Ideias e bate-papo 30/06/2017 10h15

Ser homem

É preciso conciliar a fama de durão com a exigência de tato, paciência, gentileza, sensibilidade e, não raras vezes, certa fragilidade

Não é fácil ser homem. Aos 57 anos, digo que nunca foi tão difícil ser homem. Nem falo daqueles homens da minha geração, forjados sob os mais condenáveis princípios machistas, inclusive para aqueles tempos idos.

Saí do interior do Estado aos 17 anos para Porto Alegre, o que ajudou a conviver com uma cultura diferente da cidade natal de 5 mil habitantes. Sempre achei incoerente delegar todas as tarefas domésticas à companheira. Afinal, ambos lutam pelo sustento da casa e compartilham do ambiente familiar, que precisa ser cuidado.

Morei num apartamento com oito jovens, todos homens. As tarefas eram compartilhadas, com agenda de horários, atividades e cota de aluguel. Aí consolidei esta noção de solidariedade para funções corriqueiras, como manter o banheiro habitável, varrer a casa, lavar a louça, arrumar a sala e recolher os copos sujos de cerveja.

Existe uma cobrança implacável sobre os homens. Na hora de elogiar uma mulher, por exemplo, hábito que mantenho desde adolescente, é comum ser confundido com assediador. É preciso conhecer muito bem o alvo do elogio e dosar as palavras para não incidir em crime.

Caso uma mulher mereça, sinceramente, o reconhecimento público e o homem não destacar sua beleza, competência ou outra qualidade, é taxado de insensível. Isso exige muito bom- senso, capacidade de observação aguçada e equilíbrio acima da média.

Muitas vezes nos cobram atitudes fortes, “afinal, tu és homem!”. É o que ouvimos com frequência. Aí que a coisa complica, porque é preciso conciliar a fama de durão com a exigência de tato, paciência, gentileza, sensibilidade e, não raras vezes, a necessidade de mostrar uma certa fragilidade.

Quando meus filhos – hoje adultos – eram bebês, cansei de trocar fraldas e acordar no meio da noite para que mamassem. Também fui motorista da madrugada na adolescência deles, ouvi confidências e até hoje troco confissões com minha filha, de 23 anos, e meu filho, de 21. Muitos amigos – alguns deles até jovens – ridicularizavam minha postura. “Tu parece uma mulherzinha!”, diziam. Mas não me arrependo. A parceria que firmei com os meus filhos e com minha esposa de 30 anos valeu todo esforço.

Hoje, mais do que nunca, é preciso ter muita paciência e equilíbrio para ser homem. Nada a ver com rudeza, força ou insensibilidade, atributos que permearam a criação de muitos “colegas de função” de outrora.