Aquele abraço 18/10/2019 00h07 Atualizado às 09h51

Rumo a Lumiar

Pedimos instruções a amigos embriagados que não conseguiam nem lembrar do próprio nome

Sexta-feira, o dia vai se encaminhando para o fim e recebo a seguinte mensagem do meu namorado: bora pra Serra esse fim de semana com a galera? Óbvio! Distrito da cidade de Nova Friburgo, Lumiar fica a aproximadamente 170 quilômetros da capital e é conhecido por ser o refúgio de quem quer fugir do caos da cidade.

Chinelo nos pés, mochila nas costas, empolgação de quem vai conhecer um lugar novo e, na primeira hora da tarde de sábado, lá fomos nós. No caminho, vamos trocando ideia e curtindo aquele sonzinho. Lá pelas tantas, um amigo comenta: “Em meia hora quero estar no meio do mato tomando uma cervejinha”.  Doce ilusão…

Seguimos as instruções dadas pelo dono da propriedade, mas quando ingressamos na estrada de chão, vimos que algo não estava muito certo. Paramos naquele botecão clássico de interior para perguntar. “Vocês pegaram a entrada errada. Ou vocês voltam ou sigam mais 30 quilômetros por essa estrada aqui.” “Socorro!”, eu pensei.

Continuamos um tanto desolados até que encontramos um senhor mais pra lá do que pra cá. “Você chega lá e não desce, dobra ‘pras direita’.” Mas onde é lá? “Lá em cima”, respondeu ele. “Só não pode descer”, frisou, com a firmeza de quem já havia empinado a tarde toda.

Sem muita escolha, continuamos até que nos obrigamos a parar por causa de uma procissão. Os coroinhas se destacam na frente. A comunidade reza.Um padre canta puxado por um fusca verde que carrega o som. A gente observa aquele movimento maravilhoso, e, claro, perde-se de novo.  

Quando o fim do mundo parecia ter chegado, uma moça nos informa: “Ih, tá longe!”. Segue o bonde desesperançoso. Paramos em mais um boteco, pedimos instruções a novos amigos embriagados que não conseguiam nem lembrar do próprio nome e continuamos a viagem até que a mata ficou densa e escureceu.

“Vai devagar, vai devagar, tem gente naquela casa ali, ó”, falei para o motora.
“É agora que alguém sem cachaça na cabeça vai nos ajudar”, disse meu namorado.  

Bem, a mulher até poderia não estar embriagada, mas estava pelada. Sim, pelada. Era noite de lua cheia, amigos, e provavelmente aquele sítio estava reservado para algum tipo de ritual xamânico entre mulheres. Volta o cão arrependido.

Quando a esperança foi embora e a vontade de curtir o interior começava a dar brecha para a irritação, a boa notícia vem de um motociclista sem capacete e fanho. “É logo ali”, informou ele todo simpático.

Andamos alguns metros e, sim, chegamos! O sítio era lindo, a junção foi maravilhosa e é claro que o caminho e todos esses encontros valeram tanto (ou mais) do que a chegada. Vai dizer que a vida não é assim?