em um conflito. Para poder cuidar dos sobrinhos, acabou se divorciando do marido, que não concordava com a decisão da esposa.

“Infelizmente, a história dela não é muito diferente da de outros pacientes que vejo por aqui”, comenta.
Ao se deparar com os desafios na Nigéria, o santa-cruzense não esquece a dura realidade que brasileiros também enfrentam. “No Brasil, ainda há fome, ainda há muita miséria, mas ainda bem que temos um sistema público de saúde que pode ajudar um pouco as pessoas”, avalia. Questionado sobre a decisão de ir para a África, ao invés de trabalhar com quem tem menos recursos no país natal, o profissional lembra: “Minha decisão de sair e poder trabalhar fora tem muitos pontos. Um dos principais é que, no fim, somos todos humanos. Por que devo apenas ajudar pessoas no Brasil? Por que não posso ajudar pessoas de fora?”. Dentre outros fatores que o impulsionaram a ingressar no MSF, está a possibilidade
de adquirir experiência de vida, de entender como a sociedade funciona em outras nações e os desafios que o mundo ainda tem para superar.

Na Nigéria, o profissional permanecerá até novembro, quando termina o contrato de seis meses. O final do ano, vai passar com a família no Brasil. Por enquanto, não tem certeza sobre os próximos passos, mas pretende se inscrever para participar de mais missões com a organização. Bublitz não sabe por quanto tempo ainda atuará junto ao MSF, mas, em algum momento, deve voltar a exercer a medicina em solo brasileiro. “Eu estou bem feliz com a minha escolha e sei que ainda tenho muitas coisas para fazer para poder ajudar as pessoas também no Brasil.”

Como colaborar

O MSF trabalha baseado em três grandes princípios ao atender os pacientes: independência, imparcialidade e neutralidade. Para ser independente, a organização se baseia, principalmente, em doações de pessoas comuns através do site. Aproximadamente 96% dos recursos do MSF vêm de mais de 6 milhões de doadores individuais. Para ajudar e saber mais sobre as formas de contribuição, basta acessar www.msf.org.br.

O Médicos Sem Fronteiras é uma organização não governamental sem fins lucrativos que tem o compromisso de destinar 80% de todos os recursos arrecadados às atividades de ajuda humanitária que realiza em campo. Os demais 20% são utilizados para despesas administrativas e reinvestidos em ações para captação de verba. Relatórios financeiros auditados de todos os escritórios internacionais são publicados anualmente.