Direto da redação 13/11/2017 09h22

Respeite as tipuanas

Isso significa que o risco de quedas de galhos, se não houver o cuidado necessário, só vai aumentar

Em agosto de 2011, escrevi uma reportagem para a Gazeta cujo título era “A hora da decisão: o que fazer com as tipuanas?”. À época, os problemas que nos levaram a pautar o debate no jornal eram menos graves que os de hoje: podas irregulares na calada da noite, calçadas desreguladas e rachaduras nos pisos de alguns imóveis. Ainda não se tinha notícia de galhos despencando sobre veículos e pessoas.

Lembro de ouvir as explicações de técnicos sobre por que as majestosas árvores da Marechal Floriano causavam tantos incômodos. Na realidade, como foi repetido durante a última semana, por serem espécies de grande porte, as tipuanas não encontram na principal rua do Centro o ambiente mais adequado à sua natureza. Quando o Túnel Verde foi criado, na década de 1940, provavelmente não se projetou a notável expansão urbana que a cidade viveria nos anos seguintes e não se teve o manejo ideal, o que faz, por exemplo, com que as raízes, em busca de água e nutrientes, se expandam para além dos limites dos canteiros, causando os desníveis tão desagradáveis para quem transita e os prejuízos sobre as edificações. Não por acaso, vários moradores e ocupantes com quem conversei defendiam que uma alternativa fosse encontrada.

Dias após a publicação da matéria, a Prefeitura lançou uma rápida nota na qual comunicava que as tipuanas seriam mantidas, na tentativa de tranquilizar os muitos que – com razão – se espantaram com a possibilidade de o principal cartão-postal de Santa Cruz ser abolido.

O ponto é que, ao reduzir a discussão a tirar ou não as árvores, o poder público acabou por dar as costas aos problemas que angustiavam aquelas pessoas e exigiam, sim, uma atitude. Acredito, na verdade, que ninguém realmente queira que as tipuanas saiam dali. A “decisão” à qual a reportagem fazia referência não era essa, e sim a de tratar esse patrimônio natural, histórico e simbólico de outra forma, pelo bem das árvores e da população.

Infelizmente, seis anos se passaram e a administração não tratou a pauta com a atenção que merecia. Hoje, não só todas aquelas situações permanecem e se agravam, como outras surgiram – a ponto de uma criança ter se machucado. É verdade que a resposta do governo foi rápida – ontem mesmo foram realizadas podas emergenciais –, mas é lamentável que um incidente potencialmente arriscado tenha precisado acontecer para que se tomasse uma providência. E o desafio será cada vez maior: o Atlas dos Desastres Naturais de Santa Cruz, lançado recentemente por pesquisadores da Unisc, sinaliza que as tempestades serão mais frequentes daqui para a  frente. Isso significa que o risco de quedas de galhos, se não houver o cuidado necessário, só vai aumentar.

Somos devedores das tipuanas por tudo que elas representam e nos oferecem, da sombra e alívio da temperatura nos dias quentes à beleza cênica estonteante de suas copas. Não sejamos ingratos.