Golpistas 20/06/2018 00h48 Atualizado às 08h06

Como agia o grupo especializado no conto do bilhete que foi alvo de operação

Polícia não descarta que a quadrilha tenha feito vítimas na região de Santa Cruz do Sul, tipo de cidade que atraía o bando

Desde a década de 90, um grupo criminoso de Passo Fundo vinha lucrando ao enganar vítimas com o golpe do bilhete premiado. A organização dos estelionatários foi desarticulada em uma operação que ocorreu no fim de semana, na cidade do Norte do Estado. A ação da Delegacia Especializada em Furtos, Roubos, Entorpecentes e Capturas (Defrec) do município pode ter reflexos em Santa Cruz do Sul. É possível que o grupo, que atuava no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Minas Gerais, tenha feito vítimas no Vale do Rio Pardo. Ninguém foi preso.

Conforme o delegado Diogo Ferreira, titular da Defrec de Passo Fundo, os estelionatários escolhiam os municípios nos quais fariam vítimas pelo alto poder aquisitivo dos seus moradores, o que coloca Santa Cruz na rota dos golpistas. O esquema funcionava assim: entre a noite de domingo e a manhã de segunda-feira, os estelionatários, em grupos de cinco, viajavam à cidade-alvo, onde aplicavam golpes ao longo da semana. Na sexta-feira, retornavam para Passo Fundo, onde passavam o fim de semana esbanjando o dinheiro conquistado.

“Eles ostentavam, especialmente os mais jovens. Iam para as festas, compravam camarotes. Deixavam cerca de R$ 5 mil por noite em uma casa noturna”, conta Ferreira. Segundo ele, os golpistas não tinham a preocupação de ter um “trabalho de fachada” para justificar o dinheiro ganho. Pelo contrário, tinham orgulho de dizer que os valores eram oriundos do conto do bilhete premiado.  

O perfil dos estelionatários é variado. Alguns já haviam cometido outros crimes, como furtos, roubos e tráfico de drogas. Mas havia também aqueles que só se dedicavam aos golpes. “São pessoas inteligentes. É um misto, gente de diversas camadas sociais”, afirma o delegado. Pelo menos 150 pessoas estavam envolvidas com o grupo, algumas delas vivendo do lucro obtido com estelionatos há mais de 20 anos. “É um grupo volátil. Eles se organizavam de acordo com a necessidade. São muito bem articulados. Os que atuavam há mais tempo com o conto do bilhete eram uma espécie de professores, repassando o legado”, ressalta.

Para agir, os estelionatários ficavam perto das agências bancárias e, após um período de observação, escolhiam as vítimas. Segundo o delegado, nem sempre eles conseguiam enganar a primeira pessoa escolhida, então passavam para um novo alvo. “Eles tentavam até uma pessoa cair no conto.” Ao todo, calcula-se que tenham obtido pelo menos R$ 2,5 milhões nos últimos dois anos, período em que se concentrou a investigação. “Passa de R$ 20 milhões o dinheiro conseguido por eles desde a década de 90, quando os primeiros começaram a aplicar o golpe.”

A Operação Pólis

A Polícia Civil cumpriu 127 mandados de busca e apreensão em Passo Fundo no último sábado. Mais de 430 agentes de 15 diferentes regiões participaram da operação. Eles se concentraram em Carazinho, município vizinho, para não alertar os criminosos. Os delitos investigados são lavagem de dinheiro e organização criminosa.

A lavagem de dinheiro acontecia especialmente com a compra de veículos, que eram colocados em nome de outras pessoas. Não foi à toa que na operação foram apreendidos 75 carros, 19 motocicletas, dois jet skis, dois barcos e um caminhão.

A Polícia Civil vai instaurar pelo menos 60 inquéritos para apurar os crimes. “Agora, a documentação apreendida será analisada. Como ninguém foi preso, teremos 30 dias para concluir essa etapa, mas eu acredito que vá demandar mais tempo”, afirma o delegado Diogo Ferreira.

O golpe

Na forma mais comum do golpe, um dos criminosos, fingindo ser uma pessoa humilde, abordava a vítima e dizia ter um bilhete premiado. Enquanto conversava com o alvo, aparecia um segundo golpista, bem vestido, e se mostrava interessado em ajudar o primeiro. Para dar um tom de veracidade à história, o segundo fingia telefonar para a Caixa Econômica Federal, a fim de “confirmar os números sorteados”.

Em seguida, o suposto vencedor do prêmio pedia ajuda para sacar os valores e prometia uma recompensa a quem o ajudasse. No entanto, exigia da vítima um repasse em dinheiro antes, como garantia de que não seria roubado. Depois que recebia o valor da vítima, o estelionatário não era mais visto. Só então a pessoa percebia ter sido enganada.

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