Especial 24/11/2019 15h14 Atualizado às 17h39

Por que as mulheres ainda são minoria na política?

Brasil já elegeu uma presidente da República, mas ainda lida com uma sub-representação feminina em boa parte dos ambientes de poder

Uma estatística persistente e preocupante contradiz a voz comum de que a política é o espelho da sociedade: embora representem mais da metade da população brasileira, as mulheres continuam relegadas à condição de minoria nos ambientes de poder.

O abismo de representatividade entre homens e mulheres é chocante quando os números são vistos de perto. O Vale do Rio Pardo, por exemplo, contempla 29 municípios e apenas dois – Sinimbu e Estrela Velha – são governados por mulheres atualmente. Outros quatro – Santa Cruz, Rio Pardo, Passa Sete e Salto do Jacuí – têm vice-prefeitas mulheres.

Levantamento feito pela Gazeta do Sul mostra que, em um universo de 278 vereadores, menos de 20% são mulheres. Em Santa Cruz, um dos maiores municípios do Estado, até hoje apenas dez mulheres foram eleitas para a Câmara – atualmente, há apenas uma. Além disso, seis municípios não têm sequer uma parlamentar do sexo feminino.

A presença feminina é um pouco maior nos primeiros escalões das prefeituras: um terço das secretarias municipais tem mulheres à frente. Ainda assim, alguns setores das administrações seguem dominados por homens – como Finanças, por exemplo –, enquanto as mulheres são mais frequentes em áreas como Educação e Assistência Social.

Essa realidade não é uma exceção: segundo a organização Inter-Parliamentary Union (IPU), o Brasil ocupa a 134ª posição entre 190 países monitorados quanto ao nível de equidade na representação política. A pergunta é: por que, em um país que já elegeu uma presidente da República e onde pesquisas apontam que o gênero não é um fator decisivo de voto para a ampla maioria dos eleitores, ainda há uma sub-representação feminina tão gritante na política?

Para a cientista política Denise Mantovani, que é pós-doutora em estudos feministas, o cenário reflete uma ideia naturalizada pela sociedade de que “política é coisa para homens”. “Isso cria um ambiente social e cultural preconceituoso e desigual onde se constroem ‘papéis sociais’ distintos. Relações de poder assimétricas na vida doméstica, com a ideia de que o marido é quem toma as decisões e participa da vida pública e a mulher é quem cuida da casa, por exemplo, interferem no estímulo à participação política”, analisa.

Essa cultura, por sua vez, repercute dentro das organizações partidárias, as quais priorizam candidatos homens na destinação de verbas eleitorais, sob o argumento de que as chances eleitorais são maiores dessa forma. O principal efeito disso, na análise de Denise, é que os governos e parlamentos, ao invés de espelhos, tornam-se ambientes excludentes e não reproduzem “a pluralidade e a diversidade da sociedade brasileira”.

O CENÁRIO NA REGIÃO

CARGO TOTAL MULHERES
Prefeitos 29 2
Vice-prefeitos 29 4
Vereadores 278 49
Secretários municipais 240 72
*O levantamento foi feito com base nas informações contidas nos sites das prefeituras e câmaras.

Tudo começou com uma prefeita
Eunice Heuser carrega feitos históricos em seu currículo político de mais de três décadas. Ela não só foi a primeira pessoa a governar seu município, Mato Leitão, como também a primeira mulher eleita prefeita em todo o Vale do Rio Pardo.

Professora da rede estadual, Eunice ascendeu durante o processo de emancipação do então distrito de Venâncio Aires, que começou no fim da década de 1980. Enquanto o gosto pela política foi herdado do pai – que era fumicultor, brizolista e influente na região onde viviam –, a liderança ela desenvolveu na própria localidade, primeiro como diretora na escola onde lecionava, depois na comunidade católica (onde também foi a primeira mulher a fazer parte da diretoria) e em outros setores nos quais militou.

Foi no processo emancipatório, porém, que ela se consolidou como uma referência no município que nascia. Participou ativamente da mobilização e da pressão sobre a Assembleia Legislativa para que autorizasse o plebiscito que chancelaria o desmembramento. Com isso, tornou-se um nome quase natural para, em 1992, quando o processo foi concluído, tornar-se a primeira prefeita, embora tenha disputado com outras duas frentes à época – curiosamente, uma delas também era encabeçada por uma mulher. Depois disso, viria a ser vice-prefeita. Atualmente, é secretária municipal de Assistência Social.

Com uma população de 4,5 mil pessoas e o segundo melhor índice de desenvolvimento socioeconômico da região, Mato Leitão também se destaca pelo protagonismo das mulheres na política: teve duas prefeitas (além de Eunice, Carmen Goerck) e em seus 27 anos de história sempre contou com presença feminina na Câmara – atualmente, são duas vereadoras.

Para Eunice, o desafio da política é maior para mulheres, inclusive na busca pelo voto. “A mulher tem que provar que é competente. Exige-se muito mais dela do que do homem para as pessoas confiarem”, avalia. A falta de apoio de familiares é, segundo a ex-prefeita, um dos motivos para se afastar das urnas. “Às vezes tem mulheres que me dizem: ‘Meu marido não quer de jeito nenhum’. Muitas também têm medo de fazer pouca votação. É mais difícil mesmo quando se é mulher.”

Falta de recursos e assédio estão entre as causas
A exemplo de outros países, o Brasil vem a passos lentos criando mecanismos em lei para ampliar a presença de mulheres na política. Após a criação das cotas de gênero, que estabelecem que 30% das candidaturas devem ser reservadas para mulheres, na eleição do ano passado tornou-se obrigatória a destinação de um terço do fundo eleitoral para candidatas, cujo efeito colateral perverso foram os casos de “candidaturas laranjas”.

Os resultados são tímidos, mas existem: as mulheres ocupam hoje em torno de 15% das cadeiras na Câmara Federal e Senado. Na Assembleia gaúcha, oito deputadas foram eleitas no ano passado, o dobro de 2014.

Ao contrário do que possa parecer, é justamente nos municípios menores que o protagonismo feminino é mais expressivo. A maior parte das prefeituras atualmente comandadas por mulheres estão em localidades com menos de 20 mil habitantes – caso da maioria dos municípios do Vale do Rio Pardo. De acordo com Denise Mantovani, a proximidade da população com a classe política nesses lugares facilita a ascensão de mulheres. “Isso diminui as barreiras das redes de contato e dos recursos disponíveis para as campanhas”, observa.

Ainda conforme a pesquisadora, estudos apontam que falta de recursos para a campanha, assédio e violência simbólica nos espaços políticos e falta de espaço nos meios de comunicação são as principais causas dos insucessos eleitorais de mulheres. “Além disso, a  dificuldade para dividir com os homens as tarefas domésticas, que são tratadas como uma ‘obrigação’ somente das mulheres, impacta no tempo que teriam para dispor para a campanha”, observa.

Preparada para o desafio
Entrar na política não estava nos planos de Bruna Ribeiro. Aos 22 anos, a santa-cruzense dedica-se ao serviço próprio de coleta de materiais recicláveis que abriu há cerca de dois anos. A operação, que começou em sua casa e hoje funciona em um local alugado, envolve 15 pessoas sob comando da jovem, que trabalhou como catadora durante toda a vida.

Recentemente, porém, ela filiou-se a um partido a convite de um vereador e agora prepara-se para concorrer no ano que vem, apostando na popularidade que conquistou levando seu serviço pelos bairros. Para Bruna, chegar à Câmara seria uma oportunidade de levantar bandeiras que lhe são caras, sobretudo na área ambiental, como a melhoria da infraestrutura para descarte de materiais no município. “Hoje as pessoas nos procuram porque não sabem o que fazer com móveis, madeira e outras coisas que têm para descartar”, alega.

Bruna concorda que falta presença feminina na política. Segundo ela, a participação de mulheres pode contribuir, inclusive, para amenizar a radicalização que tomou conta do debate público. “As mulheres têm uma visão mais humanista, são mais sensíveis. Hoje tem muito ódio na política, e as mulheres são mais abertas ao diálogo.”

Fotos: Lula Helfer

ENTREVISTA

Bruno Pedry/Banco de Imagens/GS

Yeda Crusius
Ex-governadora

Única mulher até hoje eleita governadora no Rio Grande do Sul e voz ativa na defesa da ampliação da participação feminina na arena pública, Yeda Crusius (PSDB) advoga pela expansão das cotas de gênero no Brasil. Para ela, é preciso seguir o exemplo de outros países e exigir que 50% das candidaturas sejam de mulheres. Conforme Yeda, essa tendência já é evidente não só no setor público, mas inclusive na iniciativa privada, e irá se consolidar independentemente da vertente ideológica que estiver no poder.

Gazeta – Por que um país que já elegeu uma presidente ainda tem um número tão pequeno de mulheres na política?
Yeda Crusius –
Essa representação difere de região para região. No Nordeste, por exemplo, há um número maior de mulheres eleitas. Isso porque lá é uma região onde há mais mulheres que são, como chamamos, “cabeça de casal”, ou seja, comandam os lares. Mas, ainda assim, a representação de mulheres na política brasileira é a menor da América Latina, é ridícula. E aí nos perguntamos: como? Acontece que muitos países avançaram muito mais em legislações que exigem uma representação igualitária, ou seja, 50% de homens e 50% de mulheres. É assim na Argentina, na Costa Rica, na Espanha, no Canadá. Nos países parlamentaristas, onde não se vota em pessoas e sim em listas fechadas, também já é 50%. Quer dizer, se há participação de mulheres em todas as atividades de nossa sociedade, se elas estão presentes em tudo menos na política, é porque tem alguma coisa errada na política. E eu te digo o que é: a política é vista como um trabalho sujo. As regras e a forma de fazer política não agradam às mulheres, então elas não vão, inclusive porque não querem.

A senhora já foi deputada, ministra e governadora. Sentes o peso de ser mulher em um ambiente predominantemente masculino?
Sinto hoje em dia. No passado, não sentia. O PSDB nasceu com uma visão parlamentarista, então éramos tratadas como iguais. Na constituinte, por exemplo, a bancada feminina foi a mais atuante. Depois é que a sociedade brasileira foi se tornando mais radicalizada e dividida. Hoje, existe mais intolerância na política, como existe mais intolerância na sociedade.

Então nós regredimos?
Regredimos, não tenho dúvida. E quando a situação é essa, precisamos agir por meio das leis. Quando fiz faculdade de Economia, eu era a única mulher entre cem homens. Hoje, é meio a meio. A mesma coisa aconteceu no campo do Direito. Em 2018, quando conquistamos o direito a ter 30% do Fundo Eleitoral, 100% dos tribunais superiores eram comandados por mulheres. Tínhamos a Carmen Lúcia no STF, a Rosa Weber no TSE e a Raquel Dodge no Ministério Público. Graças a elas tivemos esses avanços. Então, já é assim em diversos setores. Mas veja: se pegarmos os professores, 90% são mulheres. E por quê? Porque os salários são menores e porque a atividade de educar é mais feminina. Mas eu quero 50% em tudo, inclusive no setor de educação.

A senhora, então, é favor de cota de 50% para mulheres nas eleições?
Veja o que a OAB está fazendo. Está querendo aplicar nos seus órgãos diretivos 50/50. Os tribunais querem, nas posições de comando, 50/50. As empresas estão buscando isso porque há pesquisas que apontam que, quanto mais mulheres em postos de liderança, maior é a taxa de lucro, porque elas trabalham mais cooperativamente. Então, não é só na política, é em todos os setores que há essa tendência.

E ainda há um estigma de que a mulher na política só deve se envolver em discussões voltadas às mulheres, ao invés de participar de todas as discussões.
Veja: a primeira vez que tivemos uma mulher eleita para compor a Mesa Diretora da Câmara dos Deputados foi agora, com a deputada Soraya Santos (MDB-RJ), que foi coordenadora da secretaria da mulher da Câmara e hoje é primeira-secretária. A primeira-secretária é quem decide quais projetos entram e quais não entram na pauta. Sempre quem decidiu isso foram homens, e é por isso que aquilo que é importante para a sociedade não entrava em pauta nunca. Veja nos Estados Unidos: foi preciso uma mulher para que o processo de impeachment do Trump começasse a andar. A mulher convence os homens.

O governo Bolsonaro é crítico do feminismo e das políticas de gênero. É possível acreditar em avanços no curto prazo nesse ambiente?
Olha que interessante. O Bolsonaro pode ser rude, pode ser tosco, mas não é burro. Nesse primeiro ano de governo, ele já promulgou leis de igualdade que beneficiam mulheres. Isso porque há uma pressão social muito forte, independente de qual partido ou espectro político esteja no comando. Então, inevitavelmente vamos ter avanços, inclusive na legislação eleitoral, e tenho certeza de que o presidente não se importaria com isso, porque o PSL elegeu um monte de mulheres que decidiram ir para a política defender o que acham que é correto. Por outro lado, é muito ruim que, no discurso, o governo fique até provocando. E não só as mulheres, mas toda a pauta moralista.