Feminicídio 23/08/2018 01h14 Atualizado às 12h41

"Quero olhar na cara do assassino", diz mãe de Francine Ribeiro

Eronilda Machado está confiante no trabalho da polícia e espera ter em breve respostas sobre a morte brutal da filha de 24 anos

Eronilda Machado estava tomando chimarrão na casa de uma vizinha no último dia 12, na rua onde mora, no Bairro Bom Jesus, em Vera Cruz, quando a filha chegou em casa, acompanhada do noivo, para trocar de roupa. A mãe entrou na casa para fechar uma janela e viu a jovem vestir legging e uma camiseta. Francine Rocha Ribeiro, de 24 anos, voltava de um almoço na casa do pai e estava prestes a ir caminhar no Lago Dourado, onde seria assassinada horas depois. Quase duas semanas após o crime brutal que tirou a vida da filha, Eronilda pede justiça. “Quero que peguem o assassino, quero olhar bem na cara de quem matou a minha filha. Quem fez isso não é gente, é um monstro”, desabafa.

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Confiante no trabalho da polícia, a costureira acredita que os próximos dias devem trazer respostas sobre o caso. Apesar dos boatos que circulam pelo município, Eronilda não acredita que o crime tenha sido premeditado. “Eu acho que não foi gente normal que fez isso e a Cine não tinha inimigos. Foi um criminoso, um bandido que estava escondido no mato, esperando para fazer uma maldade. Se não fosse a minha filha, seria outra”, comenta. Buscando entender as circunstâncias em que Francine foi atacada, a mãe lembra que a jovem sofria de síndrome do pânico, e acredita que ela pode ter ficado paralisada diante da situação.

“Hoje em dia ela estava muito bem, mas teve depressão e síndrome do pânico. Imagino que alguém a abordou e ela travou, não conseguiu gritar ou se mexer, e aí levaram ela”, supõe. Enquanto assava algumas fornadas de bolachas, por volta das 17 horas daquele domingo, a mãe notou que a filha estava demorando para retornar da caminhada. “Ela ia vir pra cá. Como saiu para caminhar pelas 15 horas, eu fiz as contas: uma hora pra dar a volta no lago, mais meia hora para caminhar até em casa. Ela já devia ter chegado”, lembra.

A primeira reação de Eronilda diante do atraso foi telefonar para Francine. Nas primeiras chamadas, as ligações não foram atendidas. Depois de várias tentativas, o telefone foi desligado. “Primeiro eu pensei que ela não tinha escutado porque estava de fone de ouvido, mas quando vi que desligaram o celular, eu me preocupei,”, contou. A mãe então entrou em contato com o noivo da filha e chegou a ir com a ex-cunhada até o lago. “Fomos até lá, mas ninguém tinha visto Cine. Então o pai dela, o noivo e os outros homens da família começaram a procurar na volta.” O corpo da jovem foi localizado pelas 9h50 da manhã seguinte.

Enquanto aguarda o desfecho da investigação, Eronilda tenta retomar a rotina. Entre algumas costuras e as visitas de amigos e familiares, busca se distrair. “Acho que a ficha não caiu ainda. Tem horas que eu acho que nada disso aconteceu, e de repente começo a lembrar de tudo. Tem horas que o choro vem, e assim a gente vai levando. A Cine era grudada em mim, não tem como um dia eu esquecer o que aconteceu.”

Francine havia voltado a morar com a mãe há dois meses. “Ela estava em uma fase boa da vida, todo mundo gostava muito dela. As crianças adoravam a Cine, vi criança chorando no velório dela”, lamenta. O pai de Eronilda, Osmar, também mora na casa, que hoje exibe na grade uma faixa com a foto de Francine, pedindo o fim da violência contra as mulheres. Naquele domingo, o avô chegou a pedir à neta que não fosse até o lago. 

“Não vou esquecer a imagem dela no chão”, desabafa o pai

Da poltrona onde costuma sentar na sala de casa, na companhia da esposa Lená Ortiz Dalsin, Runer Rocha Ribeiro avista de frente a estante que guarda os porta-retratos com fotos da família. Entre eles estão imagens do aniversário de 24 anos de Francine e da gêmea Franciele, comemorados no último mês de maio. Abraçado nas filhas, Ribeiro aparece sorridente nas fotos, com o mesmo brilho nos olhos que surge sempre que fala das meninas.

Foto: Fernanda Szczecinski/Gazeta do SulLená Ortiz Dalsin e Runer Rocha Ribeiro, o pai de Francine, anseiam por respostas
Lená Ortiz Dalsin e Runer Rocha Ribeiro, o pai de Francine, anseiam por respostas
 

“Elas nunca rodaram na escola. Eu ia buscar o boletim e as professoras sempre diziam que das minhas gurias não tinha o que falar”, lembrou. No último dia 12, Runer comemorou o Dia dos Pais com as filhas, a atual esposa e os genros, em um almoço na casa onde mora em Rincão da Serra, no interior de Vera Cruz. “A gente estava aqui na maior felicidade, as gurias tirando fotos na frente de casa para colocar no Facebook. Eu nunca podia imaginar o que ia acontecer depois”, conta.  

Após o desaparecimento de Francine na tarde de domingo, Ribeiro não descansou até encontrar a filha. Embrenhando-se em meio aos matagais que cercam o Lago Dourado, ele procurou pela jovem durante toda a madrugada. Pela manhã, voltou em casa para comer e tomar um banho, e retomou as buscas. Por volta das 9h50, a cena que ele rezava para não ver se concretizou. Francine foi encontrada morta a 400 metros da pista, próximo à barranca do Rio Pardinho. “Ela apanhou muito, eles judiaram muito dela, coitadinha da Cine. O queixo e o pescoço estavam inchados, roxos. Quem fez aquilo estava com muita raiva. As mãozinhas dela estavam roxas também, acho que ela deve ter tentado se soltar. Eu nunca vou esquecer aquela imagem da minha filha, deitada naquele mato”, relatou.

De férias no emprego que mantém há 24 anos na Prefeitura de Vera Cruz, Ribeiro tem buscado ocupar a cabeça. “É difícil não pensar, a gente recebe visitas, conversa com os amigos e busca novos ares, mas as lembranças sempre voltam”, comentou. O pai acredita que Francine tenha sido escolhida de forma aleatória por algum criminoso, mas se questiona sobre o motivo do crime.
“Por que alguém levaria ela tão longe e a espancaria daquele jeito, para roubar um celular?”, indagou. Ansioso pelo fim das investigações, Ribeiro se questiona se a filha foi estuprada e espera que o laudo de necropsia traga respostas. “Essas coisas ficam martelando a cabeça da gente, eu espero que a polícia tenha algum suspeito e que descubra quem fez isso e por qual motivo”, disse.

Lucas Lima queria ter passado mais tempo com a noiva

Francine e o noivo Lucas Seelig de Lima estavam juntos há seis anos. Ele deixou a jovem no Lago Dourado no dia 12. Eles chegaram a cogitar assistir a uma partida de futebol em Santa Cruz, mas Francine decidiu ir caminhar. Após deixar a noiva, ele foi até um posto de gasolina de Santa Cruz, fez um depósito bancário e retornou para casa, em Ferraz. Na segunda-feira, veria Francine para jantar. Após a morte da noiva, boatos apontando Lima como suspeito do crime passaram a circular. “As pessoas são muito maldosas, falam muita coisa ruim. Que motivo eu teria para fazer isso?”, questionou.

Foto: Fernanda Szczecinski/Gazeta do SulLima: “Nada vai trazer ela de volta”
Lima: “Nada vai trazer ela de volta”
 

Durante pouco mais de um ano, o casal morou junto em Ferraz e trabalhou no mercado da família de Lima. “Estávamos sobrecarregados e conversamos para tentar melhorar, sair mais. Uma relação não nasce pronta, a gente tem que construir.” Após o crime, Lima procurou uma psicóloga. “Ela diz que eu tenho que seguir em frente, mas para onde? Nós tínhamos planos, queríamos ir à praia de novo. Tínhamos um consórcio de uma casa e de carro, e agora eu estou sozinho”, comentou. Lima espera as respostas da polícia para colocar um ponto final na tragédia.

“Mesmo que achem o culpado, nada vai trazer ela de volta, mas nós precisamos disso, porque os pensamentos não dão trégua”, afirmou. Quando olha para trás, Lima diz que queria ter  uma máquina do tempo. Além de evitar ter deixado Francine no lago, ele gostaria de ter aproveitado melhor os dias com a noiva. “Eu estava sempre trabalhando, preocupado com dinheiro. Devia ter saído mais com ela, ido numa festa ou à praia, independente de quanto ia custar. De que adianta o dinheiro agora? Qualquer problema daqui para a frente vai parecer pequeno.”