Violência 12/03/2019 23h49 Atualizado às 07h10

O relato da mãe que perdeu dois filhos em Santa Cruz

As mortes de Kevi e Denian de Oliveira ocorreram em um intervalo de sete meses, ambas em frente à casa onde moravam

No antebraço esquerdo, marcado com tinta preta, a diarista Marlene Schulz, de 49 anos, carrega o desenho de um rosário e o nome de um dos sete filhos que criou sozinha em um chalé de fundos no Bairro Várzea, em Santa Cruz do Sul. Denian Marcel de Oliveira, de 19 anos, foi homenageado em uma tatuagem, na pele da mãe, após ter sido executado na noite de 27 de agosto do ano passado. A mesma dor daquela segunda-feira voltou a assombrar a família no último dia 4, quando Marlene perdeu mais um de seus filhos. Kevi Luan de Oliveira, que completaria 21 anos no mês que vem, foi morto de forma semelhante ao irmão: alvejado por disparos em frente à própria casa.

“Foi um barulho estranho, pareciam foguetinhos. Perguntei para o Alan, meu pequeno: ‘Isso não foi tiro, né?’ Mas quando chegamos na frente de casa, o Kevi já estava morto”, contou. O jovem, que estava sentado em uma cadeira de praia e vestia bermuda, boné e chinelos, foi alvejado por disparos de pistola 380. “Eles sempre ficavam pela frente da casa, viam os amigos e ficavam bebendo, olhando o movimento do salão de bailes. O Kevi tomava chimarrão com o tio dele, que mora na casa da frente. Agora não tem mais clima para nada.”

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Além de Kevi e Denian, que ainda viviam com a mãe, Alan, 15, e Robson, 17, também moram com ela. A morte dos irmãos vem à tona constantemente, nos detalhes da rotina. “Tudo muda. Antes eram cinco pratos na mesa, hoje são só três. Na hora de tomar banho também, não tem mais aquela coisa: ‘Fulano, vai lá que é a tua vez’. Eu olho para o portão e lembro de pedir para eles entrarem para dormir e eles retrucarem: ‘Só vou ficar mais um pouco mãe, não tô na rua, tô em casa’.”

Marlene, que sustenta a casa com faxinas, retomou o trabalho nessa segunda-feira. “Eu sempre tive patrões muito bons, tem casa em que eu trabalho há 26 anos. Isso que dói. Eu criei meus filhos sozinha esse tempo todo e aí, em meio ano, me levaram dois. Eles eram foram de série.”

Sigilo
Procurada pela reportagem da Gazeta do Sul na tarde dessa segunda-feira, a delegada Ana Luísa Aita Pippi, titular da 1ª Delegacia de Polícia e responsável pelo caso, afirmou que sua equipe segue trabalhando na elucidação do assassinato de Kevi. Porém, ela irá manter sigilo sobre o andamento das investigações até que sejam concluídas.

 

A noite do crime

Kevi assistia televisão com a mãe e o irmão Alan, de 15 anos, quando levantou do sofá, por volta das 23h20, e decidiu ir para a rua observar o movimento. Diante do espelho, vestindo apenas uma bermuda, virou o boné para trás e pediu para o irmão levar uma cadeira de praia até a frente da casa. Em seguida, foi se acomodar próximo ao portão, onde costumava sentar para captar o sinal de internet. Cerca de 20 minutos depois, foi alvejado por cerca de 15 tiros de pistola 380. A irmã, que mora na vizinhança com o marido, não estava em casa quando Kevi foi morto, mas acredita que ele estivesse distraído no momento dos disparos. “Ele tinha compartilhado um post no Facebook dez minutos antes. Acho que ainda estava mexendo no celular e provavelmente nem viu quem atirou.” O post continha os dizeres “o justo não treme, guerreiro não gela”.

Família não tinha conhecimento de ameaças

Após terem largado a escola, Kevi e Denian de Oliveira faziam bicos em oficinas mecânicas, lavagens e demolidoras para se sustentar e ajudar a mãe. Além do trabalho, contudo, tinham pouco em comum: segundo a família, enquanto Denian era brincalhão e extrovertido, Kevi era mais reservado. “Ele não era muito de mostrar os dentes, não era tão espontâneo. Mas os dois faziam amizade fácil”, lembra a irmã Diuli, de 25 anos. Os parentes garantem que nunca souberam de nenhuma ameaça contra os irmãos.

“Fomos pegos de surpresa. Teve gente fazendo comentários nas redes sociais, dizendo que quem é inocente não morre. Acho que essas pessoas não sabem o que é perder um pedaço da gente. Um dos meus filhos estava sentado sem camisa na frente de casa e o outro, caminhando na rua. Se tivessem algum problema, iriam estar escondidos”, afirma a mãe, Marlene Schulz.

Em setembro do ano passado, a Polícia Civil prendeu três homens pela morte de Denian. Deivid dos Santos, de 27 anos, João Carlos Godoy, 36, e Anderson dos Santos Ramos, de 22 anos, foram identificados em outras investigações, que envolviam o tráfico de drogas. A mesma operação que capturou o trio apontou Marcelo do Carmo como suspeito de ser o mandante do homicídio. Apontado pela polícia como executor da facção Os Manos, ele já se encontrava preso na Penitenciária Modulada Estadual de Charqueadas.

Foto: DivulgaçãoDenian tinha 19
Denian tinha 19
Foto: DivulgaçãoKevi faria 21 anos
Kevi faria 21 anos