Crime 11/10/2018 00h23 Atualizado às 09h37

O passo-a-passo do assassinato de taxista em Santa Cruz

Capturados pela Polícia Civil, autores do assalto que terminou na morte de Luciano Kappel disseram que precisavam de dinheiro

Na noite da última sexta-feira, Welerson da Silva, de 20 anos, e Gerson Carvalho dos Santos, de 27, saíram de casa com a intenção de cometer um assalto. Eles precisavam de dinheiro, e Silva achou que um taxista seria um alvo fácil. Depois de algumas tentativas frustradas, a dupla, acompanhada da mulher de Silva e da ex-companheira de Santos, entrou no táxi de Luciano Kappel, de 57 anos, que acabou sendo morto. Na tarde de ontem, quatro dias após o assassinato, os criminosos foram capturados pela Polícia Civil de Santa Cruz do Sul.

A investigação teve início ainda na madrugada de sábado, sob o comando do delegado Marcelo Chiara Teixeira, titular da Delegacia Especializada em Furtos, Roubos, Entorpecentes, e Capturas (Defrec). A partir das imagens captadas por câmeras de segurança nas imediações do local onde o grupo ingressou no táxi, próximo ao cruzamento das ruas Senador Pinheiro Machado e Ernesto Alves, os policiais conseguiram identificar um dos suspeitos e chegar até a casa dos criminosos. Os quatro envolvidos moravam juntos em um chalé de fundos na Avenida Gaspar Bartholomay, no Bairro Schulz. Foi de lá que eles partiram para o Centro, a pé, para cometer o crime.

“Através das imagens e dos relatos de outros taxistas, nós conseguimos identificar os criminosos e, nessa segunda-feira, cumprimos um mandado de busca e apreensão na casa onde eles estavam morando”, contou Teixeira. Quando a polícia chegou, encontrou os dois suspeitos em casa. Ambos logo confessaram o crime. Foi Silva quem desferiu o golpe fatal no pescoço de Kappel, com uma faca de serra. O laudo apontando a causa da morte do taxista chegou às mãos da Defrec nessa terça-feira, e o mandado de prisão dos criminosos foi expedido ontem. A dupla foi capturada em casa por volta das 15h30 dessa quarta-feira e não resistiu à prisão.

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“O que é mais impressionante nesse caso é a banalidade com que a morte é tratada. Eles precisavam de dinheiro e mataram um homem por um motivo fútil, como se isso fosse uma coisa totalmente normal”, comentou o delegado regional Luciano Menezes. Silva e Santos vão responder por latrocínio – roubo seguido de morte. Eles foram encaminhados ao Presídio Regional de Santa Cruz do Sul, onde devem aguardar o julgamento recolhidos.

O passo-a-passo do crime

O mentor

Conforme os relatos dos assaltantes à Polícia Civil, Welerson Silva foi o mentor do crime. No início da noite de sexta-feira, ele convidou o amigo Gerson Carvalho dos Santos para cometer um roubo, pois estavam precisando de dinheiro. Os dois moravam em um mesmo chalé, junto com a companheira de Silva e com a ex-mulher de Santos, com quem ele tem um filho de 3 anos, além de outros familiares de Silva. Um dos argumentos de Welerson ao convidar o amigo foi usar o dinheiro roubado para levar o menino na Oktoberfest.

A primeira tentativa

Por volta das 23h30, Silva chamou um táxi para buscá-los em casa. O motorista seria a vítima. No entanto, quando o carro chegou, Silva percebeu que se tratava de um taxista conhecido, que poderia identificá-lo, e disse a ele que não precisava mais da corrida. O grupo, formado pelos dois assaltantes e as mulheres – junto também de dois cães –, seguiu então a pé até a praça do Senai, onde permaneceu até por volta das 2h30 de sábado. De lá, eles seguiram para a esquina das ruas Fernando Abott e Tenente Coronel Brito, onde um segundo táxi foi acionado. Após a ligação, contudo, Silva desistiu do assalto e o grupo seguiu à Rua Ernesto Alves. Na Ernesto eles permaneceram por cerca de 15 minutos nas proximidades do Fórum, e então, deslocaram-se para a Rua Senador Pinheiro Machado.

A corrida

A chamada que acionou o taxista Luciano Kappel foi feita na Senador, em uma parada de ônibus em frente a uma agropecuária. Quando já haviam telefonado, Silva se deu conta de que havia uma câmera por perto e eles retornaram à Ernesto Alves. O taxista foi avisado e se dirigiu ao local, onde o grupo entrou no veículo. Santos sentou no banco da frente e Silva no banco traseiro, atrás do motorista. Sua companheira e a outra mulher sentaram ao seu lado. O táxi dobrou na Rua Capitão Fernando Tatsch e seguiu pela Assis Brasil até a Avenida Independência, rumo a um endereço falso em Rio Pardinho – que foi mencionado como sendo da mãe de Silva. Após o carro atravessar a RSC-287, rumo à localidade, Silva disse que a mãe na verdade morava na 287, e o motorista foi orientado a fazer o retorno.

As facadas

Próximo ao trevo do Gaúcho Diesel, Kappel pediu aos passageiros o telefone da mãe de Silva, para confirmar o endereço. Silva passou um número falso e, enquanto o taxista tentava fazer a ligação, ele anunciou o assalto. Do banco de trás, ele golpeou Kappel no lado esquerdo do pescoço e quando a vítima reagiu, uma segunda facada foi desferida. Nesse momento, a ex-companheira de Santos saiu correndo do carro, em direção à BR-471. O taxista gritava e tentava reagir quando Gerson, no banco da frente, resolveu atacá-lo, também com uma faca. Kappel teria segurado a mão do assaltante, que acabou o atingindo no braço. Com esse golpe, a vítima soltou a mão de Santos e o criminoso lhe desferiu mais uma facada na cabeça. O laudo de necropsia aponta que ele sofreu ferimentos no lábio, na testa, no braço, barriga e pescoço. Os cortes no pescoço provocaram a hemorragia que o levou à morte.

A vítima implora pela vida

Segundo o relato dos próprios assassinos, enquanto estava sendo atacado, o taxista implorou pela vida: “Para, por favor. Eu dou a carteira para vocês”. A dupla fugiu em seguida, e Kappel ficou dentro do carro. Ele acionou a Radiotáxi, mas não conseguiu falar. O radiocomunicador do carro estava coberto de sangue quando os colegas o encontraram. Os criminosos seguiram em fuga a pé pela BR-471, onde encontraram a mulher que havia fugido do carro. A faca usada por Santos e a mochila de Silva, contendo o celular usado para fazer as chamadas e os documentos de sua companheira, foram jogados em um matagal próximo à cena do crime. Nessa segunda-feira, Santos se ofereceu para mostrar o lugar à polícia e os objetos foram encontrados.

A volta

Os criminosos voltaram para casa passando pelo meio dos bairros, para não serem vistos. Eles chegaram por volta das 5h30, quando Silva queimou a camiseta que usava, pois estava manchada de sangue. A faca de serra usada para matar Kappel ficou no banco do carona e também foi apreendida pela Defrec. Os três celulares da vítima ficaram no carro. A carteira do taxista também estava no veículo e continha R$ 4,00. A dupla disse à polícia que não roubou nada pois a situação fugiu do controle. Conforme o depoimento de Santos aos policiais, as duas mulheres não sabiam da intenção de cometer o assalto.

Foto: DivulgaçãoKappel, 57 anos, foi vítima de latrocínio
Kappel, 57 anos, foi vítima de latrocínio

 

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