Direto da redação 07/09/2019 00h19 Atualizado às 10h41

Detalhes

Deveríamos nos distanciar da rotina e pensar um pouco sobre o efeito, a longo prazo, de achar que este ou aquele conceito é ‘frescura’

Você já ouviu falar em “ganhos marginais”? É um conceito segundo o qual pequenas coisas, somadas, resultam em algo muito significativo ao final de um período. Explora nossa tendência a deixar de lado os detalhes achando que eles têm pouca influência nas coisas da vida – quer dizer, temos uma certa inclinação à megalomania –, embora existam muitos exemplos de triunfos, e mesmo de tragédias, que nada mais foram que a soma de uma infinidade de coisas pequenas. O cuidado com elas levou os envolvidos ao céu; o menosprezo, ao inferno.

O Museu do Holocausto, em Washington, é um bom lugar para refletir sobre detalhes e aonde eles podem nos levar. Ao entrar, ganha-se um cartão com o nome, a foto e um breve histórico de um judeu vítima dos campos de concentração. É o começo do esforço para nos fazer refletir sobre o que aquelas pessoas passaram.

E é impossível não se impressionar em um lugar que parece ter sido montado de propósito para nos fazer sentir uma fração ínfima daquele sofrimento humano. A luz, o tipo de construção, o som... Embora seja impossível sequer comparar, tudo procura recriar o ambiente dos campos de concentração.

Lembrei dos ganhos marginais porque o nazismo não foi algo que surgiu do nada para, ao cabo, levar aquela sociedade ao abismo. Foi um processo, uma constante ruína do senso de civilidade. Foi um ataque diário aos conceitos importantes que, no fim, nos transformam em pessoas tolerantes e capazes de entender que só podemos existir com liberdade e em sociedades plurais.

Os nazistas, por exemplo, incentivavam as crianças alemãs a denunciar os professores que manifestassem antipatia às ideias políticas dominantes naquela sociedade. Seriam “maus alemães” e, portanto, uma ameaça. Parece algo pequeno – para alguns, certo até –, mas que se soma a muitos outros ataques ao conceito de civilidade, com efeito devastador depois de um certo tempo. Vez por outra, ideias como essas ressurgem: alunos denunciando, e até registrando em vídeo ou áudio, o que, em sala de aula, entendem como comportamento inadequado dos professores. Onde isso pode nos levar, junto com todo o resto?

Deveríamos lembrar dos riscos de, diariamente, sofrermos ataques sutis. Deveríamos nos distanciar da rotina e pensar um pouco sobre o efeito, a longo prazo, de achar que este ou aquele conceito é “frescura” (lembro sempre de coisas como os direitos humanos...), que temos assuntos mais importantes para nos preocupar. Porque isso nos leva, na melhor das hipóteses, à indiferença, o que já é trágico.

Talvez nossa megalomania esteja nos atrapalhando mais do que conseguimos perceber.