Crônica 10/11/2019 19h19

Ao alcance das tuas mãos

Caramba, o Nando me conhece, e sabe o meu nome. E sabe que eu trabalho na Gazeta

Em que outro lugar, favorecido por imensos e perfumados jacarandás, livros de todos os gêneros e estilos, e homenagens em bronze, eu poderia respirar, numa mesma tarde, o mesmo ar do qual se fartaram, naquela terça-feira cinza, Airton Ortiz, Marcelo Spalding, Martha Medeiros, Ivan Pinheiro Machado, Walter Galvani, Keny Braga, Nando Gross, Hique Gomez, José Alberto Wenzel, Marli Silveira…? Isso para citar só as personalidades do meio intelectual gaúcho que eu vi e reconheci flanando entre as bancas.

A Feira do Livro de Porto Alegre continua sendo o mais importante evento da cultura gaúcha mesmo que já tenham se passado 65 anos desde a sua primeira edição.

O tempo só a fortalece!

E ela, a feira, nos fortalece também.

E nós – nós, no caso, eu, mais o editor Romar Beling (que agora é quem comanda tudo por aqui), e o fotógrafo Lula Helfer (que deveria estar lá, na Praça da Alfândega, quando tudo começou) – cumprimos a missão que todos os anos – há já uns bons anos! – nos impomos, de ir até lá e contar tudo, depois, para você, cada um da sua maneira.

A determinação do chefe é bem esta: “Cada qual com o seu olhar!”.

Confesso que é um dos momentos do ano que eu mais gosto, pois que, além do envolvimento desta “secular” parceria, que sempre rende boas risadas, e tal, há o encontro maciço com um dos objetos que mais prazer me dão nesta minha já tão longa vidinha de leitor (e escriba): sua majestade, o livro!

Voltei com 14 novos exemplares para a minha modesta biblioteca, em casa, dentre os quais um Antônio Carlos Resende, Jairo e seus Diabos, que eu ainda não tinha lido; uma biografia de Andy Warhol, O gênio do Pop; as melhores entrevistas do jornal literário Rascunho, em dois volumes, 1 e 2; uma publicação com as palestras do Cristóvão Tezza, Literatura à margem; e o último livro de crônicas do Pedro Gonzaga, Antes não era tarde. E muito pouco gastei, economicamente falando, em comparação ao quanto de prazer e aprendizado essas obras, maravilhosas, vão me retornar.

Isso que nem falei do Eu dormi com Joey Ramone, do Bandido raça pura, Palavra Enguiçou (do meu querido amigo, poeta, Júlio Alves)…

Esta edição da feira de Porto Alegre me convenceu de algo bem simples: não são necessárias “trocentas” bancas quando “apenas” 160 cumprem bem o objetivo de apresentar, ali, o que de mais significativo tem sido lançado pelo mercado editorial entre os da nova safra da literatura nacional e internacional.

E alguns clássicos, também, cabem bem nesse formato mais enxuto, mais pocket, digamos assim.

E garimpe nos balaios de saldos e descontos, mais afú, mesmo! Muita “pepita de ouro” se encontra por lá, perdida, precisando de tua mãozinha, para ser levada para casa.

Você transita com tranquilidade pelas alamedas, desvia das pedras soltas da Rua da Praia, faz suas compras numa boa, vê pessoas, encontra os amigos, e tudo isso sem depois ficar com aquela incômoda sensação: “Putz, será que eu perdi alguma coisa? Será que eu deixei algo para trás?”.

De qualquer forma, ainda pretendo dar mais uma passadinha por lá.

Caramba, aquele ali não é o Nando Gross? Claro, é ele, sim. Putz, sou fã do cara, vou abordar. Ou, melhor não, tá conversando com aquela senhora… Bah, a mulher não para de falar. Deixa eu ouvir, vou chegar mais perto e huuum, ela é toda elogios, conta que as amigas também o escutam direto, em casa, na cozinha, no banheiro, no clube, e coisa, e tal, e o Nando é pura simpatia, concordando com tudo, sacudindo a cabeça, paciente…

Bah, que cara legal!

Ela tá se despedindo, finalmente, vou chegar.

Oi, Nando, posso tirar uma foto contigo? É para um dos meus irmãos, o Murilo, ele é muito teu fã e… Putz, cadê meu celular? Deixei lá no carro, ah, que saco, fica para uma próxima, então, valeu, eehrr, tchau, Nando, desculpa hein, foi mal aí e…

“Não te preocupa, Mauro, quando eu for a Santa Cruz eu passo lá na Gazeta e a gente faz a foto e tu me paga uns chopes depois, ok?”

Tá tá tá! Tá combinado, então! Valeu!

Caramba, o Nando me conhece, e sabe o meu nome. E sabe que eu trabalho na Gazeta. Não é possível. Bah, tenho que anotar isso para contar pro Lula e o Romar depois. Cadê minha caneta… Caneta.. Caneta… Ah, tá bem aqui, pendurada no meu crachá e…

Claro, o crachá! Melhor nem anotar, nada.

Deixa pra lá.