Direto da redação 13/04/2019 01h30 Atualizado às 19h03

Memórias do Arnão

Fazia tempo que aquelas imagens não se materializavam: o Poli lotado, as olas nas arquibancadas

Às vezes tenho a impressão que a memória humana é mais ou menos como aquele armário da casa onde vamos guardando coisas que são significativas demais para jogarmos fora. Só que aí ficamos meses, até anos sem abri-lo e já nem sabemos mais tudo o que está lá dentro. Um belo dia, decidimos procurar algo e nos deparamos com um depósito empoeirado de resquícios do passado. Puxamos uma foto ou um documento e uma montanha de recordações desaba em nosso colo.

A nossa memória funciona assim também. Quando menos esperamos, alguma lembrança que estava mofando nas prateleiras da mente salta diante de nós. E aí é um caminho sem volta: uma recordação leva a outra e sabe-se lá onde vamos parar.

Isso aconteceu dias atrás, quando soube que o Guilherme Mazui está lançando o livro Corinthians de Ary Vidal. A notícia me jogou em um passeio pelo que pude testemunhar, ainda pequeno, da era de ouro do basquete em Santa Cruz. Fazia tempo que aquelas imagens não se materializavam para mim: o Poliesportivo lotado, as olas nas arquibancadas, eu e meus primos vaiando o Oscar Schmidt e, nos intervalos, correndo até perto da quadra para pedir autógrafo dos jogadores. O meu preferido era o Pipoca – sei lá por que, talvez eu achasse o nome divertido (lembrem, eu era uma criança!). E tinha o americano que usava a camisa 99, cujo nome não consigo lembrar. Algumas recordações ficam pela metade, quem sabe até o fim do texto eu lembro.

Lembrei também de como era bom e como gostávamos de tudo aquilo. Acho que havia um sentimento forte de pertencimento. Quando chegávamos ao Poli, só encontrávamos gente conhecida. Lembro, por exemplo, que minha professora da 1ª série estava em todos os jogos – o que, aliás, me leva a lembrar também do tempo em que estudei no Colégio das Irmãs, mas isso fica para outra.

É claro que a memória também tem suas armadilhas. Podemos cair na falsa ilusão de que no passado tudo era bom quando, na verdade, a mente na maioria das vezes trata de armazenar as partes boas e encobrir as partes ruins – uma espécie de filtragem de qualidade.

O que me conforta nisso é saber que tudo o que nos agonia e gera desesperança no presente vai (espero) acabar esquecido. Em breve já não lembraremos que em pleno 2019 passamos semanas discutindo se nazismo é de esquerda ou de direita e, talvez em um futuro breve, terá ficado para trás essa época confusa em que todos querem ganhar no grito e em que a desinformação e a agressividade são a regra e a gentileza e a sobriedade são a exceção. E lembraremos desse como um tempo tão bom quanto aquele em que íamos torcer no Arnão.

A propósito, acabo de lembrar: o jogador da camisa 99 chamava-se Alvin. Se não me falha a memória, é claro.