Venâncio Aires 13/05/2019 23h46 Atualizado às 07h27

Homem que matou a esposa e se suicidou não aceitava a separação

Aurimar Gollmann, de 62 anos, era querido pelos vizinhos e não tinha antecedentes criminais. O caso chocou os moradores

A notícia de que o pintor Aurimar Gollmann, de 62 anos, havia atirado no próprio rosto após desferir um tiro de espingarda contra a esposa chocou os moradores do final da Rua Emiliano de Macedo, no Bairro Gressler, em Venâncio Aires. A artesã Nélia Bertha Gollmann, de 56 anos, foi morta com um tiro no olho, na cama do casal. A Polícia Civil acredita que ela estava dormindo quando foi atacada pelo companheiro, o que teria acontecido entre as 6 horas e 6h30 dessa segunda-feira. Em seguida, em um canto do quarto, o homem tirou a própria vida. Ele foi encontrado sentado, com a arma na mão.

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A Brigada Militar de Venâncio Aires foi acionada por volta das 10h30. O aposentado Dorival Rodrigues da Silva, de 58 anos, que mora na residência ao lado, foi quem avisou a guarnição. Ele estava em casa na manhã dessa segunda-feira quando foi chamado pela mãe de Nélia, que morava com a filha e o genro. A “vozinha”, como é carinhosamente chamada por ele, contou que estava com fome e precisava tomar os remédios diários, que ainda não haviam sido ministrados pela filha. O vizinho levou a mulher de volta para casa, acomodou-a na cama e foi procurar pelo casal. Ao tentar abrir a porta do quarto deles, deparou-se com o cômodo trancado, mas não chegou a desconfiar de nada.

“Eu fiquei preocupado quando vi que o carro dele estava na garagem. Peguei um celular que estava em um balcão e tentei ligar. O celular da Nélia chamou em casa, e eu decidi ligar para o filho dele”, conta. Cerca de 15 minutos depois de chamado, o filho, de 35 anos, chegou na residência. Acompanhado de Dorival, ele arrombou a porta do quarto dos pais e se deparou com a cena de um crime brutal. “Eu fiquei realmente abismado, porque não esperava isso, nunca vi os dois sequer discutirem. Quando a gente entrou no quarto, ele (o filho) segurou a Nélia e disse: ‘Minha mãe, minha mãe’. Não pude deixar ele ali, então tratei de tentar acalmá-lo e chamei a polícia”, detalhou o vizinho.

Depois da chegada da Brigada Militar, a Polícia Civil fez os levantamentos no local. De acordo com o delegado Vinícius Lourenço de Assunção, o casal estava junto há 30 anos, mas recentemente teria dado início ao processo de separação. “Mas ele não aceitava. Teria dito aos filhos que tinha vontade de se matar, porque não iria conseguir viver sozinho”, revelou o delegado. Conforme Assunção, os familiares também contaram que Nélia e Aurimar vinham discutindo recentemente, mas ele, no entanto, nunca teria agredido a companheira.

Aurimar Gollmann não tinha nenhum antecedente criminal, e também não havia denúncias de violência doméstica envolvendo os dois. Conforme a Funerária Kist, o velório do casal acontece desde as 21 horas dessa segunda na Comunidade Evangélica de Linha Marechal Floriano. O sepultamento ocorrerá na manhã dessa terça-feira, na mesma localidade, às 10h30.

Dois feminicídios

O caso dessa segunda foi o segundo feminicídio registrado em Venâncio Aires nos últimos oito dias. No dia 5, a vítima foi Júlia Graziela de Mattos Correa, de 19 anos. Ela foi morta com golpes de enxada, em Linha Coronel Brito, pelo companheiro André dos Santos Nepomuceno, de 32 anos, que teria ciúmes da jovem. Um dia depois do crime, ele foi encontrado morto em um matagal nos fundos da casa onde assassinou a mulher.

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A família perfeita

A cena que presenciou nessa segunda não irá sair da memória de Dorival tão cedo. O que mais chocou o vizinho, porém, foi o fato de que marido e mulher nunca demonstraram nenhum tipo de comportamento agressivo ou problemas conjugais nos dez anos em que viveram na casa. “Foi um choque tremendo. Ele era um homem calmo, conversava com a gente todos os dias quando chegava do trabalho. Nos visitamos umas duas vezes só, mas na cerca a gente estava sempre conversando. Falávamos de negócios e de tudo um pouco.” Conforme o aposentado, o vizinho trabalhava com serviços gerais, como pintura e limpeza de residências, e falava em abrir uma empresa nesse ramo. “Mas ele tinha medo de ter funcionários que não fizessem o serviço direito, aí se virava sozinho e com os filhos.”

Certa vez, Dorival teve um problema com um enxame de abelhas e se surpreendeu com a atitude de Aurimar. “Era uma colmeia no pátio deles que começou a atacar nossa criação de coelhos, aí colocamos fogo e aquilo ficou queimando por dias. Achamos que ele ia ficar chateado, mas levou tudo numa boa. Outra coisa era que ele dizia sempre para eu colocar o meu carro na sombra dele, porque aqui na frente da nossa casa tem sol. Se oferecia até para guardar o carro dele para ter lugar para o meu.” Segundo a esposa de Dorival, a diarista Eliane, de 50 anos, Nélia também tinha uma personalidade muito amigável. Nos últimos tempos ela ficava em casa com a mãe, que precisava de cuidados, mas já deu aulas de artesanato na Associação de Artesãos de Venâncio (Arteva), onde ensinava a fazer crochê. “Era uma mulher muito dedicada à família, à casa e aos filhos, e sempre foi muito querida com todos na vizinhança.” A mãe de Eliane costumava tomar chimarrão diariamente com o casal e nunca viu os dois discutirem. “Acho que ele tinha problemas, mas guardava as coisas para si. Isso não é bom para a pessoa, porque uma hora ela explode”, comentou Dorival.

Uma outra vizinha do casal, que preferiu não se identificar, também disse ter ficado surpresa com o caso, pois considerava Nélia e Aurimar “uma família perfeita”. Os filhos dela, de 14 e 3 anos, costumavam tomar café da tarde diariamente com Nélia, a qual, segundo ela, era uma pessoa alegre e sempre disposta a ajudar. “Ele (Aurimar) também era muito querido e risonho. Teve uma vez em que meu marido deu uma ré e bateu no carro dele, e ele foi extremamente compreensivo. Levou o carro para consertar e disse que era para pagarmos quando desse”, lembra. A vizinha recorda, no entanto, que há cerca de duas semanas viu Nélia sair para fora de casa com a expressão aflita. Minutos depois, Aurimar teria saído atrás dela, e não teria cumprimentado os vizinhos naquele dia. “Ficamos pensando que alguma coisa tinha acontecido, porque aquele não era o comportamento normal deles. Eram realmente pessoas muito legais, com quem nós tínhamos uma convivência muito boa.”

Foto: ReproduçãoCasal será velado na manhã desta terça-feira
Casal será velado na manhã desta terça-feira

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