Aquele abraço 08/11/2019 10h11

Não fui ao cemitério

No metrô, antes de dormir, na cozinha, no banho. Minha mãe está mais viva do que nunca

Cinco anos se passaram e, desde que ela morreu, este foi o primeiro Dia de Finados em que não visitei o cemitério.  Não viajei a Fontoura Xavier, não comprei flores, não senti cheiro de vela queimar, não fiquei olhando para aquela foto tão linda colocada em seu túmulo. Daqui, pensei na morte. Quer dizer, ressignifiquei ela.

Nesses cinco anos em que eu convivo com a falta, talvez este seja o que mais esteja me doendo. Meu buraco ainda está aberto e o entendimento que tenho sobre a morte, mudando de direção. Devagarinho me permito sentir um luto atrasado. Luto de quem entende que não precisa ser “forte”, tampouco dar conta de tudo. Vivo agora uma saudade mais quieta, dolorida, mas também necessária. 

É bem possível que a mudança de cidade e a distância daqueles que eu tanto amo tenham colaborado para eu chegar até aqui, mas a verdade é que nunca lembrei tanto dela quanto em 2019. As falas, as manias, os defeitos, sobretudo a imagem de uma mulher incrível me vêm à cabeça diariamente. No metrô, antes de dormir, na cozinha, no banho. Minha mãe está mais viva do que nunca! 

Meu namorado não conheceu a dona Fátima. Quer dizer… Conhece ela por meio das minhas lembranças, que são cada vez mais potentes. E como me faz bem lembrar, contar. Desenhá-la, se for preciso. 

Direta ao ponto, minha mãe não tinha muita paciência, tampouco travas na língua. Largava na “lata” o que precisava e como repetia.

“Você precisa aprender a se impor, minha filha.”

Dona Fátima tinha o jeito dela de amar. Dificilmente demonstrava um carinho mais expressivo, mas era nas entrelinhas que arrebatava. 

“Mexeu com filho meu, eu viro fera.” 

É, amigos, os anos passam e a gente começa a entender mais as razões dos nossos pais. Depois de sua partida, compreendi muita coisa, e tenho me enxergado muito nela também. Como é que o Belchior cantava mesmo? “Ainda somos os mesmos. E vivemos…” 

De fato, 2019 foi uma virada de 180 graus em minha vida e, mais do que a mudança de cidade e de trabalho, o que mais tem me balançado é a compreensão de que, sim, eu sigo em luto. E tenho mais consciência sobre a falta que a falta faz. Se está tudo bem? É claro que sim. Somos seres em constante transformação e aprendizado. Fácil não é, mas escolho ficar com as boas lembranças.