Direto da redação 12/06/2017 09h19 Atualizado às 12h12

Frio, a controvérsia

Em um país continental cuja identidade está associada ao calor e à rua, somos uma ilha onde passa-se parte do ano com duas meias em cada pé

O frio é polêmico. Há quem louve e quem odeie. Estou no primeiro grupo, mas sei que preciso pisar em ovos. No fim de semana, por exemplo, postei algo no Facebook, exaltando discretamente a queda na temperatura após aqueles dias intermináveis de chuva, e logo alguém me censurou: “Nem vem com ode ao frio”.

É claro que há incômodos. O dia fica mais curto, lavar louça vira um sofrimento e, embora precisemos usar mais roupas, elas levam mais tempo para secar, e às vezes toma-se um choque térmico ao apertar a mão de um amigo ou encostar em uma parede. Para quem, como eu, aprecia mais bebidas frescas e menos vinhos, chás e cafés, até as relações sociais ficam comprometidas – por sorte, existe o fiel chimarrão. Sem falar que sempre tem alguém tossindo ou com nariz escorrendo por perto. 

O frio é pauta frequente de debates meus com amigos e colegas. Quando argumento que o calor em excesso é tão desconfortável e traz tantos transtornos quanto o frio, me contraditam afirmando que é mais prático driblar os termômetros em alta: basta um ventilador competente, um líquido gelado ou uma escapada ao Litoral.

Mas pensemos mais um pouco. Primeiro, calor temos de sobra. Dos 12 meses do ano, é seguro dizer que pelo menos uns 9 ou 10 são quentes, ou amenos. O frio, por sua vez,  daquele que nos faz vestir casacos pesados e passar manteiga de cacau nos lábios, é joia raia: dura apenas algumas semanas, e geralmente é interrompido por uns calorões extemporâneos. 

Acima de tudo, o frio é algo muito particular, muito “nosso”, no contexto de Brasil, e talvez por isso a relação de amor e ódio.

No ano passado, tive a oportunidade de conviver com uns maranhenses que vieram estudar em Santa Cruz. No início de junho, quando chegou a fazer temperatura negativa, um deles me dizia: “Aqui só dá para dormir com a cabeça em um lado do travesseiro. Se vira o rosto para o outro, está gelado. E quando esquenta, eu já acordei”. Para quem o parâmetro de frio é 20 graus, não há exagero.

No fim das contas, o maior valor do frio é mesmo simbólico, mas importante: nos torna únicos, nem que seja por uns dias. Arrisco dizer que só o frio nos faz, de fato, gaúchos. Sim, temos o tradicionalismo, mas o frio é mais democrático: é campeiro e urbano, antigo e contemporâneo, e diz muito mais sobre quem somos – e quem não somos. Em um país continental cuja identidade está associada ao calor e à rua, somos uma ilha onde passa-se parte do ano com duas meias em cada pé e esquenta-se as mãos na boca do fogão antes de sair pela manhã. Ou sou só eu?

Como diz o grande Vitor Ramil, o frio simboliza o Rio Grande do Sul e é simbolizado por ele. E isso ninguém nos tira. Só, talvez, o aquecimento global.