Aquele abraço 20/09/2019 00h55 Atualizado às 14h40

O samba é o meu lugar

Rolou de tudo: de enredos de escolas aos clássicos da Música Popular Brasileira. Cartola, Chico, Belchior e Gil reverberaram entre as quatro paredes.

Fui convidada para uma roda de samba caseira. Aceitei na hora. O evento foi na casa da minha gestora na sexta-feira passada e, como eu já imaginava, não tinha gente triste. Rolou de tudo: de enredos de escolas de samba aos clássicos da Música Popular Brasileira. Cartola, Chico, Belchior e Gil reverberaram entre as quatro paredes daquele apartamento aconchegante e cheio de energia. Energia potente de gente que espanta os males por meio da voz e desse ritmo tão nosso.

A caminho da festinha, perguntei-me se não ficaria deslocada. Não conhecia ninguém exceto duas colegas de trabalho que também iriam. Em último caso, pensei: se eu não me enturmar, pelo menos vou ouvir música boa. Claramente minha insegurança foi quebrada assim que cheguei. Lá eu conversei, cantei, ouvi e admirei a força do coro coletivo. O samba salva!

Minha gestora, a Rita, é filha de uma senhorinha muito simpática, a dona Carminha. Aos 87 anos, lá estava ela, de vestidinho vermelho e tênis esporte, ouvindo atentamente cada verso de música soletrado na sala. É claro que ela também cantou e acompanhou a festança sentadinha mexendo as perninhas para cá e para lá.

A casa estava lotada, mas lá pelas tantas Carminha ficou preocupada. Perguntou a Rita se tinha mais convidados para chegar, pois achou que cabia mais gente na casa. Alma de festeira é assim: quer a casa sempre viva. Mas Carminha, toda esperta, não queimou na largada… Recepcionou os convidados no começo da tocata e depois, na espreita, deslocou-se para o quarto. Foi tirar um cochilinho de meia hora para recarregar e voltar ao samba com mais energia. Cumpriu à risca.

Uma semana antes, levei uns amigos em outra roda de samba. Dessa vez no Parque das Ruínas, em Santa Teresa. Chovia e a apresentação, que era para ser ao ar livre, foi transferida para um espaço minúsculo. Quando eu já começava a ficar decepcionada, ouvi a conversa de um casal. “Poxa, que saco essa chuva. Vai estragar o evento”, disse a mulher. Imediatamente o marido responde: “Vai estragar nada, meu bem. Tem é que agradecer a São Pedro. Vambora que vai começar!”.

Aquela conversa me quebrou. Quem disse que tudo precisa ser como a gente imagina? Assumi a mesma postura e, assim como 99% das pessoas que estavam no evento, esqueci da chuva e fui espantar meus males com o samba. É claro que foi lindo.