CASO GABRIELE 06/04/2019 02h03 Atualizado às 08h24

Motorista vai responder por homicídio doloso pela morte de jovem

Vítima morreu em decorrência de um acidente de trânsito

A casa que antes ecoava o ritmo de uma vida jovem e animada, nas imediações do Bairro Santo Inácio, em Santa Cruz do Sul, hoje é tomada pelo vazio. Ali morava Gabriele Schulte, de 19 anos, que morreu no dia 10 de dezembro, em decorrência de um acidente de trânsito, deixando com a família a saudade de uma menina alegre e carinhosa.

Nessa sexta-feira, após quatro meses de apuração, a Polícia Civil concluiu o inquérito que revela as circunstâncias da colisão. O motorista do carro, Leonardo Kroth, de 20 anos, filho do secretário de Obras de Santa Cruz, Leandro Kroth, foi indiciado por homicídio doloso, na modalidade de dolo eventual – quando se assume o risco de matar.

A investigação do caso, comandada pela delegada Ana Luísa Aita Pippi, foi pautada por desafios. Como a jovem faleceu após o acidente – exatos 30 dias depois – foi preciso recuperar muitas informações e descartar algumas possibilidades de prova material, como o teste do etilômetro. A polícia não pôde agir antes, pois enquanto a jovem estava no hospital tratava-se apenas de uma ocorrência de lesão corporal, que só é investigada mediante denúncia da vítima.

“O primeiro passo foi coletar imagens de câmeras, e tivemos a sorte de encontrar um estabelecimento que tinha e foi muito solícito em nos fornecer”, comentou a delegada. O vídeo mostra com exatidão o momento em que o Golf dirigido por Leonardo colidiu contra um poste na Rua Coronel Oscar Jost, nos fundos do Parque da Oktoberfest, às 6h35 de 10 de novembro, quando os jovens voltavam de uma festa realizada na sede campestre do União Corinthias.

A partir do registro, um laudo para atestar a velocidade do veículo foi solicitado ao Instituto Geral de Perícias (IGP). O trajeto de 52 metros percorrido pelo carro nas imagens foi medido pelos peritos, que concluíram que o automóvel estava a 88 quilômetros por hora, mais do que o dobro do permitido para a via. “E essa seria a velocidade de frenagem, porque no vídeo ele já aparece perdendo o controle da direção”, detalhou a delegada. Conforme Ana, o cálculo tem uma margem de erro, o que significa que a velocidade real poderia ser de 83 até 94 quilômetros por hora.

Além da prova pericial, foram ouvidas 12 testemunhas, entre enfermeiros, bombeiros e médicos que atenderam à ocorrência, além de amigos dos jovens que estavam na festa. “O condutor contou para um bombeiro e para a médica do hospital que havia ingerido bebida alcoólica durante a festa, e os amigos ratificaram isso”, revelou a delegada.

Apesar da confissão, Leonardo não passou por nenhum exame naquela manhã. “Nós não sabemos o nível de álcool, mas há testemunhas de que ele havia bebido e a perícia que comprova o excesso de velocidade. Para mim não há dúvida de que houve dolo eventual, pois ele assumiu o risco de causar um acidente grave e matar a vítima.”

Ainda segundo Ana, a  equipe da 1ª DP não mediu esforços para esclarecer o caso. “Isso não trará a vida da vítima, mas esperamos que sirva de alerta a jovens e adultos, que excesso de velocidade e álcool não combinam, e o resultado só pode ser fatal.”  Em depoimento, Leonardo preferiu ficar em silêncio. Nessa sexta-feira a reportagem da Gazeta do Sul tentou contato com o jovem, mas não obteve resposta.

Foto: Bruno PedryDelegada Ana Pippi comandou o caso
Delegada Ana Pippi comandou o caso

 

FICA UMA LIÇÃO

A notícia sobre o resultado das investigações foi recebida com alívio pelos pais de Gabriele, que entendem a punição como uma lição a ser aprendida por outros jovens. “Eu queria que tivesse sido um pesadelo, mas não foi e agora esse rapaz vai ter que pagar para aprender. Não tem nenhuma comemoração da nossa parte, mas não queríamos que isso ficasse impune e que outras famílias viessem a passar pela mesma coisa. O rapaz vai ter uma segunda chance de ser uma pessoa melhor no futuro, a minha filha não teve. Ela pegou uma carona para a morte sem direito de escolha”, comentou o pai da jovem, Fábio Schulte, de 51 anos.

Dois meses após a morte da filha ele também perdeu o pai, de 80 anos. “Tivemos que escolher caixão e passar por todo o processo de novo. Acho que ele morreu de tristeza. É uma coisa terrível ter que encaminhar um atestado de óbito da tua filha de 19 anos. Eu não estava assinando uma matrícula na faculdade, mas um atestado de óbito, e até hoje não acredito nisso.”

A mãe de Gabriele, Débora Schulte, de 47 anos, diz que gostaria de ser a última mãe a perder um filho nas circunstâncias em que Gabriele morreu. “Não nos traz alívio a punição em si, mas a lição que isso pode ensinar para os jovens de que existe consequência. Isso tem que parar.”

A advogada e amiga da família, Liziane Fischer, foi o elo entre a polícia e os pais da jovem. “Fiz esse contato porque eles queriam deixar claro que estavam à disposição e que estavam atentos ao que acontecia”, relatou. Além da solidariedade com os amigos, ela conta que, como mãe, também esperava pela pena que entende como adequada.

“Essa acabou se tornando uma luta de todos nós, pais de amigos e conhecidos da Gabi.”
De acordo com ela, a mudança de comportamento dos filhos e amigos é visível após o acidente. “Nós sabemos que ela não foi a primeira e nem vai ser a última vítima, mas esperamos que os casos diminuam nesse meio tempo, que os jovens peguem essa tragédia de exemplo para mudar e que aqueles que já se conscientizaram continuem nesse caminho.”

Foto: Bruno PedryA advogada Liziane Fischer e os pais deGabriele, Fábio eDébora Schulte
A advogada Liziane Fischer e os pais de Gabriele, Fábio e Débora Schulte

 

O acidente

Na noite anterior ao acidente que lhe tiraria a vida, Gabriele saiu de casa com duas amigas para ir a uma festa open bar na sede campestre do Clube União. Uma das jovens, que regulava de idade com Gabriele, era considerada amiga de confiança pela família. “Ou ela voltava com essa amiga ou de Uber. Sempre tinha dinheiro com ela para isso”, comenta o pai. Naquela ocasião, no entanto, a irmã da amiga precisou voltar mais cedo para casa, pois iria para o cursinho pela manhã, e foi embora com o carro.

Na hora de deixar a festa, Gabriele e a amiga decidiram que cada uma iria com um amigo, para que nenhum dos rapazes dirigisse sozinho. Um deles era Leonardo. Antes de ir para casa, Gabriele e Leonardo decidiram comer um cachorro-quente no Posto 1, na esquina das ruas Carlos Trein Filho e Fernando Abott.

Nas imagens coletadas pela Polícia Civil o carro aparece pela primeira vez passando pela Rua Coronel Oscar Jost, logo após o cruzamento com a João Pessoa, e invadindo a contramão. Em seguida, ele retorna para a pista correta e segue em direção ao cordão da calçada. O pneu traseiro, do lado da carona, bate na calçada e o veículo é arremessado contra um poste, atingindo em cheio o lado onde Gabriele estava. “Como ele estava muito rápido, não bateu e parou, mas continuou batendo, como se estivesse quicando contra o poste”, detalhou a delegada Ana Luísa Aita Pippi. De acordo com ela, a perícia do automóvel mostrou que não havia nenhum problema mecânico no carro.

“No vídeo a gente vê que ele perde o controle do veículo sozinho. Não há nenhum outro carro ou sequer um tachão na pista, o que mostra que os culpados foram o excesso de velocidade e os reflexos comprometidos pelo álcool.” Ainda conforme Ana, Leonardo estaria de cinto no momento da batida. As testemunhas que atenderam à ocorrência afirmaram que Gabriele estaria sem cinto, mas não foi descartada a possibilidade de que o cinto tenha se desprendido com o impacto. “Não havia marca de cinto no corpo e ninguém viu, mas não temos como provar que realmente estava sem.”

Foto: Divulgação

 

Os 30 dias na UTI

Eram 7 horas quando Fábio Schulte ficou sabendo que a filha caçula havia sofrido um acidente. Cinco minutos depois ele já estava no Hospital Santa Cruz, esperando notícias sobre o estado de saúde de Gabriele. A mãe da jovem, Débora Schulte, participava de um curso em Porto Alegre, e só tomaria conhecimento da situação mais tarde. Demorou pelo menos meia hora para que o pai entendesse a gravidade do que tinha acabado de acontecer. “Me mostraram uma foto em um celular, do carro batido contra o poste, e aí eu me apavorei”, relembra.

Leonardo Kroth, que dirigia o veículo onde a jovem estava, também recebia atendimento no HSC, mas Fábio não chegou a vê-lo. Ficou sabendo, pelo relato de amigos da filha que aguardavam por lá, que o rapaz logo foi levado para casa. Ele e Gabriele haviam saído de uma festa open bar naquele início de manhã, e ambos teriam ingerido bebida alcoólica durante a noite. A Brigada Militar esteve no hospital, mas Leonardo já havia sido liberado.

Naquela mesma manhã, os médicos chegaram a informar à família que Gabriele estaria indo a óbito, e Débora foi avisada para retornar ao município. As horas que seguiram foram difíceis, mas nem nos seus piores pesadelos Fábio e Débora poderiam imaginar o que viria pela frente. Pelos próximos 30 dias, Gabriele ficaria internada na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do hospital, onde permaneceria em estado gravíssimo durante todo o tempo.

Os três primeiros dias a jovem passou em coma induzido, para que não sentisse dor. Com o impacto da batida, ela perdeu uma grande quantia de sangue e teve lesões severas nos órgãos internos, especialmente no fígado. Com o passar das semanas, os rins pararam de funcionar e ela precisou passar por hemodiálises. Sem poder comer, era nutrida através de sondas.

“Teve um dia em que eles acharam que ela estava reagindo bem e tentaram dar alimento via oral, mas acabou voltando e foi parar nos pulmões. Mesmo com todos aqueles ferimentos, ela teve que ser colocada de bruços para que fosse revertido”, recorda o pai.

Durante o período na UTI, Gabriele ficou consciente por apenas duas horas, mas não conseguiu se comunicar. À mãe, apenas com o movimento dos lábios, pediu: vamos. “Ela queria ir embora, e eu disse que a gente iria, mas que ela precisava ser forte naquele momento”, conta Débora, emocionada.

O anúncio da morte

Os pais de Gabriele contam que a equipe do Hospital Santa Cruz não poupou esforços para tentar salvar a vida da jovem. “Ela aguentou 30 dias de muito sofrimento, e não teve o que os médicos não tentaram para ajudar”, comenta o pai. Na manhã do dia 10 de dezembro, após repetidas cirurgias e procedimentos, a equipe médica anunciou o pior.

“Eles me disseram que ela ia descansar. Uma criança de 19 anos ia descansar. Na hora em que ela se foi, estava com aqueles olhos verdes abertos chorando. Minha filha foi embora desse mundo chorando e eu nunca vou esquecer isso”, recorda a mãe. Gabriele morreu em decorrência de um quadro de sepse (infecção generalizada) e de falência múltipla dos órgãos. A jovem também havia fraturado o ombro e a bacia, e havia indícios de que teria fraturado um osso do rosto.

Uma rede de conforto e solidariedade

Desde os primeiros minutos após o acidente, amigos, conhecidos (e também alguns desconhecidos) procuraram a família de Gabriele para prestar apoio. No hospital, as visitas eram diárias, e a mãe dividia o tempo que tinha para passar com a filha com os amigos que faziam questão de estar presentes.

“Sempre teve alguém do lado dela, e os médicos até recomendavam que os amigos entrassem e conversassem, para que ela ouvisse vozes diferentes”, lembra a mãe. No cemitério onde agora Gabriele descansa, os mesmos amigos fizeram questão de levar fotos do grupo, para que a jovem nunca ficasse sozinha. De acordo com a mãe, Débora Schulte, todas as noites um deles a procura para saber se está tudo bem e oferecer ajuda. Semanalmente ela recebe visitas dos jovens, que chegam com fotos e recordações da filha.

“Eles me apoiam e eu dou força para eles, porque são crianças que precisam disso. Um deles me ligou essa semana, disse que estava muito ruim naquele dia e perguntou: ‘o que eu faço, tia?’ Eu disse: ‘reza’”, conta. Fábio, ao ouvir o relato da esposa, complementa: “Se fosse pelas orações, ela tinha sobrevivido.” Segundo a mãe, até mesmo pessoas desconhecidas a procuram para mandar mensagens de apoio. “Algumas me contam que conheciam a Gabi, mas tem gente que só se solidariza mesmo e me deseja força para superar tudo isso.”

Com as fotos que tem recebido, e outras que manda revelar a partir de garimpos nas redes sociais, a mãe está redecorando o quarto da filha.  O plano das duas era reformar o cômodo em janeiro desse ano, e Débora está atendendo a todos os desejos da jovem. “Ela queria as paredes mais claras, a cama maior, o lustre. Estou providenciando tudo, porque é algo que me ajuda. Quero que aqui seja um lugar dela, para que eu possa vir, chorar, lembrar e me sentir perto da minha filha. A Gabi era minha alma gêmea, a gente era muito parecida, é uma dor que não tem explicação”, relata, entre lágrimas.

Anotações do curso de Psicologia, escritas pela jovem na sexta-feira anterior ao acidente, foram plastificadas e guardadas. Em um diário, a mãe também registra todas as visitas de amigos e novidades que gostaria que a filha soubesse. “É meu jeito de conversar com ela. É o que eu posso fazer agora.”

Leonardo, que também fazia parte do grupo de amigos da jovem, nunca entrou em contato com os pais de Gabriele, segundo eles. O jovem e a moça se conheciam desde pequenos, quando estudavam no Colégio Goiás. Dois meses antes do acidente Débora chegou a rever o rapaz. “A Gabi chegou da aula com dor de garganta numa noite e fomos para o hospital, e ele estava lá porque tinha cortado o pé”, recorda.

Por meio de conhecidos, o casal ficou sabendo que Leonardo teria ido a uma missa em homenagem à filha, mas não o viram na igreja. “Ele não era amigo dela de verdade, não ficou no hospital para ver como ela estava e nunca nos procurou, nunca mostrou solidariedade com a gente. Se ele não tem coragem de falar podia mandar uma mensagem, deixar um bilhete no correio, mas nunca nos procurou.”

QUEM ERA GABRIELE

Gabriele Schulte tinha 19 anos e era a caçula das duas filhas de Fábio e Débora Schulte – e a única que ainda morava com os pais.  Estudante de Psicologia na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), sonhava em trabalhar na área hospitalar. “A Gabi era amiga de todo mundo, não via diferença nas pessoas, todo mundo era bom para ela”, conta a mãe. 

“Os 19 anos dela, ela viveu da forma que sempre quis: viajou, saiu com os amigos, aproveitou muito. Minhas filhas foram criadas livres, mas sabendo dos riscos de tudo. Não teve um dia que a Gabi ficou em casa triste, proibida de algo.” O pai complementa. “A gente fica feliz porque ela foi feliz. Isso nos traz um pouco de alívio.”

Foto: Divulgação