CAMINHOS DO TABACO 17/02/2021 09h03

Irrigação: um antídoto contra a estiagem

Família Pakulski, do interior de Dom Feliciano, investiu em um sistema por gotejamento após perdas a cada nova seca

A estiagem causou inúmeros prejuízos na agricultura gaúcha nas duas últimas safras. Não foi diferente na propriedade da família Pakulski, de descendentes de poloneses, em Linha Costa do Xavier, no interior de Dom Feliciano, a 18 quilômetros da sede do município. Cansados de contabilizar perdas a cada nova seca, eles se determinaram a investir em um sistema de irrigação por gotejamento, utilizado pela primeira vez em 60 mil pés de tabaco no ciclo 2020/21. E estão muito satisfeitos com o resultado. Por lá, a colheita segue por mais alguns dias, e o tabaco que ainda está na lavoura evidencia o quanto a medida foi essencial.

A expedição Os Caminhos do Tabaco 2021 conferiu a estrutura implantada pela família na manhã de segunda-feira, no último roteiro desta edição. Na temporada anterior, os Pakulski calculam que o retorno financeiro foi em torno de 50% menor do que poderia ter sido, em virtude da depreciação na qualidade das folhas, além da redução no volume. Nesta safra, plantaram 150 mil pés, que correspondem em partes iguais a seu Alberto Luis Pakulski, 60, e sua esposa Emília; e a seus filhos Elimar, 33, com sua esposa Roseane, que é professora; e Josimar, 20, que ainda reside com os pais. A irmã Joice, 24, mora a sete quilômetros.

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Em família, eles realizam em conjunto todas as tarefas; ao final da safra, feita a comercialização, dividem entre si a receita gerada. Depois de conferir, com muita frustração, a quebra na produtividade e na qualidade em 2020, Elimar e Josimar conversaram com o pai, ventilando a possibilidade de implantarem a irrigação. Foram conferir o sistema em outras regiões, que já o adotavam, e convenceram seu Alberto.

Que, hoje, está muito entusiasmado. Tanto que está disposto a, ao lado dos filhos, expandir a área a ser contemplada. A inovação tecnológica implicou em investimento de R$ 70 mil, R$ 60 mil financiados via programa Mais Água, Mais Renda, do governo do Estado, e o restante em recursos próprios. Além de carência, o pagamento será feito de maneira parcelada. E o excelente aspecto das plantas, num contraste claro com as lavouras não irrigadas, os convenceu a ampliar o sistema na próxima safra de 60 para 80 mil pés. Para o futuro, a meta é reduzir o cultivo de 150 mil para cerca de 120 mil pés, e gradativamente estender a irrigação para toda a plantação.

A disponibilidade de água em abundância é um dos requisitos para adotar a irrigação. Os Pakulski construíram um açude no qual armazenam a água, tanto a de chuva quanto a canalizada de uma sanga próxima. De lá, é bombeada para chegar às lavouras, por gotejamento. E esse sistema ainda permite a fertirrigação, com a distribuição de fertilizantes, o que contribui para uma menor necessidade de mão de obra junto às plantações.

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Para implantar, é necessário dispor de água

Os irmãos Elimar e Josimar Pakulski, que convenceram o pai Alberto e a mãe Emília a apostar com eles no sistema de irrigação por gotejamento, referem especialmente o desenvolvimento e a uniformidade das lavouras do tabaco (e, logo, do tamanho das folhas, do amadurecimento e da cor delas ao final da secagem) como ganho valioso após a implantação da tecnologia.

Porém, enfatizam que a dispo nibilidade de grandes volumes de água na propriedade é algo fundamental. Do contrário, não será possível fazer a irrigação com a frequência necessária. Eles ainda produzem bastante milho, na faixa de 20 hectares, para a venda e para alimentar os animais na propriedade. Estes, em sua grande maioria, são para consumo próprio. No total, a família possui 40 hectares, divididos em três áreas.

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Os irmãos Josimar (esq.) e Elimar Pakulski

Um olhar de produtor

Por Giovane Luiz Weber
Produtor de tabaco


Um esforço para não sofrer com as secas

Olá, pessoal! Tudo bem? Na segunda-feira, em plena véspera de Carnaval, fizemos um segundo tempo em nossas viagens para encerrar a expedição de 2021 na região Sul do Rio Grande do Sul. Na parte da manhã, estivemos na família Pakulski, no interior de Dom Feliciano, onde os irmãos Elimar e Josimar residem na mesma propriedade que os pais, Alberto e Emília (na foto abaixo, comigo), e apostam no tabaco como a principal fonte de renda. Ficou claro que ali a sucessão rural está muito bem encaminhada. Em muitos casos, quando os filhos querem investir em algo diferente e moderno, os de mais idade são receosos de gastar, o que é compreensível. Antigamente, não era pouco o que eles tinham de passar e enfrentar, sem previsão de tempo e tecnologia. Mas construíram o que possuem. Hoje, a modernidade, como o sistema de irrigação por gotejamento implantado pelos Pakulski, permite obter excelentes safras mesmo em anos com estiagem. Mas é preciso dispor de água. E o sistema permite fazer a fertirrigação, que poupa mão de obra na lavoura.

O tabaco viabilizou a pecuária leiteira

Na parte da tarde fomos conhecer a propriedade da família Radtke, região de colonização pomerana, em São Lourenço do Sul. Enquanto o César segue plantando tabaco, sua irmã Daniele e o marido dela, Renato, junto com a filha Chandelly, que residem na vizinhança, no ano passado optaram por sair desta cultura e investir na pecuária leiteira. A pouca disponibilidade de mão de obra para as tarefas do tabaco foi a razão para mudar de atividade. Começaram com 75 litros a cada dois dias, e foram melhorando e ampliando o plantel, com a instalação de ordenha mecânica, resfriador e toda a infraestrutura necessária. Hoje entregam até 900 litros a cada dois dias. Mais uma vez, eles confirmam que quando uma família decide apostar em outra atividade, alternativa ao tabaco, é possível, mas nunca do dia para a noite. E requer forte investimento – que, quase sempre, ainda vem do próprio tabaco. E não se pode esquecer que é preciso ter área maior para isso.

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