Expedição gelada 23/03/2020 23h38

Com mar mais quente, Antártica denuncia mudanças no clima da Terra

Biólogo santa-cruzense esteve em missão de 41 dias no Polo Sul para estudar os efeitos do aquecimento global sobre a vegetação do continente

O biólogo e pesquisador santa-cruzense Jair Putzke realizou a 22ª expedição dele ao continente gelado. Em 41 dias de missão ele deu continuidade aos estudos sobre os efeitos das mudanças climáticas na vida vegetal na Antártica. Putzke acompanhou jovens cientistas que se depararam com a nova Estação Comandante Ferraz, no espaço recém-inaugurado.

O professor, que viaja para o local desde a década de 1980, está em quarentena. O coronavírus não chegou à terra do gelo, mas como ele esteve “fora do mundo” durante mais de um mês, praticamente no mesmo período em que a doença se alastrou, precisa cumprir o isolamento. Em meio ao frio, o Brasil ajuda o mundo todo. Para o Rio Grande do Sul as pesquisas melhoram a previsão do tempo, tão necessária hoje. Conectado, Putzke contou à Gazeta do Sul, pela internet, o que viu.

O mundo de gelo que é um laboratório a céu aberto
O professor pesquisador Jair Putzke completou, no último 13 de março, impressionantes 1.162 dias em um local que é muito frio. Quando o inverno chega à Antártica, no Polo Sul do mundo, os termômetros registram até 80 graus abaixo de zero.

Habitat de pinguins de vários tamanhos e de uma biodiversidade bem reduzida, com apenas 112 tipos de musgos, cerca de 450 líquens e duas plantas que dão flor, estudar em meio ao gelo é uma missão que exige disposição. “Esta foi minha 22ª expedição realizando pesquisas na Antártica. Atualmente continuo o trabalho de avaliação de como a vegetação está respondendo às mudanças climáticas, sempre realizando trabalhos de mapeamento da vegetação e avaliação da biodiversidade”, disse Putzke.

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Membro do quadro de professores-pesquisadores da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e professor do curso de pós-graduação em Ciências Biológicas, Putzke revela que seus trabalhos no laboratório gelado da Antártica colaboram também com a pesquisa de outras universidades brasileiras, no que se refere ao estudo das rochas e solo. “O trabalho que desenvolvo atualmente tem a coordenação do professor doutor Carlos Schaefer, da Universidade Federal de Viçosa. Denominado Permaclima, o estudo avalia o que está acontecendo aos solos e à vegetação em função das mudanças climáticas”, contou Putzke.

O professor revela que os dados de temperaturas altíssimas registradas na Antártica, algumas próximas dos 20 graus positivos, divulgadas no início de fevereiro em todo o mundo, foram coletados pelos equipamentos da pesquisa dele. “Acampamos na Ilha Livingston, numa região chamada Península Byers. No acampamento ficaram 14 pessoas, quatro estudando fósseis, duas avaliando a psicologia do grupo e o nosso estudo, com seis pesquisadores.”

Estudo do solo, rochas e vegetação, nos acampamentos que são montados ajudam a desvendar as alterações do clima

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O lugar onde são antecipadas as transformações climáticas
O clima da Antártica afeta diretamente o Sul do Brasil. Assim, estudar o comportamento da terra a partir de uma base instalada lá, oferece previsões meteorológicas melhores para todo o país. Este é apenas um exemplo. “No nosso caso, avaliamos o que ocorre com a vegetação por lá, e assim poderemos compreender melhor o que ocorrerá com a biodiversidade do nosso país frente às mudanças climáticas”, contou.

Além de avaliar a vegetação e solos, os cientistas brasileiros coordenam pesquisas em vários campos, que envolvem, entre outras coisas, substâncias úteis à medicina e à indústria farmacêutica.

Desde sua primeira ida para a Antártica, em 1986, muita coisa mudou no continente gelado. Segundo Putzke, aos poucos a ciência começa compreender esta mudança. “O mar está, em média, 3 graus mais quente. A temperatura nas ilhas que estudamos nesta temporada já aumentou em 1 grau. Registramos a morte da vegetação, o surgimento de novas pragas e o desenvolvimento diferenciado das espécies que toleram melhor este aquecimento.”

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O pesquisador presenciou também uma anomalia do clima. No último verão, a Antártica registrou recorde de temperaturas altas, em uma sequência de calor que chamou a atenção do mundo. “O recuo de geleiras, assim como a alteração nas plantas é uma realidade que já está bem mapeada. Resta saber como a vegetação e os demais animais serão afetados por estas transformações”, alertou o professor.

Uma estação nova que anima a ciência
Em 2012 um incêndio destruiu 70% dos equipamentos e estrutura da antiga estação Comandante Ferraz, que havia sido criada em 1984. O pesquisador estava lá no dia deste desastre. Perdeu colegas pesquisadores e por um instante a fé na possibilidade de continuar seus estudos de vegetação e clima na Antártica.

Com quase US$ 100 milhões, Estação Comandante Ferraz foi reconstruída após ser consumida pelo incêndio ocorrido em 2017

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Em um investimento de US$ 99,6 milhões, e a cooperação dos chineses, em janeiro deste ano a nova estação foi inaugurada. Para Putzke, um templo do conhecimento no extremo sul do mundo. “A estação ficou linda, de fato uma das melhores da Antártica em termos de espaço e conforto. Como conhecia a anterior, feita em contêineres soldados e reestruturados, a nova tem uma aparência futurista”, classificou.

De acordo com o professor, a estrutura, que tem 4,5 mil metros quadrados, é feita de amplas salas, arejadas e mais iluminadas, com vidros largos e longos que deixam a luminosidade entrar tanto na sala, quanto nos quartos. “Os quartos são para duas pessoas e contam com banheiro individual. Isto é esplêndido. Os laboratórios são impressionantes, 17 no total. Amplos e com equipamentos de última geração”, narrou o professor.

Putzke e o grupo de 14 pesquisadores que o acompanhou já deixaram a estação. Para trás ficou o grupo-base, da Marinha do Brasil. Estes permanecerão na Antártica durante o próximo inverno, testando à exaustão o espaço. A medida é necessária pois, a partir de dezembro, os próximos pesquisadores retornam para trabalhar no local. “Sempre há detalhes para serem corrigidos ou acertados, como as faltas de energia, que ora são eventuais, disparos de alarmes e diversos testes. Os técnicos chineses correram muito para terminar a instalação e conseguiram.”

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A volta para o Brasil e o isolamento pela Covid-19
A missão de pesquisa retornou da Antártica no dia 13 de março. Desde então, está em quarentena, mas sem nenhum problema de saúde. “No acampamento não tínhamos muitas notícias por não termos internet. A situação do coronavírus nos deixou apreensivo”, disse o pesquisador, que ficou sabendo sobre a pandemia somente na volta.

Mesmo sem ter tido contato com este mundo de cá, Putzke teve que ficar isolado. “Nem pude abraçar minha mãe no dia do aniversário dela, em 15 de março. Isso foi muito triste, mas é a necessidade do momento. Precisamos cuidar principalmente dos mais velhos e de nós mesmos, da nossa família e de todos”, contou o pesquisador.

Conhecedor dos impactos econômicos e sociais que a pandemia pode causar, o professor recomenda o isolamento do qual ele próprio faz parte. “Os cientistas de todo o mundo estão empenhados, resta à população fazer sua parte, que neste momento é ficar em casa, pelo máximo possível de tempo. Devemos respeita o que está sendo divulgado pela imprensa quanto aos cuidados que são necessários tomar agora”, complementou.

Jair Putzke contabiliza mais de 1,1 mil dias na Antártica, nas 22 missões que acompanhou