Fora de Pauta 16/11/2019 17h47

O crime não compensa

E na editoria de polícia onde aprendes, também, a não ter mais uma vida própria, social, e tal. A tua noite vira dia e o teu dia vira noite

Não há aprendizado melhor do que aquele quando, de nossas falhas, tiramos alguma lição. Algum proveito para, no futuro, tornarmo-nos alguém melhor. Quando conseguimos assimilar, com humildade, a nossa inabilidade perante determinada situação e, vencendo-a, logramos proveito daquele ser capaz e irascível que mora dentro de cada um de nós.

Ou quando o mau exemplo também nos faz crescer, para o bem.

A pauta, às vezes, é dura, mas temos que ir ao seu encontro e voltar de lá com a solução – ou seja, o texto perfeito, a obra-prima do jornalismo, o machadiano excerto que será publicado no outro dia. Independente do que se trata.

Dos mais velhos, os veteranos, onde me incluo, aos focas, os novatos, como já fui um dia, sugiro sempre, com relação ao próprio texto: leia, releia e, quando possível, dê, sem preguiça nenhuma, uma olhadinha final. Alguma coisa sempre escapa…

Lá na longínqua década de 1980 fui fotógrafo, repórter e editor de polícia (sim, naquela época se fazia tudo ao mesmo tempo!) de um jornal sediado aqui perto, o Jornal do Povo, em Cachoeira do Sul. Peguei a transição: circulava três vezes por semana e passou a ser diário. E eu, foquinha metido, ficava intrigado com o fato de as matérias da área policial saírem em espaços variados: manchete de capa, uma nota interna, outra matéria na contracapa, no obituário…

– Por que não criamos uma página para a polícia? – questionei, cheio de grau.
– Boa ideia. Tu vai fazer – respondeu, sem pestanejar, Cacau Moraes, o meu editor na época.

Não digo que seja um erro tu ser metido a metido…

A editoria de polícia, em um jornal, é a melhor escola para quem quer seguir na função. É onde tu aprendes a escrever a crônica, por exemplo. E onde aprendes, também, a não ter mais uma vida própria, social, e tal. A tua noite vira dia e o teu dia vira noite. A maioria dos crimes e tragédias acontecem à noite. O submundo é romântico, sedutor, mas também muito cruel, e rasteja no escuro.

Tu tens que ter estômago. Ser frio. Não pode vacilar. Achar natural, por exemplo, e até acreditar que a esposa do cara lá teve os seus motivos para tirar a vida do próprio marido, esquartejar o bendito e deixar suas partes em cima da pia da cozinha, como se ele fosse as aparas de um churrasco. Até hoje eu sinto aquele cheiro.

Ou então estar preparado para quando abrir a porta do banheiro de um ônibus acidentado, que caiu do alto de uma ponta, e constatar que alguém foi a óbito enquanto promovia as suas necessidades fisiológicas. E, na queda, misturou-se com elas, as necessidades fisiológicas, ao ponto de o resgate não conseguir chegar perto. Até hoje eu sinto aquele cheiro, também.

Fatalidades acontecem todos os dias e são o que se traduz em maior ibope em todos os veículos de comunicação do mundo. Existem publicações especializadas, que só trabalham com isso, com a desgraça humana, em todos os graus e níveis, sobrevivendo sem nenhum pudor em cima da divina tragédia humana.

E, sim, tu aprende sim, com os teus erros. Mas aprende muito, também, com os erros dos outros. Melhor andar na linha. Aquele – lá pela metade da década de 1980 – foi um ano de intenso aprendizado e convívio com o mundo do crime. E uma coisa lhes asseguro: ele não compensa! Quem dera fosse tudo (só) ficção