AGRICULTURA 13/10/2020 17h30 Atualizado às 18h06

Aumentos da demanda e do dólar fazem preço da soja disparar

Principal produto de exportação do Brasil subiu 80% em 12 meses, com saca batendo recordes de valor. Consumidor sente efeito no preço do óleo

A demanda aquecida e a elevação do dólar proporcionaram um aumento considerável no valor da soja. Como resultado, um dos itens mais inflacionados ao consumidor é o óleo de soja, que acumulou 19% de alta em 2020, até setembro, no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), sendo o quarto item da cesta básica com maior valorização dentro do índice.

De acordo com a cotação da última semana no site Agrolink, a saca de 60 quilos em Rio Pardo estava sendo comercializada por R$ 141,00. Referência de preço para o Brasil, Passo Fundo tinha a saca a R$ 157,00, conforme a consultoria CMA. Na segunda-feira da semana passada, a saca chegou a R$ 156,00 no porto de Paranaguá e superou a máxima histórica anterior, atingida em 2012 – R$ 153,40 no dia 31 de agosto.


O valor da oleaginosa, o principal produto de exportação do País, subiu 80% em 12 meses, conforme o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq). Na última semana, os preços se firmaram ainda mais, por fatores externos, após o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) ter relatado estoques norte-americanos abaixo das expectativas.

Mesmo em um ano com recorde de produção – o Brasil produziu 124,8 milhões de toneladas no ciclo 2019/20, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) –, os estoques domésticos caíram drasticamente. Dessa forma, a disputa acirrada pelo restante dos grãos e a valorização das exportações alavancaram a cotação doméstica.

LEIA MAIS: Bem cotada no mercado, soja terá elevação de área na região


E vai subir mais

No artigo “Lucro da Soja Brasileira atingirá maior patamar histórico em 2020/21”, publicado na página do Departamento de Economia Agrícola e do Consumidor da Universidade de Illinois (EUA), de autoria da pesquisadora Joana Colussi e do professor Gary Schnitkey, a perspectiva é de que os preços continuarão a subir no Brasil. “As exportações recordes geraram redução da oferta interna em relação a anos anteriores. A demanda interna continua firme devido às grandes compras de farelo de soja e óleo. Os baixos estoques de soja estão levando as indústrias nacionais a pagar mais”, concluíram os especialistas.

O presidente da Aprosoja Brasil, Bartolomeu Braz, afirma que o produtor não consegue captar totalmente a valorização do grão por ter comercializado o produto de maneira antecipada. “O produtor não está ganhando dinheiro. Ele já vendeu essa soja com o preço mais baixo. Essa soja está na mão da indústria. Tem muito pouca soja na mão do produtor rural. Infelizmente, a população está pagando caro e não está chegando na mão dos produtores rurais”, comenta.

LEIA MAIS: Áreas plantadas devem permanecer estáveis na região


Menor oferta e taxa cambial elevada, frisa Antônio da Luz

Na visão do economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz, o mercado da soja está baseado em dois fatores neste ano: menor oferta de produto e taxa cambial elevada. “Devemos considerar o real em relação ao seu próprio histórico e ainda o real na comparação com outras moedas. O real foi a que mais se desvalorizou em 2020”, explica. Para ele, a soja que circula no mundo hoje é a que foi colhida no Hemisfério Norte, no final de 2019, além da produção de abril e maio do Hemisfério Sul.

“A quantidade produzida foi menor. Temos menos soja em circulação. Os Estados Unidos perderam 24 milhões de toneladas de soja por conta das enchentes que atrasaram o plantio. Por outro lado, a quebra da safra gaúcha em razão da estiagem influenciou no Brasil, apesar do crescimento registrado em outros estados. Mas foram 10 milhões de toneladas a menos, o que teria amenizado a perda norte-americana. Para resumir, a menor oferta proporcionou o aumento no preço”, analisa.

LEIA TAMBÉM: Safra deste ano deve ser 3,8% superior à de 2019, prevê IBGE

Luz aponta que a cotação em Chicago estava em baixa por causa das disputas comerciais entre Estados Unidos e China. “Chicago deixou de ser um bom representante mundial no mercado de soja. O preço mundial estava subindo, ao contrário do que acontecia por lá”, pondera. Conforme Luz, além de o preço estar elevado em âmbito internacional, demonstrado pelas exportações em dólar, há a enorme elevação da taxa de câmbio por conta da pandemia.

Por isso, o preço da soja em reais ficou extremamente alto. “Ainda temos outro fator positivo. O preço da soja em Chicago está começando a subir novamente, puxado pelas eleições norte-americanas e um possível acerto entre Estados Unidos e China. Ao subir, irá pressionar os já elevados preços internacionais. Passamos a ter uma nova combinação favorável de preços. Não sabemos se continuará assim, mas tudo está apontando para essa direção”, conclui.

Mais de 6 milhões de hectares no Estado

Conforme estimativa da Emater-RS/Ascar, o Rio Grande do Sul vai romper a barreira dos 6 milhões de hectares cultivados pela primeira vez nesta safra. Em relação ao ano passado, haverá um aumento de 1,55%. A produção deve chegar a 18 milhões de toneladas, um acréscimo de 69% em relação ao ciclo 2019/2020, fortemente afetado pela estiagem.

O engenheiro agrônomo e assistente técnico regional da Emater/RSAscar, Josemar Parise, salienta que a área de plantio na região será confirmada somente após o encerramento da semeadura, em dezembro. Conforme zoneamento agrícola realizado no início de setembro, haverá 8,3 mil hectares de crescimento na área plantada do Vale do Rio Pardo. Parise salienta que a proporção do preço da soja e do adubo era próxima. Hoje, o preço da soja subiu muito em relação ao adubo. “Mas agora, há pouca soja disponível para venda pelos agricultores, que já haviam comercializado boa parte da produção”, frisa.

LEIA TAMBÉM: Emater estima que esta será a segunda maior safra de verão da história