Caso Francine 18/08/2018 01h33 Atualizado às 13h32

“Não vamos parar até resolver”, garante delegado Luciano Menezes

Descobrir quem violentou e matou Francine Rocha Ribeiro é prioridade e um caso de honra para a Polícia Civil de Santa Cruz

Neste domingo a morte de Francine Rocha Ribeiro, de 24 anos, assassinada brutalmente nas imediações do Lago Dourado, completará uma semana. As investigações para chegar ao assassino, a cargo da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), contam com apoio de todas as unidades da Polícia Civil de Santa Cruz do Sul. Segundo o delegado regional, Luciano Menezes, o caso tem prioridade absoluta. “Todas as forças da polícia estão concentradas nesse caso. Não vamos parar até resolver”, garante.

Na tarde dessa sexta-feira, a Gazeta do Sul acompanhou uma ação da Delegacia Especializada em Furtos, Roubos, Entorpecentes e Capturas (Defrec) em áreas nas imediações do lago. Foram colhidos depoimentos de moradores. Nos últimos dias a Deam ouviu mais de uma dezena de pessoas, entre familiares da vítima e gente que esteve no lago no dia do crime. A polícia mantém sigilo sobre o andamento da investigação, mas a titular da delegacia especializada, Lisandra de Castro de Carvalho, reforçou nessa sexta que as equipes estão trabalhando duro.

Foto: Lula HelferMenezes: “Todas as forças concentradas”
Menezes: “Todas as forças concentradas”

 

Na noite dessa quinta-feira, um clima de expectativa pelo desfecho do caso surgiu entre integrantes de grupos do WhatsApp, por onde passou a circular a foto que seria de um suposto culpado. A Gazeta foi atrás e descobriu que o homem da foto havia sido preso pela Defrec durante a tarde de quinta, mas não pela morte de Fancine: ele cumpre pena por roubo e estava foragido. Até o momento, no entanto, não há indícios de que tenha qualquer relação com o assassinato. O agente da Susepe que vazou a foto do sistema do presídio já foi identificado e levado à Corregedoria. A captura do foragido seria reflexo de uma intensificação nas ações da Defrec, que também vem buscando informações sobre o crime.

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A forma brutal como Francine Ribeiro foi morta impactou a comunidade. A vera-cruzense foi deixada pela noivo no Lago Dourado para caminhar, por volta das 14h50 do último domingo. Às 17 horas a mãe dela estranhou a demora e, preocupada, passou a acionar familiares. O pai de Francine, acompanhado de amigos e parentes, virou a noite procurando pela jovem nas imediações do lago.  O corpo foi encontrado pouco antes das 10 horas de segunda-feira em meio a um matagal entre o Rio Pardinho e o Lago Dourado, a 375 metros da pista de caminhada.

Visitantes estranham não ter ouvido gritos

Muitas questões ainda estão em aberto sobre o homicídio de Francine. Dentre elas, chama a atenção a forma como a vítima foi abordada, sem que ninguém notasse, e a maneira como o assassino entrou e saiu do complexo sem levantar suspeitas. Duas mulheres que estiveram no Lago Dourado no horário aproximado da morte da jovem conversaram com a Gazeta do Sul essa semana e disseram que não entendem como o ataque à vítima passou despercebido.

“O movimento estava menor do que o normal, mas ainda assim tinha bastante gente por lá, não houve momento em que ficamos sem ver alguém na pista. É difícil entender como ninguém ouviu nenhum grito ou pedido de ajuda”, comentaram. Segundo elas, a acústica gerada pelo espelho d’água faz com que qualquer barulho seja ouvido a centenas de metros de distância.

“Vinham pessoas caminhando atrás de nós, a uma distância considerável, e nós ouvíamos tudo o que eles diziam com muita clareza. Não entendo como alguém pode gritar ali e não ser ouvido.” Próximo ao lugar onde se acredita que Francine foi abordada, as mulheres chegaram a parar e sentar na pista durante algum tempo. Elas não perceberam nenhuma movimentação estranha.

Foto: Bruno PedryMata ao redor do lago é entrecortada por trilhas, com dejetos e ossos de animais
Mata ao redor do lago é entrecortada por trilhas, com dejetos e ossos de animais

 

Embora não se saiba qual o caminho percorrido pelo assassino para entrar e sair do lago, não é difícil imaginar como ele pode ter se movimentado sem ser flagrado pela câmera da entrada principal. Pelo menos seis ruas de Santa Cruz fazem divisa com o matagal que contorna o lago. É o caso da 28 de Setembro. O terreno que fica no fim da via e encosta na Sanga Preta é utilizado por andarilhos como abrigo e tem trilhas. A distância até a área do lago é de aproximadamente 50 metros, cortados pela sanga. A travessia pode ser feita com água no joelho.

Já no final da Rua Irmão Emílio, no Bairro Várzea, as trilhas acompanham o percurso do Rio Pardinho, por dentro do matagal que o costeia, até o Lago Dourado. Outras ruas que dão acesso a empresas localizadas às margens da BR-471 têm caminhos semelhantes. Já do lado de Vera Cruz, é possível chegar ao local costeando o Rio Pardinho, ou atravessando as lavouras de arroz e cruzando o rio. Se a pista em torno do lago fosse cercada, esses acessos não poderiam ser utilizados.

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Relembre o caso

  • Na manhã do último domingo, Dia dos Pais, Francine almoçou com o pai, o noivo e a irmã gêmea na casa do pai, em Rincão da Serra, no interior de Vera Cruz.
  • Por volta das 14h30, eles foram embora. Em uma entrevista, o noivo contou que eles iriam assistir a um jogo de futebol em Santa Cruz, mas Francine mudou de ideia e decidiu caminhar no lago. Ela passou na casa da mãe, no Bairro Bom Jesus, em Vera Cruz, trocou de roupa e foi deixada pelo noivo no Lago Dourado por volta das 14h50. Ela voltaria para a casa da mãe caminhando.
  • Por volta das 17 horas, a mãe estranhou a demora da filha para retornar, já que a volta no lago costuma levar cerca de uma hora. Ela acionou familiares, que começaram a procurar por Francine.
  • As buscas pela jovem seguiram madrugada adentro, nas imediações do Lago Dourado. O corpo foi encontrado pelas 9h50, na barranca do Rio Pardinho, a quase 400 metros da pista de caminhada do lago.
  • Francine foi morta por asfixia mecânica. Ela também foi espancada na região do abdômen e sofreu hemorragias internas. O braço esquerdo da jovem tinha um cordão amarrado, cujo restante estava preso em uma árvore. 
 

Delegada tem histórico de solucionar casos graves

Responsável por comandar a investigação sobre a morte de Francine Rocha Ribeiro, a delegada Lisandra de Castro de Carvalho já solucionou homicídios impactantes e complicados ocorridos em Santa Cruz do Sul. A lista inclui as mortes de Ana Paula Sulzbacher, Leodete Aparecida da Silva e Francine Sins Matias da Silva.

O assassinado de Ana Paula aconteceu em 14 de dezembro de 2012. A adolescente, de 15 anos, foi encontrada morta na base do Morro da Cruz, no Bairro Margarida. Ela foi estuprada e atirada do morro ainda com vida. Deivid Stein de Oliveira foi condenado a 30 anos de prisão. Em março desse ano, ele foi condenado a mais 18 anos pela morte de Leodete Aparecida da Silva, ocorrida em 2013. O criminoso ateou fogo em Leodete quando ela ainda estava viva. Os dois inquéritos foram comandados por Lisandra.

Foto: DivulgaçãoLisandra na investigação da morte de Francine Sins (detalhe): mãe e padrasto indiciados
Lisandra na investigação da morte de Francine Sins: mãe e padrasto indiciados

 

Em abril do ano passado, a delegada concluiu a investigação sobre o caso de Francine Sins. Conforme o inquérito, a adolescente, de 13 anos, teria sido assassinada e violentada pelo padrasto Ronaldo dos Santos, em 14 de abril. A mãe da vítima, Geni Sins, de 54 anos, foi apontada como suposta autora intelectual do assassinato da filha.

Lisandra está na Polícia Civil desde 2003; em Santa Cruz do Sul, atua desde 2005. Além da Deam ela também é responsável pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA).

Cinco dúvidas

O silêncio tem sido uma das estratégias utilizadas pela Polícia Civil no curso das investigações. Desde terça-feira, quando foi realizada a última coletiva de imprensa sobre o caso, a delegada Lisandra de Castro de Carvalho não comenta o rumo das investigações. Enquanto isso, dúvidas intrigam a população.

  • Como ninguém viu o momento em que Francine foi abordada?

As imagens mostram que havia movimentação na pista que contorna o Lago Dourado no horário do crime, o que supostamente obrigou o assassino a agir de forma muito rápida para não ser notado.

  • Como o assassino a levou até o ponto em que consumou o crime?

A polícia concluiu que, devido às condições do terreno – alagadiço e com trechos de mata muito fechada –, não haveria como carregar uma pessoa desacordada ou morta até as margens do Rio Pardinho, onde o corpo foi encontrado. A suspeita é que Francine tenha sido ameaçada mediante uso de arma ou faca e obrigada a caminhar.  

  • Por que Francine não gritou?

A pergunta tem sido feita por muita gente que comenta o caso em rodas de conversa. A hipótese de ameaça mediante uso de arma de fogo seria a mais provável.

  • Por onde o assassino entrou no complexo?

A reportagem da Gazeta constatou que há várias possibilidades de acesso ao local, sem passar pela portaria. A mata que rodeia o lago é um emaranhado de trilhas, repletas de resquícios de fogueiras e detritos deixados por invasores.

  • Qual a motivação do crime?

A hipótese principal da polícia é de crime com motivações sexuais. Sob essa ótica, Francine teria sido escolhida aleatoriamente pelo abusador.

 

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