Homicídios 04/01/2019 23h13 Atualizado às 11h55

Um dossiê dos crimes que apavoraram Santa Cruz em 2018

Tráfico motivou a maioria dos assassinatos no ano passado

Apesar de ter iniciado com calmaria – no primeiro trimestre foram registrados três homicídios –, 2018 chegou ao fim com uma média de mortes violentas semelhante à do ano anterior, quando 32 pessoas foram assassinadas em Santa Cruz do Sul. Ao todo foram 30 homicídios no ano passado, 23 deles no segundo semestre. Embora 19 casos ainda estejam em aberto, elementos apontam a venda de drogas como o principal motivador das mortes: 76% delas têm relação comprovada ou em investigação com o tráfico. 

Além de dívidas e disputas por espaço, algumas mortes seriam motivadas por desrespeito a um  “código de conduta” estipulado por facções, que proíbe, por exemplo, roubos dentro das comunidades. Entre os 11 casos que já tiveram desfecho está o assassinato brutal da jovem Francine Rocha Ribeiro. A investigação, que começou com poucos elementos e cercada de especulações, levou à prisão do autor apenas 12 dias após o crime.

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Casos solucionados

Elias Rodrigues da Cruz, 35 anos. Foi morto a tiros no dia 30 de janeiro, na Rua Professor Léo Winterle, no Bairro Santa Vitória. Três pessoas foram indiciadas pelo crime e presas preventivamente em 16 de fevereiro, durante a Operação Boa Esperança.

Rangel de Freitas da Rosa, 17 anos. Morreu no dia 16 de março, supostamente brincando de roleta-russa. Mais tarde, a perícia mostrou que o tiro atingiu a cabeça da vítima por trás, de um ângulo em que ele estaria sentado e o atirador de pé. Um adolescente de 17 anos foi apontado como autor do disparo. Um homem de 23 anos estava junto no momento do crime e foi indiciado por fraude processual e omissão de socorro.  O inquérito do adulto e o procedimento do menor foram encaminhados ao Ministério Público, responsável por remetê-los à Justiça.

Thiago Henrique Henn, 20 anos. Foi atingido por um disparo na Avenida Rudi Falk, na entrada do Parque de Eventos, na madrugada de 1º de abril. Um adolescente de 17 anos foi apontado como o responsável.  Segundo ele, a vítima teria lhe dado um soco no rosto. No entanto, o relato de testemunhas que viram a cena afastou essa possibilidade. Um procedimento foi instaurado e encaminhado ao Ministério Público.
Jéssica Aline Junkherr Pinheiro, 27 anos.  Foi assassinada pelo ex-companheiro, José Alberi Ramos, de 39 anos, no Cemitério Parque Guarda de Deus, no Bairro Santuário. Após matar a mulher com dois tiros no rosto, ele se enforcou em uma árvore. O corpo de Jéssica foi encontrado no banco do caroneiro de uma Meriva preta, estacionada no portão de acesso do cemitério. Os cadáveres foram encontrados na manhã de 28 de julho.

Francine Rocha Ribeiro, 24 anos. Encontrada em um matagal nas proximidades do Lago Dourado,  a jovem foi amarrada, estuprada, espancada e estrangulada até a morte no dia 12 de agosto. O caso comoveu a região e foi cercado por boatos e especulações, incluindo notícias falsas envolvendo um empresário santa-cruzense, que resultaram no indiciamento de oito pessoas pelo crime de calúnia.  Após 12 dias de investigação, a Polícia Civil prendeu Jair Menezes Rosa, de 58 anos, como autor do homicídio. Exames de DNA encontraram material genético dele em três amostras retiradas do corpo da vítima. Jair está preso preventivamente e irá passar por exames psiquiátricos em 5 de junho, que devem apurar se ele sofre de alguma doença mental. O resultado do exame definirá se ele vai a júri ou será encaminhado para o Instituto Psiquiátrico Forense.

Valdemar de Camargo, 37 anos, e Denian Marcel de Oliveira, de 19 anos. Valdemar morreu após ser baleado na tarde de 13 de agosto na Rua João Francisco Rauber, no Bairro Santa Vitória. Denian, por sua vez, foi asassinado a tiros na noite de 27 de agosto, na Rua Irmão Emílio, no Bairro Várzea. Embora os casos não tenham relação direta entre si, os suspeitos de cometer os homicídios são os mesmos. Deivid dos Santos, de 27 anos, João Carlos Godoy, 36, e Anderson dos Santos Ramos, de 22 anos, foram presos preventivamente  no dia 14 de setembro. A mesma ação apontou Marcelo do Carmo como suspeito de ser o mandante dos homicídios. Ele já se encontra preso na Penitenciária Modulada Estadual de Charqueadas. Marcelinho também teria relação com a morte de Thiago Maciel de Borba.

Thiago Maciel de Borba, de 32 anos. Alvejado em via pública no Bairro Dona Carlota em 10 de setembro, quando chegava em casa de moto com a filha de seis anos pela Rua São Marcos, no Loteamento Beckenkamp. O autor dos disparos estava em um carro com outros homens. No dia 25 do mesmo mês, um adolescente de 17 anos foi apreendido em casa, no Bairro Santa Vitória, suspeito de estar envolvido na morte. Outras quatro pessoas foram indiciadas.

Leonardo Cassiano Lopes da Silva, 23 anos. Morreu atingido por disparos na madrugada de 8 de setembro, em um bar na Rua João Werlang, no Bairro Belvedere. Dois homens teriam chegado em um carro ao estabelecimento onde a vítima jogava bilhar com familiares. Um deles teria descido e disparado quatro a cinco vezes contra a vítima. O inquérito já foi remetido ao Judiciário, com indiciamentos.

Luciano Kappel, 57 anos. Taxista,  morreu vítima de um latrocínio na madrugada de 6 de outubro. Dois casais embarcaram no veículo de Kappel no Centro e pediram para ir até Rio Pardinho. Próximo ao trevo do Gaúcho Diesel, na RSC-287, eles atacaram o motorista com diversas facadas e fugiram sem levar nada. A investigação levou à prisão de Gerson Carvalho dos Santos, 27 anos, e Welerson da Silva, de 20, no dia 10 de outubro.

Cleber Tevair Correa, 14 anos. Cleber e mais dois amigos estavam na casa de um deles, no Bairro Pedreira,  em 10 de outubro, quando o morador da residência, de 16 anos, manuseava uma pistola que ele acreditava estar sem munição e acabou disparando contra o amigo. Ele vai responder por ato infracional.

 

OS CASOS EM ABERTO

Rangel Eduardo Nunes, 21 anos. Foi encontrado com perfurações na cabeça na tarde de 16 de fevereiro na Rua Tarumã, Bairro Monte Verde.

Théo Menezes, 19 anos. A Brigada Militar e a Polícia Civil foram chamadas por volta das 6h50 de 5 de abril na Rua Sobradinho, no Bairro Faxinal Menino Deus. O jovem foi encontrado sem vida, atingido por um tiro na cabeça e outro nas costas.

Tharles Rutiel da Rosa Alves, 24 anos. Foi encontrado caído na Rua Alfazema, no Residencial Viver Bem, na madrugada de 10 de junho. Moradores acionaram a Brigada Militar depois de ouvir disparos. O rapaz foi encontrado com tiros na cabeça e nas costas.

André Lucas Rodrigues de Carvalho, 20 anos. Foi morto a tiros na noite de 20 de junho. O homicídio aconteceu na Rua Luiza Geiss, esquina com a Rua Irmão Wilibaldo, no Bairro Margarida. Moradores relataram ter ouvido barulhos de disparos após uma moto ter passado.

Everton Rodrigues Brito, 17 anos. Foi encontrado morto com marcas de tiros em um matagal na Rua Três, no Bairro Progresso, em 7 de julho.

Sérgio Jovane da Silva Soares, 19 anos. Seu corpo foi localizado às margens da BR-471, na localidade de Capão da Cruz, na noite de 12 de julho. Foi atingido por pelo menos dois tiros.  

Paulo César Lopes, de 29 anos. Morto com tiros no rosto e no tórax em 31 de agosto, na esquina das ruas Madrid e Dom Pedro, no Bairro Bom Jesus. Sobre o corpo havia um bilhete com a frase: “Roubou na comunidade, acabou o carinho”. No local, a polícia também encontrou cápsulas de pistola 9 milímetros.

Hilario da Rosa, de 33 anos. Executado com três tiros no abdômen na noite de 31 de agosto, na Rua Gustavo Doss, no Bairro Santa Vitória.

Marcelo de Paula, 28 anos, e Paulo Fernando Kochenborger, 37 anos. Morreram em um tiroteio na Avenida Rudi Falk,  próximo ao Parque de Eventos.  O motivo do tiroteio, na noite de 7 de setembro, teria sido uma confusão generalizada.

Gerson da Rosa, 40 anos. Assassinado a tiros na tarde de 10 de setembro, na Rua Fortaleza, no Bairro Schulz. Dois indivíduos passavam em uma motocicleta quando um deles desceu do veículo e efetuou os disparos contra a vítima

Fabiano Rosa, 30 anos. Estava caminhando na Rua Cachoeira, no Bairro Castelo Branco, quando foi atingido por pelo menos seis tiros na noite de 10 de outubro.

Ismael Silva, 30 anos. Morto a tiros na Rua Euclydes Kliemann, no Bairro Progresso, na noite de 18 de outubro. Os dois autores do crime estavam em uma motocicleta.

Eduardo Fernando Klinger, 43 anos. Foi atingido por quatro disparos na cabeça quando estava no interior do mercado Vila Verona, do qual era proprietário, na Rua Arnoldo Henrique Zimmer, no Bairro Santo Antônio. O crime aconteceu em 19 de outubro.

Eduardo Carvalho de Oliveira, 29 anos. Baleado na madrugada de 21 de outubro, na Rua Madrid, Bairro Bom Jesus. Morreu no hospital dois dias depois, em decorrência dos ferimentos.

Odair José Vargas, de 42 anos. Teria saído para pescar com um amigo no dia 28 de outubro e foi encontrado morto em um açude sete dias depois, no interior de Rio Pardinho. Tratado inicialmente como afogamento, o caso está sendo investigado como homicídio.

Leonardo Alves Maciel, 28 anos. Encontrado morto com perfurações de arma de fogo na cabeça, no Corredor Morsch, no Bairro Dona Carlota, na manhã de 22 de novembro.

Charles Roberto Farias da Silva, 20 anos. Assassinado com diversos tiros na noite de 22 de novembro, na Rua Adolfo Pritsch, no Bairro Bom Jesus.

André Leopoldo Staub, 35 anos. Levou uma facada no dia 5 de dezembro e foi encontrado sem vida na Rua da Pedreira, um dia depois. A morte teria acontecido em decorrência do ferimento.

Como estão as investigações

De acordo com a delegada Ana Luísa Aita Pippi, titular da 1ª Delegacia de Polícia, os casos em aberto estão em estágio avançado e dependem de elementos como laudos periciais para sua conclusão. Um deles deve ser finalizado ainda em janeiro. Na 2ª DP, comandada pelo delegado Alessander Garcia, as investigações também avançam. Responsável pela Zona Sul do município, a delegacia investiga 19 dos 30 casos de 2018.

Em 21 de dezembro, uma operação da 2º DP contra o tráfico de drogas prendeu três pessoas, apreendeu um adolescente e notificou três apenados em Santa Cruz, Rio Pardo e Vera Cruz. O chefe do bando, Jeferson Juliano Vedoi, de 38 anos, liderava a quadrilha de dentro do Presídio Regional de Santa Cruz. As armas apreendidas na ação devem ajudar na investigação de homicídios cometidos em Santa Cruz e Rio Pardo. A expectativa é  descobrir se o grupo seria responsável pela morte de Tassiano Ezequiel do Amaral, de 28 anos, encontrado sem vida às margens da BR-471, e de Fabiano da Rosa, 38 anos, morto a tiros no Bairro Castelo Branco.

Em 13 de dezembro, a investigação de um homicídio levou a Polícia Civil até a residência de João Veríssimo Pereira, de 42 anos, na Avenida Euclydes Kliemann, Bairro Progresso. João Grandão, como é conhecido, é suspeito de ser o mandante de uma das mortes violentas do segundo semestre. Durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão, que tinha como objetivo localizar a arma usada no crime, os policiais acharam cerca de 750 gramas de entorpecentes. Grandão e um jovem de 24 anos foram presos por tráfico de drogas.

A delegacia também já tem elementos sobre as mortes de Charles Roberto Farias da Silva, Eduardo Carvalho de Oliveira e Leonardo Alves Maciel, e investiga uma possível conexão entre os casos. A motivação e autoria estão sendo averiguadas. Eduardo seria o único cuja possível relação com o tráfico de drogas ainda não foi esclarecida. Charles, por sua vez, tinha vinculação com o narcotráfico durante a adolescência. Já Leonardo seria usuário de drogas e tinha antecedentes por ameaças e lesão corporal.

Números

  • 30 pessoas foram assassinadas em Santa Cruz em 2018
  • O número ficou abaixo de 2017, que registrou 32 homicídios
  • O ano foi o quarto com mais mortes na última década
  • Outubro foi o mês mais violento, com 7 assassinatos
  • 11 casos  já foram solucionados
  • 19 vítimas  tinham menos de 30 anos
  • 3 eram menores de 18 anos
  • 76% dos casos estavam relacionados ao tráfico de entorpecentes
  • 2 foram feminicídios
     

Houve ainda

  • 18 tentativas de homicídio

 

Outros casos

Charles Juliano Lemos, 39 anos.

Foi encontrado sem vida no dia 8 de junho, na Rua Coronel Oscar Jost com a Avenida João Pessoa, próximo ao Parque da Oktoberfest. A polícia chegou a cogitar a possibilidade de Lemos ter sido assassinado, mas imagens de câmeras de segurança instaladas em via pública  mostraram que ele sofreu diversas quedas  ao longo do trajeto feito naquela noite – o que acabou resultando  em um ferimento fatal na cabeça. Um laudo pericial é aguardado para confirmar se ele estava sob efeito de bebida alcoólica ou drogas.

Sílvio Siqueira Seigert, 29 anos.

Desconhecido no meio policial até então, foi morto por um comerciante durante uma tentativa de assalto a uma ótica na Rua Ramiro Barcelos, no Centro. Outros dois assaltantes participaram do crime, ocorrido no dia 20 de junho. O caso está sendo investigado como roubo, e a expectativa da 1ª DP é concluir o inquérito ainda neste mês. O disparo que matou Seigert, efetuado pelo empresário dono joalheria, deve ser considerado um ato de legítima defesa.