Respostas da polícia 25/08/2018 02h07 Atualizado às 20h47

Saiba tudo sobre o caso da jovem Francine Ribeiro

Jair Menezes Rosa, de 58 anos, foi preso na manhã dessa sexta-feira, suspeito da morte da jovem

Cercado por boatos e especulações, o crime que chocou Santa Cruz do Sul e região no último dia 13 ganhou na manhã dessa sexta-feira, 24, as respostas que estavam pendentes. Após 12 dias de investigação, a Polícia Civil revelou a identidade do homem suspeito de ter assassinado brutalmente a jovem Francine Rocha Ribeiro, de 24 anos, encontrada morta em meio a um matagal entre o Lago Dourado e o Rio Pardinho.

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Jair Menezes Rosa, de 58 anos, foi visto por caçadores nas proximidades de onde o corpo de Francine foi encontrado no dia 12, no horário aproximado em que a jovem foi morta. A partir dos relatos dessas testemunhas, a polícia chegou até o suspeito, que foi interrogado e teve seu sangue coletado para análise de DNA.

O laboratório forense do Instituto Geral de Perícias (IGP), em Porto Alegre, deu prioridade máxima ao caso e encontrou material biológico de Jair em quatro amostras de sêmen e pelo pubiano retirados do corpo de Francine. Os testes comprovaram que a jovem foi vítima de violência sexual e confirmaram a causa da morte: estrangulamento. A força empregada pelo assassino foi tanta que ossos do pescoço da vítima foram quebrados. Hemorragias internas no abdômen, causadas por um espancamento brutal, também contribuíram para a morte de Francine.

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Jair foi descrito pela polícia como um homem violento e solitário. Nos anos 1980, foi condenado por roubo e acusado de lesão corporal. Atualmente, vivia com a esposa e a filha de 15 anos em uma casa da Rua Ernesto Wermuth, na antiga Praia dos Folgados, Bairro Várzea. A 20 metros da residência do suspeito começam duas trilhas que dão acesso ao Lago Dourado. A polícia acredita que ele tenha usado um dos caminhos para chegar a Francine.

“O sujeito estava no meio do mato e fez uma vítima aleatória. Foi a Francine, mas poderia ter sido qualquer outra mulher”, afirmou a delegada titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) e responsável pela caso, Lisandra de Castro de Carvalho. O delegado regional Luciano Menezes e o delegado titular da Delegacia Especializada em Furtos, Roubos, Entorpecentes e Capturas (Defrec), Marcelo Chiara Teixeira, e suas equipes auxiliaram na investigação.

A prisão preventiva de Jair Menezes da Rosa foi providenciada no fim da tarde da última quinta-feira, 23, logo após a polícia receber a confirmação dos resultados das análises do IGP. Outros três homens que tiveram o DNA submetido aos testes foram excluídos da lista de suspeitos.

Na manhã dessa sexta-feira, Jair foi apresentado na sede da Polícia Civil da Rua Ernesto Alves, no Centro de Santa Cruz. O acusado ainda não havia falado sobre o crime. Enquanto subia as escadas do prédio, disse quatro palavras para uma tia de Francine, que acompanhava a apresentação do preso e cobrava explicações sobre o que o levou a matar a sobrinha dela de forma tão cruel. “Não fui eu, moça”, disse ele. Interrogado novamente no final da manhã, o suspeito ficou em silêncio.

No fim da tarde dessa sexta, Jair foi encaminhado a um presídio da região, cujo nome não foi divulgado pela Polícia Civil por motivo de segurança. Uma análise das roupas que Francine vestia no momento em que foi assassinada foi solicitada pela polícia. A investigação quer descobrir se mais alguém teria participado do crime. 

 

Como Francine foi morta

Na manhã do último dia 12, Francine Rocha Ribeiro acordou ao lado do noivo em Linha Ferraz, interior de Vera Cruz. A cerca de 30 quilômetros dali, na Praia dos Folgados, no Bairro Várzea, em Santa Cruz do Sul, Jair Menezes Rosa começou o dia ao lado da esposa e da filha de 15 anos. Francine e o noivo trabalharam no mercado da família do rapaz e depois seguiram para a casa do pai dela, em Rincão da Serra, também no interior de Vera Cruz. Jair passou a manhã em casa. Ao meio-dia, as duas famílias celebraram o Dia dos Pais.

Enquanto em Rincão da Serra a comemoração foi repleta de alegria, com direito a churrasco, fotos em família e planos para a tarde ensolarada daquele domingo, no Várzea as coisas não se saíram tão bem. Jair discutiu com a filha e a esposa durante o almoço, e foi para o quarto do casal. Ele vestiu calça, casaco e chapéu camuflados, colocou alguns objetos em uma mochila preta e saiu de casa rumo a um matagal que costeia o Rio Pardinho, a 20 metros da residência. Percorrendo as trilhas que ligam a Praia dos Folgados ao Lago Dourado, Jair entrou na mata.

Francine deixou a casa do pai ao lado do noivo pelas 14h30. Eles chegaram a cogitar assistir a uma partida de futebol em Santa Cruz, mas Francine preferiu ir caminhar no Lago Dourado. Antes de ir embora, convidou a irmã para o passeio, mas ela preferiu não ir. O casal seguiu então para a casa da mãe de Francine, no Bairro Bom Jesus, em Vera Cruz, onde a jovem trocou de roupa. Ela vestiu uma calça legging, camiseta e um casaco. A mãe, Eronilda Machado, estava tomando chimarrão com uma vizinha e entrou em casa para fechar uma janela. Francine também a convidou para caminhar, mas Eronilda optou por ficar em casa.

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Por volta das 14h50, o noivo deixou Francine no lago e seguiu para Santa Cruz. Em um posto de gasolina do Centro, ele fez um depósito bancário e depois voltou para casa, em Ferraz. Às 14h55, as câmeras de videomonitoramento do Lago Dourado registraram Francine se alongando no deck de madeira. Ela permaneceu lá por cerca de um minuto e em seguida deu início à caminhada, pelo lado direito da pista. Aproximadamente às 15h10, a jovem postou uma foto nas redes sociais. Pouco tempo depois, já do outro lado do lago, ela parou de caminhar e tirou novas fotos, nas proximidades de uma guarita desativada. Jair, que estava caminhando há algumas horas em meio ao matagal, já teria alcançado as proximidades do lago e estaria escondido, espiando a pista, quando teria visto Francine. Para a Polícia Civil, ele procurava uma vítima.

A jovem foi abordada próximo à fonte de captação de água do lago. A polícia ainda não sabe como o ataque aconteceu, mas acredita que ele poderia ter ameaçado Francine com uma arma ou uma faca, para que ela entrasse na mata. Também não se descarta que ele tenha simplesmente a agarrado à força, já que foi considerado um homem forte pelos policiais. Jair teria levado Francine por dentro do matagal até a barranca do Rio Pardinho, a aproximadamente 370 metros da pista. Lá, ele a teria amarrado pelos braços com tiras de pano, provavelmente cortadas de uma camiseta. Francine foi estuprada, espancada e estrangulada até a morte. Ela também apresentava uma lesão na cabeça.

A polícia ainda não tem certeza sobre a ordem dos fatos, mas acredita que o abuso sexual tenha acontecido primeiro. As agressões teriam começado quando Francine tentou reagir. Ele a teria matado para não ser reconhecido. A jovem foi encontrada morta deitada no chão, com o top desalinhado e a blusa levantada. Estava usando a calça e o tênis, mas a calcinha não foi encontrada, o que indica que o homem pode tê-la despido e recolocado a roupa depois de matá-la. A mãe de Francine contou que viu a jovem se vestindo, e ela teria saído de casa usando a peça. A polícia acredita que Jair teria levado a calcinha para esconder alguma prova do crime. O celular de Francine, o casaco, um óculos, um par de brinco e quatro anéis também desapareceram.

Foto: Lula HelferFrancine Ribeiro (no detalhe) caminhava no Lago Dourado quando foi atacada, segundo a polícia
Francine Ribeiro caminhava no Lago Dourado quando foi atacada, segundo a polícia

 

O laudo de necropsia

A necropsia do corpo de Francine mostrou que ela morreu por asfixia mecânica e pescoço fraturado. A perícia apontou que os ferimentos foram feitos com o uso de um pedaço de tecido. A polícia acredita que a cinta utilizada pela jovem, para tratar um problema na coluna, possa ter sido empregada no estrangulamento. Na região do abdômen, Francine foi espancada e teve hemorragias internas, que contribuíram para a morte. A suspeita é de que as lesões tenham sido feitas com chutes e pontapés. Nos seios, na região do umbigo e na vagina, a perícia encontrou esperma, o que confirmou a hipótese de abuso sexual. Nas coxas também havia pelos pubianos.

 

Novos detalhes sobre o crime

  • Além de ter sido estrangulada e espancada, Francine teve um osso do pescoço quebrado;
  • A jovem foi vista com vida pela última vez pelas 15h30 do dia 12 de agosto;
  • Francine teria parado perto do local onde foi atacada para tirar fotos. As imagens foram encontradas pela polícia no armazenamento virtual do celular dela.

 

O CRIME

1. Francine passou a noite de sábado para domingo na casa do noivo, em Ferraz, no interior de Vera Cruz.

2. No fim da manhã foi, com o noivo, para a casa do pai, em Rincão da Serra. Era Dia dos Pais e a família celebraria a data.

3. Após o almoço, Francine vai até a casa da mãe, no Bairro Bom Jesus, em Vera Cruz, onde troca de roupa para ir caminhar no Lago Dourado.

4. O noivo deixa Francine na entrada do Lago Dourado e segue, de carro, para o Centro de Santa Cruz.

5. Segundo concluiu a polícia, a jovem teria sido surpreendida pelo criminoso no lado oposto ao da entrada do lago, perto do ponto de captação de água. Ela estaria fazendo selfies.

6. Jair Menezes Rosa era morador da Praia dos Folgados, de onde saiu após briga com a família durante o almoço.

7. O crime ocorreu às margens do Rio Pardinho, no mato entre o rio e o Lago Dourado.

 

Como a polícia chegou ao assassino

O corpo de Francine foi encontrado na segunda-feira pela manhã, por volta das 9h50, cerca de 16 horas após o desaparecimento. Ela foi localizada pela família, após buscas durante toda a madrugada no entorno do Lago Dourado. Assim que a polícia foi acionada, a primeira providência foi isolar o local do crime, para garantir que o Instituto Geral de Perícias (IGP) pudesse coletar material genético e biológico para análise.

“Quando o corpo foi encontrado, nós já levantamos a hipótese de que a pessoa que cometeu o crime conhecia a área, porque o local é distante da pista de caminhada, não se chega ali sem um conhecimento. Então nós já tínhamos essa linha de investigação”, contou a delegada Lisandra de Castro de Carvalho. Inicialmente, a polícia acreditava que o crime poderia ter sido cometido por algum dos usuários de drogas que circulam pelos matagais. “Eles teriam interesse nos pertences da vítima, mas a forma como a morte aconteceu, com tamanha violência e brutalidade, e o estupro, não batia com o perfil dessas pessoas”, explicou.

O norte inicial da investigação foi a identificação de duas pessoas que estiveram no local colocando armadilhas para animais no dia em que Francine foi morta. Os dois homens, moradores do Bairro Várzea, contaram à polícia que saíram para caçar ratão nos valões do Lago Dourado durante a tarde daquele domingo. Eles ingressaram pela Praia dos Folgados na trilha que leva até o complexo e foram em direção aos fundos do lago. No meio do caminho, separaram-se e um deles foi procurar por uma ratoeira que tinha se perdido em outra ocasião. Eles combinaram de se encontrar perto do lago, onde costumam acampar.

O homem que chegou primeiro ao acampamento, pelas 17h30, avistou um indivíduo vestindo roupas camufladas na saída de uma trilha, que leva ao ponto onde o corpo foi encontrado. Ele estava espiando a pista. O caçador o conhecia – seria Jair Menezes Rosa –, pois os dois eram vizinhos. Quando o amigo chegou ao acampamento, o primeiro comentou que viu Jair e o outro olhou para o final da trilha, avistando-o também. Um deles chegou a chamar por Jair, que saiu caminhando apressado. À polícia, as testemunhas contaram que ele aparentava estar nervoso e com pressa para deixar o local.

Na sexta-feira da semana passada, a polícia foi até a casa de Jair pela primeira vez. Ele recebeu os policiais com receio e negou que estivesse no mato naquele domingo. Levado à delegacia para depor, foi reconhecido pelos dois homens que o viram no mato. Tanto Jair quanto as duas testemunhas tiveram DNA coletado para análise. Em uma segunda versão da história, Jair contou que teria caminhado pelo mato, mas apenas nas proximidades de casa. Na última segunda-feira, a polícia fez buscas na casa dele e achou uma mochila com pedaços de panos semelhantes aos que foram encontrados no pulso de Francine. Diante das evidências, faltava cruzar o DNA de Jair com o material genético encontrado no corpo da vítima para comprovar que ele seria o assassino.

Além de Jair, a polícia tinha um outro suspeito forte: Cristiano dos Santos. “Ele estava foragido do presídio poucos dias antes do crime e foi autor de um estupro no Bairro Várzea no passado. Tudo nos levava a crer que poderia ser ele”, revelou o delegado Luciano Menezes. Na quinta-feira, a Defrec recapturou Cristiano. Ele prestou depoimentos e teve material biológico colhido. Após ser ouvido, foi encaminhado ao Presídio Regional de Santa Cruz do Sul. Uma foto vazada do sistema da Susepe chegou a circular nas redes sociais, apontando Cristiano como autor do crime. Como não havia provas contra ele, o boato foi desmentido.

O material genético dos quatro suspeitos foi enviado às pressas para Porto Alegre na segunda-feira. Na Capital, o laboratório genético forense do Instituto Geral de Perícias (IGP) deu prioridade máxima ao caso, e os resultados conclusivos chegaram nessa quinta-feira. Embora o passado de Cristiano o colocasse como o culpado mais provável, o resultado surpreendeu a polícia. As amostras revelavam que o esperma e os pelos pubianos encontrados no corpo de Francine não eram de Cristiano dos Santos e nem das duas testemunhas: eram de Jair.

Segundo a delegada, não foi necessário colher DNA do noivo ou de qualquer outra pessoa do convívio íntimo de Francine para análise, pois em nenhum momento essas pessoas foram consideradas suspeitas. Nos próximos dias, novas análises das roupas de Francine devem ser realizadas. Com os exames, a Polícia Civil quer descobrir se houve mais algum envolvido no assassinato da jovem. O inquérito deve ser concluído dentro de dez dias.

 

As provas

Duas testemunhas informaram ter visto Jair Menezes Rosa na saída da trilha do matagal que contorna o Lago Dourado.

As mesmas testemunhas reconheceram Jair na delegacia.

Na casa do suspeito, a Polícia Civil encontrou uma mochila preta, parecida com a que testemunhas viram com Jair, onde havia tiras de tecido semelhantes às que foram encontradas no pulso de Francine Ribeiro.

O material biológico coletado do esperma encontrado no seio, na região do umbigo e da vagina de Francine, e o material genético colhido de um pelo pubiano encontrado na coxa da vítima, foram 100% compatíveis com o DNA de Jair.

O DNA dos outros três suspeitos não era compatível com o material coletado no corpo da vítima.

Foto: Bruno Pedry

 

A prisão

Um forte trovão, acompanhado das primeiras pancadas da chuva que se estendeu durante toda essa sexta-feira, marcou a chegada de Jair Menezes Rosa à sede da Polícia Civil, na Rua Ernesto Alves, no Centro de Santa Cruz, por volta das 10 horas da manhã. Diante dos veículos de imprensa, ele foi apresentado como o assassino de Francine. Uma tia da vítima acompanhou o momento em que o suspeito desceu do camburão e entrou no complexo. “Levanta teu rosto. Mostra teu rosto pra mim e diz por que tu fez isso com ela”, gritou ao homem. Em resposta, Jair respondeu baixinho: “Não fui eu, moça”. O pai de Francine acompanhou tudo pelo telefone.

Em entrevista coletiva, a delegada Lisandra de Castro de Carvalho e o delegado Luciano Menezes, ao lado dos demais agentes que atuaram no caso, deram detalhes sobre a investigação. Jair foi preso preventivamente já no final da tarde dessa quinta. Ele estava parado na porta de casa, na Rua Ernesto Wermuth, na Praia dos Folgados, quando os policiais chegaram em viaturas discretas (sem emblemas). Ele não resistiu à prisão. Após capturá-lo, os policiais o levaram até o Lago Dourado, esperando que ele pudesse dar detalhes do crime. No entanto, ele nega ter matado Francine.

Interrogado pela polícia, Jair optou por ficar em silêncio. Após a entrevista coletiva, uma nova tentativa de inquiri-lo foi feita, mas novamente ele não se manifestou. No meio da tarde, Jair foi encaminhado para um presídio da região, cujo nome não foi divulgado por questões de segurança. “A prisão dele não traz a vítima de volta, mas pelo menos vai dar um pouco de conforto para a família, amigos e comunidade”, afirmou o delegado regional, Luciano Menezes.

O delegado disse ainda que a comunidade não deve deixar de aproveitar a estrutura do Lago Dourado e espera que a Prefeitura providencie mais segurança para que isso seja possível. “O que aconteceu foi um caso totalmente isolado. A segurança tem que melhorar muito, mas as pessoas não precisam deixar de aproveitar as belezas da natureza que existe por lá.”

 

Quem trabalhou no caso

A investigação sobre a morte de Francine foi comandada pela delegada Lisandra de Castro de Carvalho, titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), com apoio do delegado regional Luciano Menezes e do delegado Marcelo Chiara Teixeira, da Delegacia Especializada em Furtos, Roubos, Entorpecentes e Capturas (Defrec). Agentes das três delegacias trabalharam incansavelmente desde o dia em que Francine foi encontrada, checando denúncias anônimas, colhendo depoimentos, recapturando foragidos e buscando provas.

A Delegacia de Polícia de Vera Cruz e a 1ª e 2ª DPs de Santa Cruz também colaboraram. Já em Porto Alegre, a agilidade do laboratório genético forense do Instituto Geral de Perícias (IGP), que priorizou esse caso, foi fundamental para que os policiais civis chegassem ao assassino.

Foto: Bruno Pedry

 

Foto: Bruno Pedry

 

O suspeito

À primeira vista, Jair Menezes Rosa, de 58 anos, parece um homem comum. De estatura média, cabelos curtos e óculos de grau, ele não retrata a imagem de um assassino brutal. A forma como ele vivia e se relacionava com a família, contudo, mostram o contrário. “Ele é um indivíduo solitário, não se dá com ninguém, nem com a filha”, contou o delegado regional Luciano Menezes.

Segundo a polícia, Jair é aposentado e passava os dias em casa, perambulando pelo pátio e matagais próximos, e às vezes pescando no Rio Pardinho. Dormia e acordava cedo todos os dias, e não tinha o hábito de passar algum tempo com a família, assistindo televisão, por exemplo. Não conversava com os vizinhos e também não tinha amigos. Dentro de casa, Jair seria um homem controlador, violento e possessivo, que mantinha a esposa e a filha de 15 anos em uma espécie de cárcere privado. A própria esposa dele disse à polícia que, embora abalada, não estava surpresa com o fato, pois sempre esperou que um dia ele fosse “explodir”.

Jair tem ainda uma outra filha, que não se relaciona com ele, e uma enteada que teria deixado a família na adolescência devido ao mau relacionamento com o acusado. Em 1984, Jair foi condenado e chegou a cumprir pena por roubo. Também foi acusado três vezes por lesão corporal, em 1982, 1983 e 1986. Um processo de interdição contra ele, de 2014, consta no site do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Na casa do suspeito, a polícia encontrou uma coleção de machados e facões, além de halteres usados para treinar a musculatura.

Na primeira vez que falou com a polícia, Jair mentiu que não esteve no matagal próximo ao lago no domingo em que Francine foi morta, pois seria diabético e não poderia fazer esforço caminhando muito longe. A polícia descobriu que ele estava mentindo quando viu os halteres. Mais tarde, Jair deu uma nova versão sobre os fatos, contando que teria apenas dado uma volta nas imediações da mata. Embora não tenha falado oficialmente com a polícia, em versões extra-oficiais ele contou histórias distintas e se contradisse em diferentes momentos.

Foto: Fernanda Szczecinski/Gazeta do Sul

 

A onda de boataria

No dia em que o corpo de Francine foi encontrado, começaram a surgir as primeiras fake news – as notícias falsas – sobre o possível autor do assassinato. Entre rodas de conversas e pelas redes sociais, o noivo da vítima se tornou o primeiro acusado. No entanto, ele tinha um álibi robusto e nunca foi considerado suspeito. “A vítima decidiu ir para o Lago Dourado de última hora. Como o noivo poderia ter planejado algo? Execuções não são encomendadas por telefone a qualquer hora e, via de regra, são feitas com arma de fogo”, comentou a delegada Lisandra de Castro de Carvalho.

Na quinta-feira da semana passada, quando a polícia prendeu Cristiano dos Santos, foragido e suspeito do crime, uma foto dele, vazada por um agente da Susepe, começou a circular em grupos de WhatsApp. Embora a polícia houvesse de fato recapturado Cristiano com a intenção de interrogá-lo sobre a morte de Francine, não havia nenhuma prova contra ele. De acordo com o delegado regional Luciano Menezes, a boataria fez com que Cristiano fosse espancado por uma facção dentro do presídio.

Nessa quinta-feira, um novo rumor surgiu. Dessa vez, uma mensagem compartilhada por WhatsApp apontava o empresário Israel Rech, de 37 anos, como o assassino. Assustado com a proporção que o boato tomou, a família de Rech procurou orientação da Polícia Civil, que recomendou que ele não saísse de casa. Após a divulgação do verdadeiro culpado, Israel e o pai, Jorge Rech, procuraram a Rádio Gazeta para dar uma declaração na manhã dessa sexta-feira. Abalado diante da situação, Israel passou mal e teve de ser socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Jorge falou na rádio.

“A gente tem que evitar falar muitas coisas, até porque daqui a pouco tu estás distorcendo, que foi o que aconteceu. Chegaram a falar que ele tinha engravidado [a Francine], por isso que matou. Cheio de detalhes, não sei como conseguem ter tanta imaginação. A coisa tomou uma proporção que eu nem sei o que dizer”, contou. Compromissos profissionais dos familiares chegaram a ser desmarcados nessa sexta-feira em razão do caso. “Já estavam passando carros devagar na frente da nossa loja, não houve uma ameaça explícita, mas tu te ‘sente’ acuado, sente ameaçado”, contou.

Emocionado, o pai afirmou ainda que a família irá tomar todas as medidas legais cabíveis sobre o boato espalhado e compartilhado em todo o município. “Jogaram aquilo no ventilador, nós vamos colocar velocidade máxima. Alguém é culpado, alguém começou. Não vamos parar antes que seja descoberto quem fez essa maldade. Não é uma pessoa que está sendo lesada, é uma família inteira.”

Durante a entrevista coletiva na manhã dessa sexta, o delegado regional Luciano Menezes, comentando a respeito das fake news, afirmou que “o mundo está perdido”. “É lamentável que as pessoas tenham fomentado tanta mentira, besteira e desinformação”, salientou. A delegada Lisandra acrescentou que os boatos atrapalharam o trabalho da Polícia Civil. “Esse tipo de informação falsa cria uma pressão muito grande em cima da polícia, para que a gente desminta ou prenda quem estão achando que é culpado. A polícia trabalha com técnica e investigação, não podemos checar todos os boatos e fantasias que existem. Precisamos percorrer um caminho lógico. O crime tem um caminho lógico”, destacou.

 

Confira a prisão do suspeito