Ideias e bate-papo 11/01/2019 00h43 Atualizado às 10h10

Perdas e constelações

Há muitos anos busco contato com velhos afetos que se extraviaram. Foram colegas de escola, de trabalho ou de alguma jornada

A semana se iniciou de maneira dolorosa. Uma tia, na verdade minha madrinha, irmã de minha mãe, partiu para o outro plano, logo na manhã de segunda-feira, dia 7. Residia em Lajeado, como a maioria dos meus familiares.
No feriadão de Ano Novo estive na região e prometi a uma prima uma visita. Como nas vezes anteriores, não cumpri a promessa. Foram diversas idas ao Vale do Taquari com o intuito de abraçar essa guerreira, dedicada ao lar, de alto astral, sempre pronta a contar uma piada. Em português ou em alemão.

Já escrevi diversas vezes sobre o começo de ano quando fixamos alguns objetivos para os próximos 12 meses. Alguns escrevem e apõem na porta da geladeira para não esquecer. Outros, mentalmente, repetem as metas para fortalecer a execução de projetos, iniciativas e ideias.

Há muitos anos busco, através de amigos comuns e através das redes sociais, contato com velhos afetos que se extraviaram. Foram colegas de escola, de trabalho ou de alguma jornada que ficou marcada em nossa história. Confesso que tenho conseguido certo êxito, mas a busca está muito aquém do que gostaria de alcançar.

A rotina – sempre ela! – nos absorve sem dó, tornando-nos refém do próprio dia a dia. As pequenas folgas são preenchidas com repouso, relax em casa com amigos ou esporádicas viagens que não requerem grandes investimentos. Quando nos damos conta, o verão e a primavera se foram. Chega o inverno, essa prisão voluntária em que nos recolhemos nos dias gelados, úmidos e carrancudos.

Num piscar de olhos atravessamos os 12 meses, esbarramos no Natal, trombamos com o Ano Novo e desembocamos nas férias, uma convenção condenada a ser cumprida no verão. E tudo reinicia em janeiro – ou depois do Carnaval – quando a roda da vida volta à ribalta da nossa agenda caseira e profissional.

Adito que a perda da minha madrinha é uma tendência natural nesta altura da vida. Aos 58 anos ainda não aprendi, de maneira emocional, a entender que assim caminha a humanidade. Temos os filhos, que partem para construir suas vidas, deixando a casa vazia. Eles nos trazem os netos, os “filhos com açúcar”, alvo exclusivo do amor e nunca de restrições típicas dos pais. As sucessões são dolorosas, mas trazem compensações. Exigem estrutura, fé, parceria para compartilhar o fardo e ânimo para seguir adiante.

Os afetos que partem formam uma constelação que apenas muda de lugar. Ao invés de vê-los frente a frente, são vistas dentro de nós. Corações e almas são moradas permanentes, o porto seguro que, oxalá, seja também o ponto de culminância de um encontro derradeiro. Esta semana fiquei um pouco mais órfão. Normal, mas muito dolorido.