Ideias e bate-papo 25/08/2017 09h14

Um pedaço que se foi

Considero Jerry Lewis um dos maiores humoristas de todos os tempos pela incrível versatilidade. Atuava, escrevia, cantava

Uma das desvantagens da velhice são as perdas. Isso é um fenômeno quase semanal ao passar dos 50 anos. Jerry Lewis, aos 91 anos, “partiu desta para uma melhor” no último domingo, levando um pedaço importante da minha infância consigo.

Caretas, trejeitos, modulações hilárias de voz, gestual inigualável. Jerry Lewis era um comediante completo porque transitava pelo cômico e o dramático com desenvoltura invulgar. Passei anos tentando imitar esse americano que revolucionou o jeito de fazer humor. Dispensou palavrões, frases de duplo (e chulo) sentido, dispensou baixarias. Não foi à toa fã assumido de Charlie Chaplin.

Nas festas em família, eu costumava imitar as caretas e principalmente aquela rara habilidade que Lewis tinha para “revirar os olhos”, ou seja, se fazer de vesgo. Isso trazia desespero à minha mãe. A cada palhaçada desse tipo, a dona Gerti reagia aos gritos:

– Para com isso, guri! Tu vai pegar um vento encanado e ficar vesgo pro resto da vida! Já pensou?

Essa estória do “vento encanado”, aliás, soa familiar para pessoas da minha geração. Nasci em 1960 e até hoje brinco com isso com meus filhos, já adultos, tamanha a força da recordação que ficou dentro de mim. Não faço a mínima ideia de como surgiu essa lenda de vento tão poderoso.

Considero Jerry Lewis um dos maiores humoristas de todos os tempos pela incrível versatilidade. Atuava, escrevia, cantava, dirigia e fazia tudo isso com enorme desenvoltura e grande competência. Criou personagens inesquecíveis, como no filme O Professor Aloprado, que posteriormente foi refilmado com Eddie Murphy no papel-título.

Nostalgia é bom, mas sem exageros. Evito comparações do tipo  “nos velhos tempos era assim, bem melhor” em relação à atualidade. No humor, porém, é abusivo o uso de palavrões, expressões de duplo sentido e vulgaridade por parte dos comediantes. Os protagonistas de stand-up comedy, onde o artista trabalha sozinho no palco, se multiplicam. Basta uma aparição de 30 segundos na tevê – de preferência na Rede Globo – para que muitos se considerem astros consagrados, abusando da falta de talento.

Ao morrer, Jerry Lewis estava fora da ribalta. Pouco se falava nele, vitimado por problemas de saúde e suas complicações. Como reza a lenda, os grande nomes partem somente no plano terreno, permanecendo para sempre em nossos corações e mentes.

O magrelo ator de caretas inesquecíveis se foi, deixando a todos nós, que tivemos o privilégio de compartilhar seu talento, um pouco mais tristes. E órfãos de um artista genial cuja vocação era fazer rir. Sem baixo nível ou apelações. Apenas com maestria inigualável.